AP Photo/Ishant Chauhan
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Com esperança menor de imunidade de rebanho, o mundo talvez precise aprender a viver com o vírus

Especialistas dizem que novas variantes e mutações mais contagiosas podem tornar o vírus endêmico, uma ameaça sempre presente

Andrés R. Martínez, The New York Times

11 de maio de 2021 | 15h00

No início da pandemia, havia esperança de que um dia o mundo alcançasse a imunidade coletiva, o ponto em que o coronavírus carecesse de hospedeiros suficientes para se espalhar. Mais de um ano depois, contudo, o vírus está esmagando a Índia com uma terrível segunda onda e explodindo em países da Ásia à América Latina. Os especialistas agora dizem que o vírus está mutando muito rapidamente, que novas variantes mais contagiosas estão se alastrando com muita facilidade e que as vacinações estão acontecendo muito lentamente para se alcançar a imunidade de rebanho.

Isso significa que, se continuar a se espalhar em grande parte do mundo, o vírus estará a caminho de se tornar endêmico, uma ameaça sempre presente.

As variantes do vírus estão invadindo lugares onde as pessoas se reúnem em grande número com pouco ou nenhum protocolo de pandemia, como o uso de máscaras e distanciamento, de acordo com David Heymann, professor de epidemiologia de doenças infecciosas da Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres.

Embora o surto na Índia esteja chamando mais atenção, Heymann disse que o alcance generalizado do vírus significa que é cada vez maior a probabilidade de ele persistir na maior parte do mundo.À medida que mais pessoas contraem o vírus e que o ritmo das vacinações se acelera, os surtos futuros não terão a mesma escala daqueles que estão devastando a Índia e o Brasil, disse Heymann. Devemos esperar surtos menores e menos mortais, mas que serão uma ameaça constante, disse Heymann.

“É a progressão natural de muitas infecções em humanos, seja tuberculose ou HIV”, disse Heymann, ex-membro do Serviço de Inteligência de Epidemiologia dos Centros para Controle e Prevenção de Doenças e ex-funcionário sênior da Organização Mundial da Saúde. “Elas se tornaram endêmicas e aprendemos a conviver com elas e aprendemos a fazer avaliações de risco e a proteger aqueles que queremos proteger”.

Vacinas altamente eficazes contra a covid foram desenvolvidas rapidamente, mas a distribuição global tem sido lenta e desigual. Se os países ricos acumulam doses de vacina, os países mais pobres estão enfrentando grandes desafios logísticos para distribuir as doses que conseguem obter e a hesitação diante da vacina é um problema em todos os lugares. Especialistas alertam que o mundo está sendo vacinado muito lentamente para que haja esperança de algum dia eliminar o vírus.

Apenas dois países vacinaram totalmente mais da metade de suas populações, de acordo com o projeto Our World in Data da Universidade de Oxford. São Israel e a nação das Seychelles, da África Oriental, um arquipélago com uma população de menos de 100 mil pessoas. E apenas um punhado de outros países vacinou, pelo menos parcialmente, quase 50% ou mais, entre eles Grã-Bretanha, o minúsculo Butão e os Estados Unidos.

Menos de 10% da vasta população da Índia está pelo menos parcialmente vacinada, oferecendo pouca resistência ao ataque das infecções.

Na África, o número é ligeiramente superior a 1%.

Ainda assim, especialistas em saúde pública dizem que um número relativamente pequeno de países, principalmente ilhas, manteve o vírus sob controle e conseguirá mantê-lo sob controle após vacinar um número suficiente de pessoas.

Por meio de restrições rigorosas e do fechamento de fronteiras, a Nova Zelândia praticamente eliminou o vírus. Michael Baker, epidemiologista da Universidade de Otago que ajudou a desenvolver a resposta ao coronavírus do país, disse que a Nova Zelândia provavelmente alcançaria imunidade coletiva ao imunizar sua população, mas ainda tem um longo caminho a percorrer, com apenas 4,4% dos neozelandeses em pelo menos parcialmente vacinados.

“Todas as pesquisas mostram que há um grau de hesitação diante da vacina na Nova Zelândia, mas muitas pessoas também estão muito entusiasmadas”, disse Baker. “Então, acho que provavelmente chegaremos lá”.

Embora os novos casos diários tenham permanecido em níveis quase recordes no mundo, o número de mortes caiu de um pico em fevereiro, indo contra o padrão normal de altas de casos seguidas por altas de óbitos. Se essa tendência continuar, pode oferecer um vislumbre de esperança para um cenário futuro pelo qual os cientistas estão torcendo: mesmo que o vírus se espalhe e pareça estar se esforçando para virar endêmico, ele pode se tornar uma ameaça menos letal, que talvez possa ser controlada com vacinas atualizadas periodicamente para proteção contra variantes.

“Pode ser algo endêmico, mas não de um jeito fatal”, disse Michael Merson, professor de saúde global na Duke University e ex-diretor do Programa Global sobre AIDS da Organização Mundial da Saúde. “Pode ser mais parecido com o que vemos com as crianças pequenas, uma doença semelhante ao resfriado comum”. / Tradução de Renato Prelorentzou 

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