Adriano Machado/Reuters
Adriano Machado/Reuters

Com crise de suprimentos, Mandetta pede para cidadão fazer máscara de pano

Ministro da Saúde traça cenário de extrema dificuldade para aquisição de insumos básicos de proteção contra o coronavírus

André Borges, Idiana Tomazelli, Julia Lindner, O Estado de S.Paulo

01 de abril de 2020 | 19h48

BRASÍLIA - O ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, traçou um cenário de extrema dificuldade para aquisição de insumos básicos de proteção contra o novo coronavírus e recomendou à população que pare de comprar máscaras descartáveis e faça a sua própria peça de proteção, com pano e elástico. Mandetta também reforçou que o isolamento social, medida criticada pelo presidente Jair Bolsonaro, é o que tem evitado que o Brasil mergulhe em uma “espiral de casos” de contaminação.

A escassez dos chamados Equipamentos de Proteção Individual (EPIs), que incluem máscaras, luvas e álcool em gel, por exemplo, além da falta de sopradores mecânicos, levou a crise do desabastecimento para dentro dos hospitais de todo o País. “Hoje, nós estamos muito preocupados com a regularização de estoque desses equipamentos”, disse Mandetta, durante divulgação sobre a situação do novo coronavírus, no Palácio do Planalto.

“Se nós não fizermos retenção de dinâmica social, se nós sairmos, nos aglomerarmos, se fizermos movimentos bruscos e relaxarmos nesse grau de contágio, sim, você pode ficar com uma série de problemas em equipamentos de proteção individual, porque nós não estamos conseguindo adquirir de forma regular o nosso estoque”, comentou Mandetta.

Até esta quarta-feira, o Ministério da Saúde registrou 6.836 casos de covid-19 e 240 mortes.  Mandetta admite que o número real é maior. Com o aumento da realização de testes, a quantidade de pessoas contaminadas deve crescer rapidamente na próxima semana. "Não é hora de relaxar, não é hora de fraquejar, a hora é de redobrar o cuidado”, disse.

"Já estaríamos em espiral de casos se não estivéssemos em isolamento. Lembrando, o Brasil não fez lockdown (fechamento total), o que fez foi diminuição da circulação. Agora precisa redobrar o esforço, se não vamos ter problema de EPI (equipamentos de proteção individual)", alertou.

Para evitar o travamento dos hospitais, o ministro pediu que a população faça a sua própria máscara e pare de buscar esse tipo de produto. “Quem fez estocagem domiciliar (de máscaras)... é na unidade de saúde que tem que ter. Acho que máscaras de pano para os comunitários (população) funcionam muito bem como barreira. Não é caro de fazer, fazer você mesmo e lave com água sanitária”, disse o ministro. 

“Tenha quatro ou cinco máscaras dessas, lave com água sanitária. Agora, é lutar com as armas que a gente tem. Não adianta agora ficar lamentando que a China não está produzindo. Nós vamos ter que criar as nossas armas e serão aquelas que nós tivermos.”

China

O gigante asiático, onde a covid-19 surgiu, é agora o grande destino de todo o planeta, que busca a compra de suprimentos para se proteger da pandemia. “O que o Ministério da Saúde está fazendo é uma grande compra e esperar que a China pacifique o mercado, para que a gente possa ir. Quando o mundo acabar dessa epidemia, eu espero que nunca mais o mundo cometa o desatino de fazer 95% da produção de insumos que decidem a vida das pessoas em um único país”, comentou Mandetta. “Isso é uma das partes das discussões do pós-epidemia. Hoje nós não estamos vivendo a gravidade de um vírus que pode até não ser tão letal, mas para o sistema de saúde do mundo, esse vírus esta sendo extremamente grave.”

O ministro também criticou a Índia, por ter segurado a exportação de insumos. “A Índia produz 94% dos insumos dos remédios, que são os remédios que a gente toma para pressão, diabetes, outras doenças. Se hoje a gente está super preocupado, correndo atrás de máscara, daqui a 45 ou 60 dias, a gente pode estar correndo atrás da matéria-prima para fazer o medicamente do controle das doenças crônicas.”

O isolamento e os cuidados com a higiene continuam a ser a melhor forma de evitar o contágio. “Só há uma solução nesse momento. O que cada um pode fazer para baixar ao máximo a transmissão é, além de consumir o mínimo possível desses itens, diminuir bem a movimentação social. Todos estão preocupados com o desdobramento do mundo que chegou até aqui. Esse vírus questiona a maneira como a sociedade se organizou até agora, para ter esse estilo de consumo em saúde.”

Testes

Apesar da baixa confiabilidade dos testes rápidos adquiridos pelo Ministério da Saúde e doados por empresas, Mandetta disse que o objetivo maior, com esse recurso, é testar trabalhadores da saúde, entre outros. “Esse teste vai aumentar muito a nossa percepção sobre o vírus. Aí, a gente faz o trato estatístico disso e usa como uma boa ferramenta de auscultar a dinâmica da sociedade”, disse.

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