Marcelo Camargo/ Agência Brasil
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Com pandemia, buscas relacionadas a transtornos mentais no Google batem recorde

Solidão e incerteza trazidas pela crise sanitária podem causar ansiedade e depressão; idosos são grupo de risco para o problema

Fabiana Cambricoli, O Estado de S.Paulo

21 de setembro de 2020 | 05h00

Nunca o brasileiro buscou tanto por termos relacionados a transtornos mentais quanto durante a pandemia do novo coronavírus. Dados inéditos fornecidos pelo Google ao Estadão apontam alta de 98% nas buscas sobre o tema em 2020, ante a média verificada nos dez anos anteriores. A pergunta "como lidar com a ansiedade", por exemplo, bateu recorde de interesse da última década. Em relação a 2019, o crescimento foi de 33%.

Entre as três perguntas mais buscadas em 2020 com a expressão "como lidar", duas estão relacionadas a ansiedade e depressão. Bateu recorde também o interesse dos brasileiros pelo questionamento do que é a felicidade. Em junho, a pergunta teve o maior volume de buscas dos últimos oito anos.

Para especialistas, o comportamento na internet reafirma o que estudos no Brasil e no exterior já observaram: medo, solidão e incertezas trazidas pela pandemia e o isolamento levam a um aumento da inicidência de transtornos mentais. 

"O medo de contrair a doença ou de transmiti-la para familiares do grupo de risco gera ansiedade. A diminuição do contato presencial e dos vínculos, impactos econômicos, sobretudo para os que já tinham menos recursos, e a exposição excessiva a notícias sobre coronavírus aumentam o sofrimento mental", diz Ives Cavalcante Passos, professor do Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Desde abril, ele coordena pesquisa sobre os impactos da pandemia na saúde mental da população brasileira. Mais de 8 mil pessoas estão sendo acompanhadas por questionários on-line. “Queremos testar algumas hipóteses, entre elas observar se esse período está associado ao aumento de ideação suicida e de uso de álcool e drogas, se o maior consumo de notícias sobre coronavírus aumentam o nível de ansiedade, entre outras questões”, diz Passos, também psiquiatra do Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA). 

Levantamento do Estadão com base em boletins da Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep), órgão responsável por autorizar estudos com humanos no País, mostra que já foram aprovadas 97 pesquisas para investigar efeitos psíquicos da pandemia. Algumas buscam medir o possível aumento de doenças como depressão e ansiedade; outras querem medir o impacto psicológico em grupos específicos, como profissionais de saúde, crianças e adolescentes, idosos e gestantes. Alguns também investigam quais fatores podem reduzir o risco de um transtorno mental neste período.

Algumas pesquisas já têm respostas preliminares. Estudo da Universidade Estadual do Rio (UERJ) verificou que profissionais com mais dificuldade financeira e os que não podem trabalhar de casa têm mais prevalência. "Donos de comércio, administradores, empresários têm prevalência de depressão 50% maior do que a média da amostra. Profissionais que precisam sair para trabalhar e estão mais expostos ao risco de contaminação também têm pior saúde mental", diz Alberto Filgueiras, professor de Psicologia da UERJ, que coordena o estudo.

Idosos também têm maior risco. A Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) inicia neste mês pesquisa com 136 pessoas maiores de 60 anos para verificar o papel da rede de apoio na redução do risco de depressão e ansiedade. Paralelamente, alunos e docentes fazem, desde maio, um projeto de escuta, por ligações semanais, com idosos que já integravam um projeto da instituição. 

"O idoso já tem probabilidade maior de depressão pelos processos associados ao envelhecimento", diz Daniella Pires Nunes, professora da Faculdade de Enfermagem da Unicamp e uma das coordenadoras do projeto. "A devolutiva dos idosos tem sido interessante. Comentaram que sentem-se ouvidos, acolhidos, animados. Gera sentimento de valor ter alguém para ouvi-los sobre anseios e medos e até dividir coisas do cotidiano, como hobbies, receitas."

Ajuda

Para Ives Passos, é importante estar atento a sinais e sintomas persistentes. "Medo e tristeza são emoções básicas e fazem parte da vida de todos. Quando ocupam a maior parte do dia e são acompanhados de outros sinais, como alterações no apetite, sono e falta de energia, é necessário consultar um profissional." Ele diz que, apesar do tabu, o número de pessoas que buscam ajuda para si um parente ou amigo tem crescido. A alta de buscas no Google indica percepção do problema. "É importante, porém, que qualquer intervenção seja feita com auxílio de um profissional."

Segundo Marco Túlio Pires, coordenador do Google News Lab no Brasil, muitos usuários veem na plataforma oportunidade de se informar sobre questões pessoais e íntimas sem julgamentos. "Alguns ficam constrangidos em falar sobre certos assuntos até mesmo com pessoas próximas e usam o Google para buscar mais informações. Se isso já acontecia antes, com o isolamento ficou mais intenso." O Google, afirma ele, tem aprimorado algoritmos e feito parcerias com especialistas para dar informações de qualidade e confiáveis sobre saúde. "A ideia é priorizar fontes oficiais, autoridades no tema." 

Desde 2016, a plataforma tem parceria com o Hospital Albert Einstein na produção de conteúdo. Ao buscar o nome de uma doença, um painel surge do lado direito da tela com informações de sintomas e tratamento.

No campo específico da saúde mental, a empresa apoiou o Instituto Vita Alere na criação do site Mapa Saúde Mental, que traz informações sobre quando procurar ajuda, serviços emergenciais e indicações de profissionais e instituições que prestam atendimento on-line e presencial. 

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'Vi que estar presa e longe dos familiares me fazia muito mal', diz jovem que teve crise de pânico

Isolamento fez mulher do Distrito Federal voltar a ter problemas psicológicos; instrumentadora relata medo constante de infecção ao sair de casa

Ludimila Honorato, O Estado de S.Paulo

21 de setembro de 2020 | 05h00

"Foi quando me vi trancada dentro do meu apartamento de 54 m² que comecei a identificar que estar presa e longe dos familiares me fazia muito mal." Essa breve descrição poderia ser de qualquer um que precisou trabalhar de casa e manter distanciamento por causa do novo coronavírus. É de uma mulher, de 29 anos, que teve o histórico de ansiedade e síndrome do pânico agravado pela pandemia. A terapia, antes semanal, passou a ser três vezes por semana e as doses de remédios para controlar as crises aumentaram.

A brasiliense, que preferiu preservar a identidade, faz parte do grupo de pessoas que sentiu o estresse, a ansiedade e a depressão aumentarem na quarentena, mas as consultas com a psicóloga são um ponto de equilíbrio para seguir adiante.

"Nesses cinco anos de terapia, só tive benefícios e consigo identificar os gatilhos (das crises). Tenho esclarecimento muito maior de mim mesma e falo para as pessoas que sabem que tenho doença mental que a terapia não é só para isso. É para se conhecer e é muito positivo", diz. No passado, as crises de ansiedade também levaram a um quadro de depressão.

"Eu estava bem, nunca deixei de fazer tratamento, tinha vida normal em vista das fases que já tive. Com a pandemia, acabou piorando.” O primeiro indício de que as coisas iam mal foi quando passou a trabalhar de casa, em meados de março. “Comecei a ter crises fortes." Ficar longe da mãe e da avó - que moram juntas e são do grupo de risco - contribuiu na piora. "Isso foi um dos gatilhos para ter crise de ansiedade e pânico."

Para a psicóloga Cristina Laubenheimer, vários fatores têm levado à ansiedade extrema, e a mudança nas relações humanas traz impacto. "De repente, quem antes era seu conforto passa a ser ameaça. Isso gera conflito grande." Em junho, estudo da Ipsos em 16 países mostrou que o Brasil é o que mais sofre com ansiedade na crise sanitária. Dos brasileiros, 41% lidam com o problema. As mulheres são as mais afetadas (49%).

Apreensão

Quem também recorreu à terapia e passou a tomar calmantes e antidepressivos leves foi Priscilla Martin, instrumentadora cirúrgica e laserterapeuta que continuou trabalhando na pandemia. Ela, de 41 anos, seguiu em contato com diversas pessoas dentro de diferentes hospitais e manteve atendimentos em domicílio quando a situação exigia. Divorciada, a profissional depende dos pais, idosos, para cuidar do filho de 9 anos enquanto passa o dia fora.

"Desde quando começou o alarme da covid, fiquei extremamente preocupada. Saindo para trabalhar todo dia, indo aos hospitais, todo mundo com aquela cara de terror. Você não sabe o que faz, se pode falar, se pode pôr a mão na maçaneta. E quando chega em casa, também não sabe bem o que fazer. O tempo todo é nessa tensão e preocupação. Minha vida hoje está muito mais estressante do que a rotina anterior", conta Priscilla, que chegou a atuar em um parto cuja paciente tinha covid.

Por mais que ela use máscara, escudo facial, luvas, troque os itens sempre que preciso e use soros para lavar as vias aéreas, a dúvida sempre ronda o pensamento. "Vou para casa e fico: 'será que estou realmente salva? Será que não peguei?'. Até o momento, a gente conseguiu se manter em segurança", conta.

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No futuro, pode haver pandemia da saúde mental

Pesquisa realizada por consultoria aponta que 73% dos 400 brasileiros entrevistados foram emocionalmente impactados pelo isolamento social

Ludimila Honorato, O Estado de S.Paulo

21 de setembro de 2020 | 05h00

Uma pesquisa divulgada este mês pela consultoria Conversion mostrou que 73% dos 400 brasileiros entrevistados foram emocionalmente impactados pelo isolamento social. O estresse foi o mais indicado por eles (42,5%), seguido por tédio (41,5%) e crise de ansiedade (33%). A brasiliense que optou por manter anonimato relata que o medo de sair de casa despertou a síndrome do pânico, quadro que ela não apresentava havia muitos anos. E a avalanche de notícias sobre o novo coronavírus tornaram-se gatilhos para crises de ansiedade.

“A pandemia gera uma diversidade grande de estressores, de natureza diferente. É muito diferente passar pela doença e estar com medo de morrer ou ter sequela, ou ter medo de algo acontecer com o pai, de perder o emprego, de ficar confinado sozinho e começar a sentir solidão. No geral, estressores do tipo perigo levam mais para quadros de ansiedade. Situações de perda levam mais a quadro depressivo”, explica o psiquiatra Diogo Lara, membro do Comitê Técnico da Aliança para a Saúde Populacional (ASAP).

O médico diz que um mesmo elemento estressor pode se manifestar de diferentes formas em cada pessoa. A depressão pode levar tanto a um desejo de ficar só na cama ou a um quadro de alcoolismo. E um mesmo indivíduo, que já possui algum transtorno mental, pode desenvolver outros tipos. Tudo está relacionado ao que é ativado no cérebro.

“O sofrimento psíquico tem elementos em comum, que são mais semelhantes do que diferentes. Exemplo disso é que um mesmo remédio pode servir para quatro transtornos”, afirma Lara. Na avaliação do psiquiatra, a pandemia atual proporcionou um deslocamento geral da saúde mental para pior. Quem não sofria com isso passou a sofrer. Quem já tinha algum quadro viu o problema se intensificar. A preocupação agora é com o futuro.

No futuro, uma pandemia de saúde mental pode ocorrer

A instrumentadora cirúrgica e laserterapeuta Priscilla Martin percebe que a pandemia tem sido pior para as crianças, a exemplo do filho dela. “Vejo ele chorando porque tem saudade dos amigos, da escola. As aulas on-line estão massacrando eles. A rotina para ele está péssima.” A preocupação dos especialistas é que esses níveis de estresse levem a uma pandemia de saúde mental no futuro, que também terá reflexos dos adultos que sofrem hoje.

“Crianças que buscavam apoio e segurança nos pais sentem que eles estão ansiosos, angustiados, num movimento de vida que é totalmente diferente do conhecido. Elas consomem essa insegurança e estão em um momento de estresse que ainda não sabem identificar e falar sobre o que estão sentindo”, alerta a psicóloga Cristina Laubenheimer.

O psiquiatra Diogo Lara completa que o acúmulo de estresse hoje, em diferentes intensidades, pode fazer as crianças entenderem que o mundo é perigoso e as pessoas são frágeis. “Isso é introjetado como se fizesse parte da personalidade dela e pode enxergar o mundo com um filtro mais negativo e assustado”, diz. Ele indica que, talvez, as taxas de saúde mental não voltem ao basal e que fique uma marca, com chance aumentada de transtornos para várias pessoas.

Estudos acerca do surto de SARS - outro coronavírus que matou mais de 800 pessoas - no início dos anos 2000 mostram que sobreviventes da infecção se recuperaram fisicamente da doença, mas experimentaram declínio na saúde mental. Há registros de um quarto dos pacientes desenvolverem estresse pós-traumático e 15,6% tendo transtorno depressivo 30 meses após a contaminação. Segundo os pesquisadores, o surto “pode ser considerado uma catástrofe de saúde mental”.

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Sem balada e isolados em casa, adolescentes enfrentam ansiedade e depressão

Ainda não há pesquisas que retratem o aumento de casos, mas psiquiatras relatam maior procura no consultório; falta da escola e mudança para ensino remoto também contribuem para problema

Renata Cafardo, O Estado de S.Paulo

16 de setembro de 2020 | 11h00

Quando o Whatsapp de Mariana* chegou a 5 mil mensagens não respondidas, a mãe teve certeza de que algo estava errado. Aos 12 anos, a menina dizia que não via “saída para sua vida”, chorava sem razão clara e tinha dores de barriga constantes. Passou a se recusar a assistir às aulas online da escola e acreditava que era a única que não conseguia aprender daquela nova maneira, imposta pela pandemia. A mãe não a deixava mais sozinha no quarto com medo de suicídio. Ao procurarem um psiquiatra, Mariana* teve em maio o diagnóstico de depressão e foi medicada. Só há poucos dias, ela pegou o livro para estudar pela primeira vez desde então. “Eu chorei ao ver. Mas para as aulas pelo computador ainda não conseguiu voltar”, conta a mãe, uma dona de casa do interior de São Paulo.

Adolescentes e pré-adolescentes são um dos grupos mais afetados quando se fala em saúde mental durante o isolamento social, acreditam especialistas. A identidade deles se forma pelo grupo, pelo outro. E quando o outro está longe, isolado também, muitos vínculos acabam ruindo. Foram-se ainda as festas, as conversas nos intervalos das aulas, os momentos de experimentar a independência, na escola ou em qualquer lugar longe da família. É a balada roubada, como bem definiu em live sobre o tema a Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro.

Uma pesquisa publicada no Journal of the American Academy of Child & Adolescent Psychiatry concluiu que “crianças e adolescentes são mais prováveis de ter altas taxas de depressão e ansiedade durante e depois de período de isolamento”. Os pesquisadores analisaram 83 estudos sobre o assunto, publicados entre 1946 e 2020.

Outro trabalho, feito na China em abril, mostrou que 22% dos estudantes declararam ter sintomas depressivos durante a quarentena e 18% disseram ter se sentido ansiosos. Os índices são superiores ao que se identificava antes da pandemia. No Brasil, pesquisa da Fundação Lemann e Itaú Social mostrou em agosto que 77% dos estudantes estavam tristes, ansiosos, irritados ou sobrecarregados.

“Eu sou um fracasso”, diz Mariana*, ao ser perguntada por que se sente triste. “Às vezes sou muita chata, acho que magoo todo mundo”. A menina, que perdeu o pai aos 4 anos, fazia terapia antes da pandemia e já tinha um quadro de ansiedade. Mesmo não tendo se adaptado ao ensino remoto, ela morre de medo de voltar à escola porque teme contaminar a mãe. “Claro que neste momento de pandemia a gente espera reações emocionais, mas não persistentes. Quando se tenta algo positivo e não funciona ou o adolescente não se interessa por nada, é preciso ficar atento”, diz o professor de Psiquiatria da Infância e Adolescência da Universidade de São Paulo (USP) Guilherme Polanczyk.

Entre os outros principais sintomas da depressão estão baixa autoestima, sensação de inutilidade, irritabilidade, pensamentos sobre morte, alterações de sono e apetite e até físicas, como dores e enjoos. Polanczyk é o coordenador da pesquisa Jovens na Pandemia, feita no Hospital das Clínicas, que pretende identificar os efeitos do momento atual na saúde mental por meio de um formulário online preenchidos pelos pais. O grupo espera receber cerca de 10 mil respostas e poder auxiliar as famílias depois.

A administradora Aurora* conta que o filho Marcos*, de 17 anos, pediu ajuda há cerca de um mês. “Ele não aguentou tanta solidão”. O adolescente, que era muito sociável, passou a estudar apenas por meio de vídeos gravados pelos professores, já que a escola promoveu poucos encontros online. “De repente a rotina dele sumiu, o contato sumiu, não via professor, não interagia, não ouvia perguntas dos colegas, o mundo sumiu completamente”, diz a mãe.

Ele começou a não dormir, se sentir feio, burro e sem amigos. Levado ao psiquiatra pela primeira vez na vida, Marcos*  foi medicado porque estava com sintomas depressivos e chegou a falar de suicídio com o médico. 

Câmeras fechadas

Não há pesquisa ainda que mostre o aumento de casos de depressão, ansiedade, automutilação ou suicídio durante a pandemia do coronavírus, mas psiquiatras relatam aumento de procura de adolescentes. “Esses casos já vinham num crescente e, com certeza, o isolamento social contribui para isso”, diz o psiquiatra da infância e da adolescência e médico colaborador do Programa de Transtornos Afetivos na Infância e Adolescência do HC, Miguel Boarati. “A tendência do adolescente é se isolar do grupo familiar e ficar com os amigos”. Agora, o que acontece é o contrário.

O médico também acredita que a falta de escola e a mudança para o ensino remoto contribuem para a situação. Há diminuição do contato com colegas, professores e algumas vezes até mais cobrança, provas e exercícios para compensar a falta da aula presencial.

As escolas e professores, por outro lado, se ressentem de poder ajudar pouco os alunos com dificuldades emocionais nesse momento de distanciamento. Pesquisas mostram que os docentes são essenciais para identificar questões na saúde mental dos estudantes, casos de abuso, de violência doméstica. “Na sala de aula presencial ou no intervalo estávamos sempre observando. Agora, por mais que você peça, eles fecham a câmera”, diz a supervisora pedagógica da Escola Vereda, no ABC paulista, Patricia do Nascimento Carvalho.

Ela conta que muitos pais passaram a relatar problemas de ansiedade e depressão durante a pandemia. Com o gancho do setembro amarelo, campanha de prevenção ao suicídio da Associação Brasileira de Psiquiatria e do Conselho Federal de Medicina, a escola criou um projeto para que os alunos possam falar de seus sentimentos nas lives.

Metáforas da quarentena

A frustração com planos de viagens, formaturas e festas, que foram se perdendo ao longo do ano, causa mais ainda a sensação de incerteza. “A perspectiva de tempo para o adolescente é diferente, por uma questão cognitiva. Um ano é um tempo enorme para eles, sentem que muitas coisas estão sendo perdidas, o que se torna algo muito estressante”, diz Polanczyk.

Marina Marcondes, de 17 anos, conta que tinha uma grande viagem para a Amazônia marcada com a escola para este ano, esperada desde que era criança. “Fiquei muito chateada, ainda estou chateada, mas sou otimista e tento pensar que as coisas acontecem por alguma razão”, diz a menina, que é aluna do Colégio Santa Cruz e participou de um projeto da escola para expressar a quarentena em fotos.

Ela registrou um cubo mágico com as faces viradas, o que, para ela, representa a incerteza desses tempos. “As fotos revelam muito do que os alunos estão vivendo, a partir disso me aproximei deles, procurei alguns para conversar”, diz o orientador do ensino médio do Santa Cruz, Bruno Weinberg, que propôs o projeto. Em uma delas, Manuela Freire, de 16 anos, registra a sombra das suas mãos imitando um pássaro e expressa no nome da foto a vontade da adolescente há meses em casa: “me leva junto”.

*Nomes fictícios

Crônicas da quarentena

Alunos do 1º ano do ensino médio da Escola da Vila produziram textos em que falam da quarentena para uma proposta de Língua Portuguesa. Não necessariamente relatam um sentimento real do autor. 

Já faz algum tempo pelo que pude perceber que conto os dias assim, “tal dia de isolamento”, pois me esqueço com facilidade em que dia estamos, em que mês, em que hora. Só sei me guiar pela quantidade de tempo que aqui estou presa. Contar o tempo pelo que ele costumava ser também me parece errôneo, aqui dentro as coisas definitivamente são mais devagar do que lá fora, e digo isso porque mesmo tendo se passado menos de um mês, parece que estamos nesta lamentável situação há algumas décadas. (texto de Isabella Brandão Turquetti Sauaya Pereira, no 25º dia de isolamento)

A única certeza que tenho é que precisamos ser suficientes para nós mesmos neste momento, porque tudo está ainda mais incerto, nunca sabemos o dia de amanhã. E eu, que tenho quase a necessidade de manter o controle de tudo em minhas mãos, me veria quase completamente angustiada com toda essa incerteza, a não ser por uma suave tranquilidade que me vem ao perceber uma certa beleza oculta nisso tudo. (texto de Julia de Carvalho Galvão)

Todos os objetos do meu quarto guardam uma memória e uma história vivida. A única exceção são as roupas novas que recebi como presente de aniversário, dias antes do início da reclusão. Por conta da quarentena, elas terão de esperar no guarda-roupa para estrearem em uma festa. Essas ainda vão construir a sua história, espero que feliz. (texto de Miguel Reis) 

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Saúde mental: veja dicas para evitar ansiedade na pandemia

Dores de cabeça e no corpo, sono interrompido, palpitações, tremor e suor são alguns sintomas para os quais se deve ligar o alerta

Ludimila Honorato, O Estado de S.Paulo

21 de setembro de 2020 | 05h00

A incerteza diária de ter contraído o novo coronavírus e o medo de transmiti-lo aos parentes são gatilhos para o desenvolvimento de transtornos mentais durante a quarentena, como ansiedade e depressão. Dores de cabeça e no corpo, sono interrompido, palpitações, tremor e suor são alguns sintomas para os quais se deve ligar o alerta

A partir desses sinais, é possível tentar mudar a rotina, cuidar da higiene do sono, recorrer a artifícios que trazem sensações de prazer. Se ainda é difícil controlar, buscar ajuda profissional de um psicólogo ou psiquiatra é fundamental.  A pedido do Estadão, a psicóloga Cristina Laubenheimer e o psiquiatra Diogo Lara deram dicas que ajudam a preservar a saúde mental durante a pandemia.

  • Estabeleça um horário para dormir. Uma hora antes, desligue celular, computador, televisão, rádio e fique em um ambiente tranquilo. Escute uma música calma, tome um banho, leia um livro com uma história prazerosa. Isso vai ajudar o cérebro a se desligar dos eventos estressores.
  • Defina horários para se alimentar e aproveite refeições balanceadas, com quantidades adequadas de carboidratos, proteínas, verduras e vegetais. Também coma frutas do seu agrado. Evite alimentos ultraprocessados, que geralmente contribuem para o aumento das taxas de colesterol e glicose, além de favorecer o aumento de peso.
  • Se estiver em família, reserve um tempo para conversarem, falarem dos sentimentos de forma natural, criar jogos, pintar, brincar com as crianças.
  • Faça intervalos de relaxamento de duas a três vezes por dia. Cinco minutos para um exercício de respiração ajuda a oxigenar o cérebro e baixar os níveis de estresse no corpo. Com uma música suave, inspire pelo nariz e solte pela boca, lentamente.
  • Tente fazer alguma atividade física. Alguns aplicativos podem te orientar com exercícios de baixa intensidade e que duram menos de 10 minutos. Ioga e meditação também podem ser incluídos na rotina. 
  • Independentemente do que você optar fazer, comece. Entender que o autocuidado emocional é tão ou mais importante do que o cuidado físico é fundamental. Estudos indicam que muitas doenças do corpo estão associadas a fatores emocionais, que baixam nossa imunidade e nos deixam vulneráveis a enfermidades. O importante é sair da zona de contemplação e ir para a ação.

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