WERTHER SANTANA/ESTADÃO
Calendário de vacinação avança em São Paulo e município vai vacinar com a 1ª dose contra o coronavírus adultos de 31 e 30 anos nas próximas quinta e sexta-feira WERTHER SANTANA/ESTADÃO

Com menos casos de covid e 130 mil na fila, cidade de São Paulo tenta acelerar cirurgias

Melhora da pandemia permite abrir espaço em unidades de saúde e Prefeitura vai ampliar horário de hospitais para atender demanda represada de pacientes; interior paulista também faz retomada gradativa

Felipe Resk e José Maria Tomazela, O Estado de S.Paulo

17 de julho de 2021 | 05h00

Nas últimas semanas, o avanço da vacinação tem reduzido o número de pacientes da covid-19 no Brasil. Com isso, governos e hospitais se mobilizam para atender a demanda represada durante a pandemia: cirurgias eletivas (não urgentes), exames e consultas – adiadas para abrir espaço em unidades de saúde ou evitar contágio. Só na cidade de São Paulo, por exemplo, a fila de espera para cirurgias chegou a 130 mil. 

O Brasil realizou 4.046.660 cirurgias, de diversos tipos, no ano passado – queda de 19% em relação aos 4.999.383 procedimentos de 2019. Para alguns casos, o recuo é ainda maior. Cirurgias de mama caíram 43% no período. Já as de pele ou aparelho digestivo baixaram, respectivamente, 39% e 34%.

A gestão Ricardo Nunes (MDB) anunciou esta semana que cinco hospitais da capital passarão a trabalhar até 24 horas por dia a partir do dia 1º. Com cerca de 10 mil novos pacientes na fila de espera a cada mês, a rede de saúde chegou a suspender o agendamento de cirurgias eletivas por causa da sobrecarga causada pela covid. Após melhoras nos índices, os procedimentos na capital paulista começaram a ser retomados em novembro.

O ritmo no atendimento, no entanto, ainda é lento. Dados da Secretaria Municipal de Saúde apontam que, entre janeiro e maio, a capital realizou cerca de 6,8 mil cirurgias eletivas, além de 318,8 mil consultas e 216,7 mil exames – abaixo da demanda natural por mês da cidade. A Prefeitura não informou o tamanho da fila antes da pandemia.

Na rede de Hospitais Dia da Prefeitura, de janeiro a julho de 2019, foram realizados 8.707 procedimentos. Em 2020, no mesmo período, foram realizadas 3.365. Já neste ano, até maio, foram 6.784 cirurgias.

“Precisamos estar muito focados na retomada da economia, na retomada da volta à vida, poder fazer aqueles exames, consultas e cirurgias que ficaram parados”, declarou Nunes na terça. "Não vamos esperar nem um dia para tomar as ações necessárias, sempre com a visão técnica da área da Saúde."

Para isso, a Prefeitura planeja manter cinco Hospitais Dia em atividade por 24 horas, a semana inteira. As unidades ficam no Butantã, zona oeste, Vila Guilherme, norte, São Miguel, leste, além de Ipiranga e Cidade Ademar, na sul. Essas unidades devem receber os procedimentos de maior complexidade, casos de idosos ou pessoas com doenças crônicas.

Já as cirurgias de pequeno e médio porte devem ser feitas em outras oito unidades, que terão o horário estendido em três horas e funcionarão das 7h às 22 horas. "O objetivo é agilizar o tempo médio para a realização dessas cirurgias na cidade de São Paulo, além de exames especializados", diz a pasta.

Interior também organiza retomada

O Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto ampliou em 50% o total de cirurgias eletivas em relação ao que vinha realizando nos meses mais críticos da pandemia: subiu de 400 em maio para 600 em junho e, segundo a administração, o aumento será ainda maior nos próximos meses se mantida a queda da covid.

Em Campinas, a prefeitura informou que vai manter o Hospital Metropolitano exclusivo para atendimentos covid, mas iniciará a transformação dos demais leitos da rede municipal em não covid, conforme a queda no número de casos. "Será criada uma comissão com a participação de hospitais da cidade para começar a construir uma política para o enfrentamento de outras patologias e cirurgias que ficaram reprimidas durante a pandemia", disse, em nota.

Em Mogi das Cruzes, a Santa Casa de Misericórdia já retomou as cirurgias de oftalmologia (catarata), mas o Hospital Municipal continua funcionando exclusivamente para covid-19 e não há previsão de retomar casos eletivos. Em junho a cidade, tinha 1,6 mil pacientes na fila por cirurgias do tipo. No 1.º trimestre de 2020, Mogi fez 1.049 cirurgias eletivas. No mesmo período deste ano, foram apenas 45. A prefeitura informou que faz o encaminhamento aos hospitais por meio da central de regulação de leitos.

A auxiliar de expedição Michele Almeida, de 46 anos, aguarda há um ano e meio na fila de espera por uma cirurgia para remover os ovários. Ela sofre de endometriose profunda e chegou a passar por alguns exames preparatórios em Mogi. "Já estava me preparando para ser operada, mas foi tudo cancelado. Como continuo com muitas dores, estou fazendo terapia e tomando remédio, esperando a remarcação da cirurgia. Tem dia que não consigo andar direito, por causa da dor", conta. 

Em Santos, as cirurgias eletivas foram retomadas no Complexo Hospitalar dos Estivadores e no Complexo Hospitalar da Zona Noroeste, unidades municipais. Estão sendo feitas todas as cirurgias de alta complexidade e 50% das cirurgias menos complexas. Em Piracicaba, a rede municipal ainda não retomou as cirurgias eletivas e já acumula cerca de três mil pessoas na fila de espera pelo procedimento. Ortopedia e oftalmologia respondem por 70% da demanda.

A Secretaria da Saúde do Estado disse monitorar o cenário epidemiológico da covid em todas as regiões, o que permite definir estratégias para garantir a disponibilidade de leitos, bem como a assistência a outras patologias. Conforme a pasta, consultas, cirurgias e procedimentos não urgentes podem ser agendados ou reprogramados conforme avaliação caso a caso, dependendo de orientação médica e do quadro do paciente. “Esta demanda é descentralizada na rede, considerando que há regulações municipais ou regionais, com os respectivos serviços de referência. O encaminhamento de pacientes a atendimentos especializados é de responsabilidade dos municípios, que possuem autonomia para definir os casos prioritários”, informou.

Hospitais de elite reduziram, mas ritmo já é normal

Na rede privada, unidades enfrentam desafios para retomar cirurgias eletivas. Levantamento do Sindicato dos Hospitais, Clínicas e Laboratórios do Estado de São Paulo (SindHosp) aponta que até 50% dos procedimentos foram cancelados em 68% dos serviços de saúde no início do mês. Para 6% das unidades, a taxa de cancelamento era de até 80%. O balanço foi realizado entre 28 de junho e o último dia 2, com 86 hospitais privados – 29 da capital e 57 do interior.

Em hospitais de elite de São Paulo, os procedimentos foram suspensos no início da pandemia e retomados aos poucos, conforme as administrações. Nos períodos de maior restrição, só eram mantidos para casos prioritários em que o tempo de espera poderia acarretar piora do quadro clínico. "Entre a segunda quinzena de março e a segunda de maio de 2020, tivemos uma redução importante de procedimentos eletivos, chegando a operar com 30% da capacidade", diz Miguel Cendoroglo Neto, diretor do Hospital Albert Einstein. "Até o final de 2020, operávamos com 85% da capacidade."

O Sírio-Libanês diz não dispor de números sobre a quantidade de cirurgias eletivas suspensas, mas "boa parte" delas foi adiada na ocasião. "Com a melhora do cenário, voltamos a liberar gradativamente cirurgias funcionais e estéticas, consideradas eletivas, atentos à segregação e à segurança de fluxos", diz Felipe Duarte Silva, Gerente de Pacientes Internados e Práticas Médicas. "O cenário foi bastante dinâmico e ajustado diariamente. A capacidade variou de acordo com a ocupação hospitalar", acrescenta. 

"Atualmente o cenário de atendimento é favorável, sobretudo porque conseguimos desmobilizar algumas das unidades covid-19, com a diminuição das internações por este diagnóstico", diz Silva. "Não há restrições de agendamento, mas seguimos gerenciando a distribuição destes agendamentos ao longo da semana para melhor utilização dos recursos."

Em nota, o HCor afirma que conseguiu realizar 92% das cirurgias previamente agendadas, tendo sido remanejadas só 8% das cirurgias. Já o Hospital Alemão Oswaldo Cruz informa não ter havido "necessidade de suspensão de procedimentos cirúrgicos por parte do hospital". A unidade diz ter feito "campanhas de esclarecimento para a população sobre os riscos de adiar os tratamentos e campanhas e lives das doenças cardiovasculares, digestivas, oncológicas, urológicas e mentais."

Três perguntas para Walter Cintra Ferreira, médico e professor da FGV

Qual é o efeito da paralisação de cirurgias eletivas? 

A paralisação leva ao aumento da demanda reprimida. Apesar de não urgentes, a demora pode levar à piora do quadro do paciente e do prognóstico como no caso das cirurgias oncológicas.

Quais estratégias podem ser adotadas?

Deve haver uma mobilização com forças-tarefas nas diversas especialidades, triando os pacientes e realizando mutirões. Isso implica em alto investimento em recursos humanos, hospitais cirúrgicos. Ou seja, aumentar o orçamento do SUS para tirar o atraso.

Há tipos de doenças mais sensíveis?

As mais sensíveis são aquelas em que a não realização da cirurgia leva a uma piora rápida do quadro clínico e risco de morte. Podemos citar as doenças cardíacas e as doenças oncológicas. /COLABOROU ÍTALO COSME, ESPECIAL PARA O ESTADÃO 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Com UTIs covid menos cheias, Estados retomam cirurgias com mutirões e pagamento extra

Bahia estima pelo menos 50 mil procedimentos represados; Minas prevê acelerar filas pagando o dobro do valor de remuneração a hospitais por alguns procedimentos

José Maria Tomazela, Aline Reskalla e Tailane Muniz, Especiais para o Estadão

17 de julho de 2021 | 05h00

SOROCABA, BELO HORIZONTE E SALVADOR - Com o avanço da vacinação e redução de ocupação das UTIs covid, governos estaduais e prefeituras têm se mobilizado para retomar as cirurgias eletivas (não urgentes). Com a necessidade de abrir espaço nas unidades de saúde e reduzir o risco de contágio, pacientes ficaram na fila de espera por esses procedimentos e, agora, a demanda represada pressiona os sistemas de saúde. 

Hoje com ocupação de UTIs no patamar de 60%, o governo de Minas prevê acelerar as cirurgias pagando o dobro do valor de remuneração a hospitais por alguns procedimentos. Pela tabela do SUS, um hospital recebe R$ 376,95 por uma cirurgia de hérnia, por exemplo. “Poderemos até dobrar esse valor, ainda estamos estudando o critério e preparando uma resolução sobre o assunto”, disse o secretário estadual da Saúde, Fábio Bacheretti. 

Ele disse que, neste momento, retomar as cirurgias eletivas também esbarra na carência de kits intubação. Por esse motivo, a secretaria estabeleceu o seguinte critério: municípios que declararem ter estoque do kit para 30 dias podem retomar as cirurgias eletivas pelo SUS. Na rede privada, como hospitais têm mais facilidade de adquirir insumos, muitos já estão realizando.

O Estado quer chegar, ao fim de 2022, com menos fila de cirurgias do que tinha antes da pandemia. Segundo o governo estadual, em 2019, foram feitas 185 mil operações. Já em 2020, com restrições impostas, foram realizadas 97 mil. Em 2021, foram 26.935 até maio.

Em alguns casos, o adiamento das cirurgias eletivas trouxe sequelas graves ao paciente. Há quatro meses, o comerciante mineiro Pedro Mordente Júnior começou a perder o movimento dos braços. Depois, das pernas. Por três vezes entre março e maio, os médicos chegaram a marcar a cirurgia na coluna, mas, sempre na véspera, o procedimento era cancelado.

Não havia leitos de UTI. Todos estavam ocupados com pacientes graves da covid. As dores iam aumentando e o desespero também. "Cheguei a cair várias vezes", conta ele. Há 40 dias, e seis meses após o diagnóstico de calcificação na coluna, ele conseguiu ser operado via plano de saúde. Como o quadro foi se agravando, a cirurgia foi complicada. Começou a ser feita pelo pescoço, não deu certo, foi interrompida e retomada dias depois. E ele não foi para a terapia intensiva, como seria recomendado. O comerciante ainda não voltou a andar. 

Bahia quer controlar situação até o fim do ano

A Bahia também prevê retomar cirurgias eletivas nas próximas semanas. O secretário da Saúde, Fábio Vilas-Boas disse ao Estadão que a fila de espera é de 50 mil – o total pode chegar a 70 mil se contar casos de maior complexidade. A previsão é de que a situação seja controlada até o fim do ano e são previstos pequenos mutirões.

A decisão foi tomada após a ocupação cair para 59% nas UTIs – a menor desde março. Segundo o secretário, as unidades devem manter o uso racional de medicamentos, como sedativos, diante da escassez no mercado. As cirurgias eletivas, a exemplo da retirada de hérnias e vesículas, não são consideradas de emergência. Segundo Vilas-Boas, o risco de morte pela espera não é alto. “O que acontece, na maioria das vezes, é o incômodo causado por dores. Tem casos onde a pessoa precisa passar, por exemplo, por uma transfusão”, diz.  

Referência em processos cirúrgicos eletivos, o Hospital Geral Roberto Santos (HGRS), em Salvador, fez ano passado 8.902 cirurgias, mesmo com a pandemia. Segundo a pasta da Saúde, isso colaborou para a redução de 83% da fila de espera, à época. Há dois meses, o HGRS chegou a abrir 100 leitos de enfermaria para atender pacientes não infectados pelo coronavírus, a fim de desafogar as unidades direcionadas à covid-19.

Foi no HGRS que a dona de casa Isadora Rodrigues, de 55 anos, iniciou o tratamento para retirada de pedra nos rins. O procedimento estava marcado para setembro, mas ainda hoje não tem previsão. “Fiz uma série de exames, mas talvez tenha de refazer pelo tempo que passou. Vou pagar consultas particulares para agilizar o processo. A gente entende que a pandemia acabou tirando tudo do eixo, mas sinto muita dor, além do medo que tenho de agravar”, diz Isadora.

Paraná autorizou operações não urgentes esta semana

Desde a última segunda-feira, 12, hospitais públicos e privados do Paraná estão autorizados a retomar procedimentos cirúrgicos eletivos, quando isso não trouxer prejuízo ao atendimento de pacientes com covid-19. Conforme o secretário da Saúde, Beto Preto, a liberação foi possível diante da menor ocupação dos leitos covid. “Temos observado redução na taxa de transmissão do coronavírus, graças à vacinação e, com isso, liberamos os procedimentos eletivos para aqueles hospitais que possuem condições de realizar esse serviço sem prejudicar os demais atendimentos”, disse.

A decisão foi acertada com as federações dos hospitais e santas casas. “A suspensão dos procedimentos foi necessária para direcionar os medicamentos de intubação e leitos de UTI para atendimento à covid. Agora podemos retomar o atendimento para diminuir a fila de pacientes eletivos”, disse o presidente da Federação das Santas Casas e Hospitais Beneficentes do Paraná, Flaviano Feu Ventorim. Ele recomendou que os hospitais mantenham o equilíbrio entre urgências e emergências e os casos não urgentes. “Com a flexibilização, o número de acidentes aumentou e, nos fins de semana, temos muitos pacientes com traumas, que acabam internados e mantêm os leitos ocupados durante a semana”, disse.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.