Otávio Almeida e Paulo Pereira
Otávio Almeida e Paulo Pereira

Com mobilidade reduzida, ele continua com o trabalho voluntário

Jamerson Mancio, que atua em mobilizações sociais e antirracistas, quer mostrar que sua condição não é uma barreira intransponível

Gilberto Amendola, O Estado de S.Paulo

12 de fevereiro de 2022 | 05h00

A vida de Jamerson Mancio pode ser dividida em antes e depois do acidente de trânsito que o levou a perder de 80% a 90% dos movimentos da perna esquerda.

Ao longo da vida, ele também teve de lidar com duas realidades. Filho de pais separados, de um pai negro e uma mãe branca, conta que experimentou “duas leituras sociais, duas organizações efetivas e econômicas diferentes”. Levou tempo para organizar tudo isso internamente.

Já adulto, Mancio conheceu o reggae e o ativismo. Decidiu cursar Pedagogia e começou a atuar no Guerreiros Sem Armas. Mesmo após o acidente e uma longa recuperação, ele segue com o programa educacional de formação internacional de lideranças jovens criado pelo Instituto Elos.

Em setembro de 2017, o ativista social Jamerson Mancio sofreu um acidente de trânsito. Uma motorista distraída acelerou o carro e acertou em cheio a traseira da moto em que ele estava. Com a queda, Mancio sofreu uma fratura gravíssima no tornozelo e na fíbula da perna esquerda. “Achei que iria perder o pé. Ele ficou pendurado apenas pelos ligamentos e tendões”, disse. Durante aproximadamente um ano foram nove internações e 11 cirurgias. A vida dele pode (e deve) ser dividida entre antes e depois do acidente.

Antes do acidente, quando ainda era uma criança, ele via sua vida familiar dividida em duas realidades. Filho de pais separados, de um pai negro e uma mãe branca, vivenciou “duas leituras sociais, duas organizações efetivas e econômicas diferentes”, como ele mesmo diz.

Contrastes e dificuldades

Em Juiz de Fora, Minas Gerais, morou nos bairros Mundo Novo (com a mãe) e em Santa Luzia (com o pai). “Vivi nesta transição entre dois bairros. Brincava no morro (bairro do pai), estudei em colégios particulares (bairro da mãe). Eram bairros próximos. Então tinha rixa de turmas e esse tipo de coisa. Eu transitava entre os dois lados”, lembrou.

Na adolescência, Mancio era conhecido por andar de patins pela cidade, inclusive por patinar se segurando na traseira de ônibus. A vida escolar não foi fácil. Ele foi expulso de três escolas. “Eu era rebelde, inquieto. Nas escolas particulares, não tinha aceitação porque a maioria dos alunos era branca. Quando fui para a escola pública, também não tinha aceitação porque não tinha amizades.”

“Em uma das escolas, minha mãe chegou a pedir clemência para que eu não fosse expulso. Lembro que o diretor disse que eu apenas seria o primeiro de uma fila de outros expulsos”, contou. “Mas não foi nada disso. Nenhum aluno branco foi mandado para fora do colégio. A questão racial sempre esteve presente na minha vida, na escola ou mesmo nos lugares que eu frequentava. O que eu não sabia, na época, era explicar para minha mãe o que acontecia.”

No início da vida adulta, as coisas começaram a se organizar melhor na cabeça de Mancio quando ele encontrou paz e significado na capoeira e, principalmente, no reggae. “Me entreguei de coração para a música. Aprendi a tocar violão.” Embalado pelo som e mensagem de artistas como Bob Marley e Peter Tosh, viu o chamado pela luta social e o ativismo aflorarem em sua vida.

Mancio teve banda, tocou em festivais e para públicos que, às vezes, estavam mais interessados na bebida do que na mensagem do reggae. Por um tempo, tentou carreira solo e fazia questão de passar mensagens de paz e união em suas músicas. Inquieto, tentou a faculdade de música. Não entrou, mas seguiu seu coração investindo em outro sonho.

Com um desejo de ser um professor-ativista (construir escolas na Amazônia, levar educação para comunidades distantes), foi cursar Pedagogia na Universidade Federal de Juiz de Fora e começou a atuar no Guerreiros Sem Armas, um programa educacional de formação internacional de lideranças jovens criado pelo Instituto Elos. No Guerreiros, atuou em diversas frentes – principalmente em educação de crianças.

Desafio depois do acidente

E foi aqui, no auge do seu trabalho social, que o acidente de moto transformou sua vida. “Segundo os médicos, a amputação era mais provável”, lembrou. Ele, de fato, perdeu de 80% a 90% dos movimentos da perna esquerda. A situação só não foi pior porque uma vaquinha virtual garantiu os melhores hospitais e tratamentos disponíveis na região.

“No acidente, eu me mantive calmo. Pensei que ‘o rolê já estava dado’. Pelo celular, liguei para o resgate e fui explicando minha localização. Mesmo durante a recuperação, que foi dura e longa, tive muita paciência e contei com uma rede de amigos e profissionais que seguraram minha barra e me ajudaram demais. Mesmo nos meus piores dias”, falou.

“Com os Guerreiros Sem Armas, ajudo muito na formação de pessoas como eu. Tento mostrar a importância daquilo que eu chamo de caminho do ‘sim’. É um olhar de cuidado com quem está começando no caminho do ativismo.”

Em 2020, mesmo com mobilidade reduzida, Mancio voltou para as atividades dos Guerreiros Sem Armas e do Instituto Elos. “Eu tenho feito tudo de um jeito diferente. Dói? Dói! Toda hora. Mas tenho ultrapassado os meus limites”, disse. “Entendo meu lugar de representatividade. Atuo em pautas antirracistas e sobre vulnerabilidade social. Agora também quero mostrar que pessoas com mobilidade reduzida podem participar de voluntariado e mobilizações sociais”, falou.

Hoje, aos 40 anos, Mancio, mora na Praia de Maracaípe, em Pernambuco (perto de Porto de Galinhas). Lá, continua seu trabalho com o Instituto Elos e iniciou uma parceria com a ONG TPM (Todas Para O Mar), uma organização feminista e antirracista.

“Meu projeto com elas é o de construir uma sede e, principalmente, incentivar a prática de esportes, como o surfe, por pessoas com mobilidade reduzida e deficiências”, contou. “Sinto que é muito importante mostrar, com o meu exemplo, que a mobilidade reduzida não é uma barreira intransponível para quem quer realizar sonhos e lutar por eles”, concluiu.

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