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Guardas civis fiscalizam comércios e medidas contra covid em BH Alex de Jesus/O Tempo

Com melhor resultado, MG tem adesão a isolamento e até multa por falta de máscara

Minas Gerais tem menos 400 mortes por milhão de habitantes, mas especialistas questionam qualidade dos dados do Estado

Leonardo Augusto, Especial para o Estadão

10 de outubro de 2020 | 14h14

BELO HORIZONTE e CARMO DO CAJURU - Com menos de 400 mortes por milhão de habitantes, Minas Gerais tem o melhor desempenho na comparação entre as unidades do Brasil. Embora questionem a qualidade dos dados no Estado, especialistas também avaliam que a adesão satisfatória ao isolamento e até multa para quem andar sem máscara em Belo Horizonte, a maior e principal cidade, estão entre os fatores que evitaram ainda mais vítimas do coronavírus. O que não significa dizer, no entanto, que Minas atravesse a pandemia sem sofrimento.

Para evitar a propagação do vírus, ainda hoje há pessoas “ilhadas” e sem ter contato nem com parentes. É o caso de um abrigo de idosos em Carmo do Cajuru, cidade de aproximadamente 24 mil habitantes, que registrou três mortes e dois surtos de covid-19 – um em abril e outro em agosto. Com 49 internos de 48 a 90 anos, o local segue sob ordem de isolamento há cinco meses. Posto na entrada, um tapume parece lacrar a instituição. Lá, só entram médicos, cuidadores e pessoal de limpeza.

No primeiro surto, quando houve as três mortes, todos os funcionários tiveram de ficar trancados. Foram 34 dias de confinamento. Hoje, mesmo com a situação considerada sob controle no local, ainda não há prazo para que os internos possam voltar a ver seus familiares. “O que sentem mais falta são as atividades que foram suspensas, como a missa e o forró”, relata Juliana Paula Esteves, diretora de Vigilância em Saúde de Carmo do Cajuru.

“O que me deixou preocupada não foi pegar a doença, mas a possibilidade de transmitir para um idoso acamado, o que poderia significar mais mortes. Não quis nem contar para eles”, diz a cuidadora Poliana Lopes Barbosa, de 34 anos, que contraiu covid-19 em agosto, cumpriu a quarentena em casa e depois voltou a trabalhar. Colega dela, o enfermeiro Pedro Victor de Carvalho, de 23 anos, afirma se sentir seguro com os equipamentos de proteção disponíveis no local. “Mas, se fosse pelos meus pais, não estaria aqui”, diz.

Na semana passada, Minas ultrapassou a marca de 300 mil casos confirmados e mais de 7,4 mil mortes por coronavírus – número, por si só, mais de 30 vezes superior à tragédia de Brumadinho. Para o secretário de Estado de Saúde, Carlos Eduardo Amaral, impedir a transmissão do vírus é difícil, mas, ao contrário de outras unidades da federação, o Estado conseguiu evitar uma “explosão de casos”, o que teria acontecido se muitas pessoas fossem infectadas e precisassem de atendimento ao mesmo tempo.

Na visão de Amaral, a taxa de óbitos mais baixa do País está relacionada principalmente à adesão da população ao “isolamento social precoce”. Nas primeiras semanas de medição, em março, o índice chegou a 60%. “Estudos apontam que esse percentual é suficiente para evitar a transmissão, mas não a explosão dos casos”, diz. “Isso freou o vírus e nos deu tempo para preparar o sistema de saúde. Em julho, quando os casos aumentaram, a rede de atendimento já estava preparada.”

Segundo pesquisadores, o resultado de Belo Horizonte também tem forte impacto no balanço do Estado. Na capital, o uso de máscara de proteção é visto pela prefeitura como um dos principais trunfos – e, desde julho, quem for flagrado com nariz e boca descobertos está sujeito a multa de R$ 100. “Houve uma adesão importante após a multa. Depois, as pessoas foram se acostumando e, hoje, o uso de máscara na cidade é um hábito”, avalia Taciana Malheiros, secretária-adjunta municipal e subsecretária de Atenção à Saúde.

Medidas de distanciamento social, que entraram em vigor no dia 20 de março, também teriam sido fundamentais para impedir que a tragédia fosse ainda maior em Minas, segundo Taciana. “Ajudou a evitar a propagação do vírus enquanto preparávamos o sistema de saúde da cidade. Com isso, entre março e hoje, saímos de 101 leitos de UTI, voltados para doenças respiratórias, para 424”, diz. Atualmente, a taxa de isolamento oscila entre 43% e 45% ao longo da semana, e fica próximo de 50% aos domingos.

Outra aposta de Belo Horizonte foi conter a doença entre a população de rua e em abrigos para idosos, com esquema de transferência para área isoladas em casos suspeitos. Para moradores de vilas e favelas, foram distribuídos 2 milhões de equipamentos de proteção. De acordo com dados da secretária-adjunta, 70% dos pacientes que tiveram algum sintoma de covid-19 receberam ao menos atendimento inicial nos postos de saúde da prefeitura, a rede básica de atendimento.

Professor titular da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), o infectologista Geraldo Cunha Cury afirma que a relação de óbitos por milhão de habitantes é a forma mais adequada de avaliar o avanço da doença, mas pondera que o resultado não significa que o problema foi superado. “Pode-se falar que Minas está em situação melhor que outros Estados da federação, mas não existe situação confortável em um cenário de pandemia”, pontua.

 

  

Segundo avalia, o desempenho estaria relacionado a proteções individuais e às restrições impostas na quarentena – sobretudo na capital, cujas medidas impactam em cidades vizinhas e atingem cerca de 6 milhões de pessoas, ou 30% da população do Estado. “Não temos vacina, não temos medicamento efetivo. O que temos são medidas como o fechamento do comércio e das escolas.”

Para Cury, porém, os cuidados com a doença ainda precisam ser melhor assimilados, principalmente em cidades maiores e mais distantes de Belo Horizonte, como Uberlândia, Montes Claros ou Governador Valadares. “O uso da máscara foi incorporado na capital, mas nem tanto no interior”, descreve. Outra falha, segundo afirma, é a atenção na hora de respeitar a distância mínima de 1,5 metro entre as pessoas. “Isso não está acontecendo em lugar nenhum”.

Pesquisadores também contestam a qualidade dos dados de Minas. O epidemiologista Wildo Navegantes de Araújo, da Universidade de Brasília (UnB), afirma que, com mais de 850 municípios, pode haver defasagem de notificações. “A perda de dados é grande. Toda Belo Horizonte e a região sul é um tipo de Estado mas, quando você vai para o norte, as diferenças são muito intensas”, diz. 

Professor da Faculdade de Medicina da USP, Paulo Lotufo afirma que a falta de testes também pode ser responsável por puxar as notificações para baixo – uma vez que deixa de constatar que a morte foi por covid. “Em Belo Horizonte, há um prefeito (Alexandre Kalil) que foi super comprometido. Já o governador (Romeu Zema) até chegou a declarar que não ia fazer teste porque era uma questão acadêmica.”/Colaborou Felipe Resk e Isabella Macedo/Especial para o Estadão

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