Com epidemia de Ebola, África tem mercado paralelo de sangue

Sem tratamento nem vacina contra Ebola, surge comércio informal envolvendo transfusões de sobreviventes; método é controverso

Jamil Chade, CORRESPONDENTE/GENEBRA, O Estado de S. Paulo

11 de outubro de 2014 | 18h36

Na quarta-feira, foi registrada a primeira morte por Ebola nos Estados Unidos – nem um remédio experimental impediu o óbito de Thomas Duncan. No mesmo dia, médicos de Omaha que tratam um cinegrafista da NBC festejaram o fato de o doutor Kent Brantly, primeiro americano a sobreviver ao vírus no atual surto, aceitar fazer uma doação de sangue. Sem remédios nem vacinas confiáveis, o uso de transfusões em pacientes, que ajudariam a criar anticorpos, é controverso e criou um mercado paralelo que preocupa entidades de saúde.

“Estudos mostram que a transfusão de sangue de sobreviventes pode prevenir ou tratar o vírus em outras pessoas”, afirma um documento científico da Organização Mundial da Saúde (OMS) enviado aos médicos e especialistas. “Mas os resultados ainda são difíceis de interpretar”, admitiu a entidade. “Não se sabe se os anticorpos no plasma são suficientes para tratar a doença e mais pesquisa é necessária”, insiste o texto.

Desde que essa opção foi colocada sobre a mesa, porém, a OMS confirma em documentos internos que passou a notar um intenso comércio de sangue em Libéria, Guiné e Serra Leoa. Até sábado, 11, oficialmente, mais de 4 mil pessoas já haviam morrido nos três países. Mas a estimativa da OMS é de que o número real possa ser bem maior.

“As pessoas não querem mais esperar por uma vacina que ninguém sabe quando vem”, declarou ao Estado um especialista da OMS que acaba de deixar a África Ocidental. Pedindo anonimato, ele confirmou que o comércio de sangue é “generalizado”, principalmente nas grandes cidades, como as capitais Monróvia (Libéria) e Freetown (Serra Leoa). “Não há mais equipamentos nem sangue nos hospitais públicos. Portanto, sobrevive quem paga”, declarou.

Riscos. Esse comércio estaria sendo conduzido por pessoas sem experiência no setor médico e controlado, em alguns casos, por grupos criminosos. O temor da OMS é de que se transforme em novo foco de transmissão de outras doenças, entre elas a aids. “Precisamos trabalhar com os países afetados para abafar o mercado negro”, declarou a diretora-geral da OMS, Margaret Chan.

Para ela, há pelo menos dois motivos de preocupação com o mercado negro. Um deles é a necessidade de que se garanta que o sangue não esteja contaminado. E isso só é possível em hospitais. Além da aids, a entidade alerta para as ameaças de hepatite B, hepatite C e sífilis.

Outra preocupação é de que pessoas comecem a vender sangue de outras que jamais tiveram a doença, só para lucrar. Se não bastasse isso, a OMS admite que a sugestão de que sangue possa ser usado fez surgir a expectativa de criar estoques, o que jamais foi o caso. “Questões fundamentais precisam ser respondidas sobre segurança e eficiência do tratamento”, indicou.

A realidade é que a própria organização internacional vem usando o “mito” da cura com o sangue como forma de convencer pacientes a deixarem suas cidades e se tratarem em grandes centros. Isso, na prática, retira doentes de famílias e comunidades e reduz contaminações. Além disso, entidades como a Fundação Bill & Melinda Gate estão comprometidas a investir em tratamentos com base em transfusões.

Histórico. O uso de plasma para a cura data do século 1800 e por anos foi a forma mais eficiente para lidar com algumas doenças tropicais. O prêmio Nobel de Medicina de 1901 foi dado justamente a um cientista que utilizou sangue humano para lidar com difteria. Anos depois, em 1918, parte da população foi tratada com sangue para frear a gripe espanhola.

No caso do Ebola, o primeiro teste ocorreu ainda em 1976, quando o cientista e descobridor do vírus Peter Piot levou para a Europa uma amostra. Naquele ano, uma mulher da República Democrática do Congo recebeu plasma. Mas morreu.

De fato, nem todas as experiências tem sido positivas. Em 1995, a transfusão foi realizada em um surto na República Democrática do Congo. Mas sete dos oito pacientes testados acabaram morrendo. Em 2007, testes com o sangue em macacos não produziram os resultados esperados. O próprio governo americano afirmou que poderia abandonar as pesquisas. “Dados os resultados desencorajadores e os riscos de transmitir infecção, a transfusão de sangue, mesmo sob condições econômicas desesperantes, não é bem-vinda”, afirmou-se.

No atual surto, o sangue de Brantly já foi usado com sucesso em Rick Sacra, um americano que se curou em setembro do Ebola, no mesmo hospital de Nebraska. Com número de casos praticamente dobrando a cada mês na África, contrabandistas e uma parte da sociedade preferem agora arriscar.

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