IOC/Fiocruz
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Com investimento de R$ 20 milhões, cientistas e médicos buscam respostas para o coronavírus

Iniciativa é do Instituto D'Or de Pesquisa e Ensino (Idor) - o braço de pesquisa da Rede D'Or de hospitais

Roberta Jansen, O Estado de S.Paulo

10 de abril de 2020 | 12h00

RIO - Um batalhão de cientistas e médicos brasileiros está sendo convocado para uma missão inédita: produzir conhecimento sobre a covid-19 enquanto a epidemia se dissemina pelo País. Com um investimento de R$ 20 milhões, dez projetos de pesquisa tentarão responder ao maior número possível de perguntas ainda sem respostas sobre a nova doença - identificada pela primeira vez na virada do ano, na China.

Entre tantas questões em aberto, estão: Qual o tratamento mais eficiente? A cloroquina funciona mesmo? Qual o caminho percorrido pelo vírus no organismo? De que forma a genética do paciente contribui para o desenvolvimento da doença? Por que a epidemia atingiu de forma tão diferente as populações de diversos países? O clima interfere na disseminação da covid-19? Qual será o impacto a médio e longo prazo da epidemia para a saúde mental das pessoas que estão vivendo em quarentena?

A iniciativa é do Instituto D'Or de Pesquisa e Ensino (Idor) - o braço de pesquisa da Rede D'Or de hospitais - que está investindo R$ 20 milhões nos projetos. Somente nos 50 hospitais da rede são pelo menos 600 pacientes já internados com covid-19. Dez hospitais públicos em todo o País também integram a iniciativa, que segue aberta a participação de outras instituições.

A força tarefa científica começou a funcionar oficialmente no último dia primeiro de abril, com a implementação de um registro unificado de pacientes internados com suspeita ou diagnóstico de covid-19 em todos os hospitais que participam da iniciativa. Os primeiros resultados já podem estar disponíveis em três semanas.

"Todos os hospitais e UTIs estão usando o mesmo prontuário, informações estão sendo coletadas remotamente ou presencialmente", explicou o diretor do Idor, Claudio Ferrari. "Vamos conseguir juntar dados sobre os pacientes mais graves no Brasil inteiro."

A ideia é coletar e organizar de forma padronizada os dados clínicos dos pacientes (anonimamente, claro), desde a admissão no hospital até o desfecho do caso. A partir da análise sistemática dessas informações, as características clínicas da covid-19 no País poderão ser descritas oficialmente, abrindo caminho para todos os demais projetos de pesquisa.

Um dos projetos, por exemplo, pretende identificar biomarcadores e variantes genéticas associadas a progressão e a gravidade da doença. Outra linha de pesquisa irá testar a terapia celular e o plasma convalescente no tratamento da doença. A eficácia do uso de medicamentos como a cloroquina e alguns antirretrovirais também ser analisada. Outros projetos vão acompanhar a evolução da doença em pacientes com câncer e com problemas cardíacos.

Ampliar a compreensão sobre a biologia do vírus e o projeto que está sob a responsabilidade do neurocientista Stevens Rehen, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e do Idor. O pesquisador trabalha com uma plataforma de neurônios humanos em laboratório.

"Há muitos relatos de perda de olfato, então vamos investigar se há um caminho de entrada (do vírus) pelo sistema nervoso, além da via respiratória", explicou Rehen. "Isso poderia explicar, por exemplo, diferenças de sintomas."

Outro projeto diz respeito ao genoma dos pacientes e as diferentes reações a doença."Por que algumas pessoas reagem tão bem e outras tão mal?", questiona Claudio Ferrari. "Por que a epidemia foi mais severa na Itália? Foi o molho de tomate ou a genética?"

Pesquisador do Departamento de Medicina Intensiva da UFRJ, Jorge Salluh quer entender o que vai acontecer com outros pacientes durante a epidemia de covid-19. "Será que a sobrecarga dos hospitais com a covid-19 vai estar associada a um pior desfecho de pacientes com enfarte, por exemplo", questionou.

Para os especialistas, a associação entre cientistas e médicos que estão atendendo diretamente os pacientes e o grande trunfo do projeto."Quem está na ponta sabe o que funciona melhor e pode repassar essa experiência, alimentando os cientistas com perguntas", afirmou Ferrari. "Acredito que o que estamos fazendo pode ter um impacto permanente, valorizar mais a ciência, mostrar que articular perguntas e trazer respostas salvam vidas, que dinheiro para ciência não é dinheiro jogado fora."

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