Carlos Garcia Rawlins/Reuters
Carlos Garcia Rawlins/Reuters

Com isolamento de 60 milhões de pessoas, quarentena chinesa ajuda a conter avanço do coronavírus?

Especialistas acreditam que medida veio tarde demais; autor de livro sobre o assunto diz que estratégia usada agora por Pequim não tem precedentes na história

Roberta Jansen, O Estado de S.Paulo

31 de janeiro de 2020 | 05h00

RIO - Na tentativa de conter a rápida disseminação do novo coronavírus, o governo da China tem adotado uma estratégia muito antiga, que remonta ao século 14, a quarentena. As autoridades chinesas, porém, implementaram a medida de uma forma totalmente inédita. Não há precedentes na história para o isolamento de quase 60 milhões de pessoas em diversas cidades, simultaneamente.  A eficácia de prevenção tão drástica é questionada. Para especialistas, ela pode até agravar a situação.

Até agora, o coronavírus já causou 213 mortes na China e há registro de quase 10 mil pacientes infectados pelo mundo. A Organização Mundial da Saúde (OMS) decretou emergência global por causa da doença, o que deve elevar a integração dos esforços dos países para conter o avanço do surto. 

Epidemiologistas explicam que a medida do governo chinês veio tarde demais; quando milhões de pessoas já tinham deixado a província de Hubei, epicentro da epidemia. Além disso, dizem, o isolamento de tantas pessoas pode ter um impacto grave até no estoque de medicamentos. É preciso prever, por exemplo, o fornecimento de alimento e combustível para as cidades sitiadas. A quarentena pode acabar até mesmo em um levante popular diante de tantas restrições.

“Essa quarentena é diferente de qualquer outra que já estudei”, explicou, em entrevista por telefone, Howard Markel, professor de história da medicina da Universidade de Michigan (EUA) e autor do livro Quarentena. “Não apenas por causa das dimensões – cercar cidades desse tamanho e com essa população não tem precedentes --, mas também pelo que eles estão tentando fazer, que é evitar milhares de viagens de trem, ônibus e avião.”

Segundo ele, de fato, não há pior cenário do que “várias pessoas com uma síndrome respiratória transmissível tossindo e espirrando dentro de um meio de transporte lotado”. E, no fim de semana passado, para o feriado do ano-novo lunar, havia uma previsão de deslocamento de cerca de 400 milhões de pessoas pelo país. “A quarentena veio muito tarde”, ressaltou Markel. “Pelo menos cinco milhões de pessoas já tinham saído daquela província antes de as viagens serem proibidas.”

Além disso, alertam especialistas, dificilmente um cerco dessas proporções seria totalmente impermeável. Para eles, é possível que muita gente fure o bloqueio e consiga viajar mesmo com a proibição.

'O vírus sempre vai escapar', diz especialista

“Não dá para trancar um vírus”, disse Lawrence O. Gostin, diretor do Centro de Legislação de Saúde Nacional e Global da Organização Mundial da Saúde (OMS), em entrevista ao jornal americano The New York Times. “Ele sempre vai escapar.”

Manter o isolamento de tantas pessoas em médio prazo vai impor grandes desafios de logística para prover alimento, combustível e até mesmo remédios para toda a população.

“Em Wuhan, uma cidade de 11 milhões de habitantes, tanto os pacientes que podem estar infectados com o novo coronavírus quanto os que têm outros problemas médicos estão tendo dificuldade para serem atendidos nos hospitais, que estão sobrecarregados”, alertou Markel. “E, claro, lotar hospitais com pessoas doentes e outras saudáveis pode aumentar o risco de transmissão do coronavírus.”

O ex-diretor do Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC, na sigla em inglês) Thomas Frieden foi mais otimista. A agências internacionais de notícia ele afirmou: “Qualquer medida feita para ampliar as distâncias sociais pode ajudar a reduzir a disseminação do vírus. Se for feito corretamente, não é impossível ter um impacto positivo."

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