Werther Santana/stadão
Tatiana Loureiro, de 42 anos, estava à beira de um burnout quando decidiu participar de um retiro Werther Santana/stadão

Tatiana Loureiro, de 42 anos, estava à beira de um burnout quando decidiu participar de um retiro Werther Santana/stadão

Com foco em autoconhecimento, retiros ampliam público na pandemia

Focados mais em promover práticas de autocuidado do que em religiosidade, encontros promovem conexão com a natureza, alimentação saudável e dinâmicas como ioga e meditação

Kátia Arima , Especial para o Estadão

Atualizado

Tatiana Loureiro, de 42 anos, estava à beira de um burnout quando decidiu participar de um retiro Werther Santana/stadão

O trânsito, a agenda lotada, as metas no trabalho, as tretas nos relacionamentos. Está com vontade de deixar de lado essa bagunça por alguns dias para cuidar de você? Participar de um retiro pode ser uma forma de proporcionar a si mesmo o tempo, o ambiente e a atenção necessária para se sentir melhor. Mas é importante escolher um retiro alinhado com as suas intenções e perfil e estar aberto para novas experiências e conexões.

“O retiro não só permite descansar, mas fazer um tipo de limpeza interna, por meio de uma alimentação mais saudável e conexão com si mesmo. Em um lugar bonito, você fará práticas com pessoas que estão com o mesmo objetivo”, descreve a farmacêutica Irenilda Silva, 43 anos, que já perdeu as contas de quantos já conheceu pelo Brasil. Está sempre de olho na agenda de diversos retiros e planeja o próximo para novembro, para meditar no Monte Roraima, na fronteira do Brasil, Venezuela e Guiana, a 2.810 metros de altitude.

Diferentes de um spa, que é focado no descanso e relaxamento, os retiros promovem autoconhecimento e autocuidado para o corpo e a mente em grupo. A ioga, a meditação, a natureza, a tranquilidade e a alimentação saudável são ingredientes comuns à maioria dos retiros, mas há variações em alguns quesitos, como religiosidade ou espiritualidade, o que tem um impacto tanto na programação como no perfil dos participantes. Os retiros têm “temperos diferentes”, para gostos diversos, e geralmente acolhem tanto quem nunca praticou ioga ou meditação como os mais experientes.

A variação também acontece nos preços dos pacotes, que oscilam conforme a qualidade ou sofisticação da hospedagem e das refeições, os custos de transporte e a programação. Ou seja, há opções para todos os bolsos: vão de R$ 900, com duas noites de hospedagem em quarto duplo, atividades e refeições, a R$ 8.500, para um período de quatro dias em hotel mais luxuoso, também com refeições e atividades incluídas.

Alguns locais se especializaram em receber retiros, com estrutura para hospedagem de grupos e ambientes que proporcionam tranquilidade e silêncio. É o caso da Fazenda Lila, em São Bento do Sapucaí (SP), que ocupa uma área de 120 hectares e já recebeu centenas de retiros desde 2012. Os visitantes podem praticar ioga, meditação e outras atividades no deque com vista para a Pedra do Baú, na Serra da Mantiqueira, e nadar numa piscina de águas da fonte. As refeições vegetarianas são preparadas principalmente com ingredientes da horta e do pomar. Na agenda, há retiros organizados pela própria família ou por profissionais parceiros. “Selecionamos propostas que tenham a ver com a nossa filosofia, com vivências que despertam a consciência e a conexão com a natureza”, diz Marcella Karmann, sócia da Fazenda Lila.

Em fevereiro, a gerente comercial Roberta Fernandes Dias, de 38 anos, esteve na Fazenda Lila, para participar do retiro Akasha. Chegou até lá por meio de uma pesquisa na internet, à procura de um presente de aniversário para a sua esposa, que é fã de retiros. “Ela sempre ia sozinha. Eu achava que fosse algo chato”, diz Roberta. Porém, foi surpreendida: participou de toda a programação e adorou. Praticou ioga e meditação, algo que nunca tinha feito - e inseriu depois na sua rotina. “Tenho dificuldade de relaxar, mas dormi bem todos os dias.” Ela afirma que voltou feliz, mais leve, com novas amizades e vontade de repetir a experiência outras vezes.

Organizadora do Akasha, a professora de ioga Pollyana Almeida Grotti tem notado um crescimento na procura pelos retiros. “São pessoas em busca de um respiro, muitas vezes por indicação médica. Vivem na correria e se afastam de si mesmas, até o corpo não aguentar mais”, diz. Na programação, ela inclui atividades que convidam a olhar profundamente para si, seja por meio do movimento do corpo, da conversa ou dos sentidos. Para algumas pessoas, isso pode gerar um desconforto, que é uma barreira inicial a ser quebrada, segundo a professora. “Quando a pessoa olha para dentro, se existe uma dor, pode ser um incômodo. Se a pessoa chora, se alivia e se sente melhor”, explica.

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Quando a pessoa olha para dentro, se existe uma dor, pode ser um incômodo. Se a pessoa chora, se alivia e se sente melhor
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Pollyana Almeida Grotti, professora de ioga

Pollyana diz isso baseada não só na observação dos seus alunos, mas na sua própria vivência em retiros. Quando esteve em 2019 em um retiro no Centro de Yoga Montanha Encantada, em Garopaba (SC), ela participou de uma atividade em dupla, em que a proposta era falar sobre algo que lhe causasse dor, enquanto a outra pessoa se empenhava em uma escuta atenta e amorosa. Pollyana conta que fez um esforço para não se emocionar, mas começou a chorar. “E foi dessa forma que eu me perdoei. Senti que tinha tirado 20 quilos das costas”, diz. 

A próxima edição do retiro Akasha será realizada em outro lugar especializado em retiros, a Prema - Casa da Montanha, em Monteiro Lobato (SP). Mantido pelas irmãs Daniele e Aline Bertolo desde 2019, o espaço foi concebido para receber vivências imersivas junto à natureza e já recebeu encontros como de ioga, xamanismo, fotografia, culinária vegetariana e dança. “Queremos proporcionar às pessoas acolhimento do corpo, mente e espírito, para que ela possa se olhar, se nutrir e se transformar”, diz Daniele. 

Viviane Filipini, de 47 anos, que trabalha com marketing, participou em novembro do retiro Sol e Silêncio, organizado por Aline e Daniele, junto com a filha e uma amiga dela. “Fomos convidados a observar e ouvir os quatro elementos da natureza, com silêncio não só na fala, mas no olhar e nos gestos. Foi um desafio, mas adorável”, conta. 

No deque da Prema, que dá vista para as montanhas, Viviane e outros participantes do grupo foram convidados a fazer movimentos com o corpo, ao nascer do sol, numa atividade relacionada ao elemento ar. “Elas fizeram uma referência ao passado, presente e futuro e senti uma profunda emoção naquele momento, pois acolhi minha jornada até então, deixando para trás o que não me servia mais. As lágrimas rolaram, mas foi de gratidão”, recorda-se. Na vivência relacionada ao elemento água, Viviane se sentiu fortalecida. “Entrei embaixo da cachoeira e senti minha potência, a minha capacidade de me adaptar e fluir, transpor obstáculos.”

Descontração e risadas

Nem todo retiro é silencioso. A sapateadora Samantha Natacci Sá, de 32 anos, participou de um grupo bem agitado no evento (Des)conectando, organizado pela professora de ioga Sofia Costa, realizado em Paraty (RJ), no Dharma Shala Yoga Village. Samantha conheceu Sofia pelo Instagram e percebeu que a professora conduzia a prática de ioga com leveza e diversão.

“O grupo conectou 30 mulheres bem diferentes, mas a maioria bem faladeira como eu. Foi maravilhoso”, aprova, embora confesse que precisou se afastar do grupo algumas vezes para garantir o seu momento de introspecção. Gostou muito do ambiente, do atendimento e das refeições. “É um lugar mágico, no meio da natureza, que tem até uma cachoeira. Adorei a comida vegetariana e parei de comer carne depois que estive lá”, conta. 

Retiros de diversos tipos são sediados pelo Dharma Shala, por onde já passaram mais de 10 mil pessoas nos seus 20 anos de funcionamento, segundo o proprietário Antonio Carlos Vargas Filho, que prefere ser chamado de Atyutananda Dasa, seu nome espiritual. Dos mil retiros já realizados, alguns são organizados pela casa, mas a maioria é conduzida por parceiros, enquanto a equipe do local prepara a estrutura de hospedagem e alimentação vegetariana e orgânica. “Os retiros têm temáticas diferentes, como de canto gregoriano, astrologia, culinária vegetariana, ayurveda e meditação”, exemplifica. 

No centro de uma ecovila, estão os bangalôs com arquitetura e decoração de inspiração indiana e três salas para as práticas, rodeados de muito verde, com vista para o mar e as montanhas de Paraty. Há uma cachoeira dentro da propriedade e espaço com oferta de massagens e terapias integrativas. No templo hinduísta, uma cerimônia com mantras é realizada ao nascer do sol. “É um refúgio físico, mental e espiritual, onde as pessoas podem encontrar uma alívio para a rotina pesada”, resume o proprietário.

Dentro de um temazcal, uma cabana de vapor inspirada em práticas indígenas, a empresária Tatiana Loureiro, de 42 anos, viveu seu momento mais marcante do retiro Caminho do Coração, do qual participou em novembro. “Naquele calor de 50 graus, ficamos apertadinhas cantando e rezando. Foi muito lindo”, conta. Ela conta que se sentiu “chamada” a participar do retiro em um momento que estava à beira do burnout, pois isso resolveu dar uma pausa urgente.“Estava exausta e sem vontade de viver, tomando medicamentos antidepressivos. Mas mergulhei de corpo e alma nas vivências e pude me reconectar comigo mesma.”

O espaço Villa Tanah, em São Roque (SP), também foi aprovado por ela. “O lugar tinha cachoeira, uma energia muito positiva. Numa sala envidraçada que fica sobre um lago fazíamos as atividades, como de musicoterapia. Uma delícia!” Após quatro dias, Tatiana sentiu-se transformada, o que refletiu na sua vida: passou a se permitir fazer coisas que lhe davam prazer, como o mergulho, e fez uma mudança do seu próprio cargo na sua empresa.

Escolhendo o retiro

O retiro Caminho do Coração não é voltado ao descanso, esclarece uma das organizadoras, a coach e terapeuta integrativa Mariana Nahas. “A pessoa que chega desavisada pensa que ficará em um spa para comer bem e meditar, mas passa por vivências profundas que ajudam a reencontrar o seu eixo e sua potência.” 

Os retiros podem revelar as “sombras” das pessoas, principalmente em períodos mais longos, de mais de 3 dias, segundo a psicóloga Miila Derzett, especialista em ioga restaurativa e autora dos livros Relaxe! e Super Descanso. Por isso, ela não recomenda a experiência a pessoas com depressão, que devem ser acompanhadas por um psiquiatra. “Um retiro pode revirar uma pessoa emocionalmente. Ela pode ficar sensível, chorar, notar que o seu casamento acabou, por exemplo. Por isso, é preciso que estejam presentes profissionais com sensibilidade e formação adequada para acolher bem e lidar com questões emocionais”, diz.

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Um retiro pode revirar uma pessoa emocionalmente. Por isso, é preciso que estejam presentes profissionais com sensibilidade e formação adequada
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Miila Derzett, especialista em ioga restaurativa

Para acertar na escolha do retiro, Miila recomenda dar preferência a uma programação menos intensa. Ela explica que uma agenda cheia de esforço e atividades pode “anestesiar” o participante, que não terá tempo e condições para olhar para si ou relaxar. Além disso, é importante averiguar se há flexibilidade, tanto na alimentação como nas atividades. “O participante precisa ter autonomia para escolher do que quer participar. Não recomendo retiros conduzidos por pessoas que têm perfil punitivo ou que constrangem as pessoas.” 

Miila oferece retiros tanto para profissionais que querem aprender sobre ioga restaurativa como para pessoas que desejam apenas investir no autocuidado. A atriz Cacau Merz, de 52 anos, nunca havia meditado ou praticado ioga, mas resolveu participar de um retiro urbano em São Paulo, com uma programação de fim de semana que não incluía hospedagem, somente as atividades ao longo do dia. “Minha rotina maluca de artista não permitia participar de um retiro longe de casa. Achei ótima a ideia desse refúgio na cidade”, diz.

Na ioga restaurativa, as posturas são voltadas ao relaxamento e liberação de tensões do corpo e há mais tempo de permanência, geralmente com uso de acessórios como almofadas, cintos e cobertores. Em uma das práticas, mesmo deitada confortavelmente, Cacau estava com dificuldade de relaxar. “Eu estava com a cabeça a mil. Mas a Miila tocou a minha testa com o dedo e senti um aroma gostoso. Tive uma sensação de que ela havia apertado um botão de reset em mim, foi mágico.” 

Silêncio e meditação

Há retiros mais focados na meditação, que podem ser integrados pelos experientes ou por quem nunca praticou. A instrutora de mindfulness (atenção plena) Solange Viana, de 49 anos, promove retiros com meditações de diversos tipos. “Existem meditações voltadas à compaixão, à aceitação, à gratidão, que são realizadas em diversas posições: deitado, sentado ou em movimento”, exemplifica. Segundo ela, o retiro é recomendado a quem deseja treinar a meditação sem ser interrompido.

Participar de um retiro de meditação foi uma experiência disruptiva na vida de Cinthia Obrecht, 45 anos, que trabalha como gerente de sustentabilidade. Em 2017, ela estava numa rotina estressante, em que trabalhava em média 12 horas por dia. Em uma reunião da empresa, uma colega a convidou para acompanhá-la na imersão de três dias, no Chakra do Coração, em Mairinque (SP), organizada pela empresa de Solange, Reconectando Consciência Plena, que oferece cursos e retiros de meditação.

“Eu não sabia meditar e nessa pausa aprendi várias técnicas que me ajudaram a focar no presente. Foi um gatilho para um mudar de vida e respeitar meu tempo, meu espaço”, diz ela, que depois disso realizou uma transição de carreira e passou a cuidar mais de si. “Melhorei a minha alimentação, sou menos reclamona, entro menos em brigas e fofocas e julgo menos”, avalia. 

Atualmente, a sociedade cobra das pessoas uma elevada produção e a exaustão é valorizada, por isso os retiros ajudam as pessoas, na visão de Nanda Bonadia, professora de ioga e terapeuta corporal. “Quando sinto que não estou bem, que a vida está me sugando, vou para um retiro, que me permite distanciar da rotina para ter o olhar da águia”, diz. Nanda já participou de diversos tipos de retiro: xamânicos, do sagrado feminino, do silêncio, do tantra. “Para mim, esse tempo é precioso. Me traz a calma necessária para enxergar a minha própria potência.”

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As descobertas de uma cética insone em um retiro de ioga

Depois dos perrengues da pandemia, mergulhar nesse processo de autocuidado era mais uma salvação do que uma ostentação

Kátia Arima, Especial para o Estadão

04 de junho de 2022 | 05h00

Sentar no chão, fechar os olhos, cruzar as pernas e assim me manter por 10 minutos. Simples, não? Mas, na postura meditativa, sucumbi ao sono e a cabeça tombou. Quando abri meus olhos, a instrutora tinha visto tudo. Dei uma risadinha sem graça e torci para que acabasse logo. Comecei a implicar com a costura da roupa que pinicava o corpo e a me preocupar com os pernilongos. Um verdadeiro siricutico mental ao som da orquestra de insetos. Quando o sininho tocou, ufa! Aqueles minutos me pareceram horas.

Por que eu havia dormido na hora de meditar se nos últimos meses estava sofrendo de insônia? Esses e outros tantos questionamentos surgiram - e se diluíram ao longo dos dias - na minha primeira experiência de retiro, quase 2 mil quilômetros distante da minha família em São Paulo. Durante quatro dias, mergulhei em um processo de autocuidado, em que pratiquei as posturas da ioga, entoei mantras em sânscrito, fiz refeições vegetarianas, nadei no mar, na cachoeira, no rio, dei cambalhota, evoluí nas posturas invertidas, bebi vinho, fiz novas amizades, me emocionei, bebi vinho de novo, gargalhei. E dormi muito bem, inclusive com as pernas para cima durante uma prática de relaxamento, para o espanto de todos.

Era um presente que havia dado para mim mesma, para celebrar um ano de prática de ioga online com a minha professora Juliana Barrena, que organizava o seu primeiro retiro, a Imersão Purna, junto com a professora Nanda Lorders. Depois de tanto perrengue durante a pandemia, eu sentia que ir para o retiro estava mais para salvação do que para ostentação. Parcelei R$ 1.400 em quatro vezes o pacote com hospedagem em quarto duplo por três noites, com programação e refeições inclusas. Some aí o preço do transporte. Como nas posturas (asanas) de torção, espremi o orçamento e a agenda.

Na esteira da ioga e da meditação, geralmente vêm as práticas místicas. Eu, a cética que não acredita nem em horóscopo, estava ciente do terreno em que eu estava pisando. Por isso, não me surpreendi com um ritual de defumação que abriu o evento. Nanda rodeou rapidamente um pedaço de palo santo queimado em volta do meu corpo e me sugeriu “deixar do lado de fora as preocupações”. Ótima proposta. Lembrei da frase famosa de autoria obscura: “Não creio nas bruxas, mas que existem, existem”.

Nos apresentamos uns aos outros no grupo e percebi que estava acompanhada principalmente de mulheres de meia idade. Entre os 15 participantes, a maioria não tinha muita experiência com ioga e meditação e estava lá em busca de paz e descanso. Depois de alguma conversa, fizemos a nossa prática de ioga, em roda, a minha primeira experiência em grupo. Enfim, eu estava lá, concentrada, esticando, retorcendo e equilibrando o meu corpo, com alguns estalos nas articulações. Corpo e mente devidamente trabalhados, era hora da refeição ovolactovegetariana - que só não pode ser considerada “leve” porque repeti o prato algumas vezes. E dormi como um anjo.

De hábitos vespertinos, eu me arrastava até a sala de práticas às 7 horas, em jejum, me esforçando para saudar as pessoas alegremente. Não demorou para que aparecesse um desafio: o kapalabhati, exercício de respiração do “crânio brilhante”, com um rápido sobe e desce abdominal de propósito purificante. Perdi o compasso do resto da turma. Eu estava precisando oxigenar o cérebro.

Mas não faltaram oportunidades: logo engrenamos numa prática de vinyasa ioga, uma modalidade com sequência de posturas que fluem com a respiração. Foram duas horas prazerosas em que nem vi o tempo passar. No fim da prática, hora do savasana, a postura do cadáver. Apesar do nome assustador, trata-se apenas de deitar-se no chão com braços e pernas afastados, em estado de relaxamento, em um dos momentos considerados mais importantes da prática. “É a hora que a mágica acontece”, comentou a professora Juliana. Como uma cereja no bolo, um suave aroma floral estava no ar, que senti até…adormecer. Não era esse o objetivo, mas aconteceu.

“Você estava dormindo? Escutei o seu ronco”, perguntou uma das participantes. “Não, imagine”, desconversei, já com pressa de abocanhar o café da manhã e pisar nas areias baianas. A pousada Lagoa da Pedra, onde estávamos hospedados, era simples, mas muito agradável: integrada à natureza, a uma distância caminhável da praia e de uma cachoeira. Junto com algumas das participantes, fomos nos encontrar com o mar - e com o Rio Imbassaí, que deságua na praia.

Tomei esses banhos de axé na companhia da soteropolitana Karina Uchôa, funcionária pública de 46 anos, que só conhecia pela tela, compartilhando as práticas online de ioga. Ao vivo, eu confirmo que aquela mulher agitada está cheia de prana (energia vital). Ela me contou que estava no seu terceiro retiro. Difícil de acreditar que ela também tivesse encarado um retiro de meditação zen budista, que sugeria aos participantes que ficassem em silêncio durante as refeições e após o jantar, até a manhã do dia seguinte. “Foi desafiador, mas foi bom para olhar para dentro”, reconhece a tagarela que enfrentou a sua noite de silêncio.

Mas a pessoa mais popular do retiro era a psicóloga paulistana Silvia Sá, de 45 anos. O motivo: ela sabia tudo sobre vinhos. Sim, o álcool estava liberado. Numa das vivências, quando a proposta era explorar todos os sentidos, no escuro degustamos lentamente vinho e chocolate. Para explorar o tato, ainda no escuro, a sugestão era tocar como quisesse o braço de um participante. Para mim a experiência foi bem tranquila, mas as risadas denunciaram que para alguns isso era um incômodo - ou uma alegria.

Depois dançamos, bebemos e, já no quarto, cantarolei por alguns minutos sob efeito do álcool, para o desespero da Tatiana Sato, outra psicóloga paulistana, de 40 anos, amiga que dividia o ambiente bagunçado comigo. 

No dia seguinte, 7h, estavam todos entoando o famoso mantra “ommmmm”, com as mãos unidas. Nos primeiros minutos da aula, enquanto me esticava, me emocionei e permiti soltar algumas lágrimas com palavras simples da professora Juliana: “lembre-se de quem você é. Está tudo aí, você é completa”. Não sei se por efeito dessa fala ou do combo completo, eu destravei e, espevitada, passei a encarar as cambalhotas, paradas de mão, pontes e grandes saltos de Hanuman, o deus-macaco do hinduísmo.

Não que as acrobacias importassem, mas sentia que não era só meu corpo que se beneficiava daqueles movimentos, mas também a minha mente, que estava mais flexível e corajosa. Já na posição de descanso, ouvi a frase que marcou o retiro, o mantra perfeito para os ansiosos: “nada a fazer, nenhum lugar para ir”. 

Ioga e retiro não devem ser encarados como uma panaceia, sempre alertou a professora Juliana. Sei disso, mas o fato é que a insônia nunca mais deu as caras por aqui e, como uma mágica, na semana seguinte eu consegui fazer a postura invertida sirsasana, que exige concentração e força. Comemorei como uma criança que se equilibra pela primeira vez na bicicleta, apesar dos tombos. Cheia de gratidão e renovada, sem medo de ser taxada de “gratiluz”, já aguardo o próximo retiro. 

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