Rafael Arbex/Estadão
Rafael Arbex/Estadão

Com pandemia, cobertura vacinal despenca para menos de 60% e governo prepara campanha

O medo dos pais de levarem as crianças aos postos de saúde por causa do novo coronavírus é a principal razão para as baixas coberturas

Fabiana Cambricoli, O Estado de S.Paulo

05 de setembro de 2020 | 05h00

SÃO PAULO - Os números parciais de cobertura vacinal para 2020 indicam que a pandemia pode ter reduzido ainda mais a procura por imunização no País. Dados preliminares do Ministério da Saúde obtidos pelo Estadão apontam que a maioria das vacinas infantis registrou, no primeiro semestre do ano, coberturas na faixa dos 50% a 60%.

A cobertura da BCG para o período de janeiro a junho está em apenas 57,4%. A da poliomielite alcançou somente 59,5%. A da tríplice viral, que protege contra sarampo e outras duas doenças, está em 64,3%. A dose da vacina da hepatite B dada aos recém-nascidos teve apenas 50,5% da meta alcançada.

Os dados ainda não são os finais pois os gestores municipais, responsáveis por executar as ações de vacinação, têm até março do ano seguinte para registrar no sistema federal todas as doses aplicadas. Mas especialistas em imunização e o próprio Ministério da Saúde já veem o cenário com preocupação. A pasta prepara uma campanha de multivacinação para outubro para tentar colocar em dia as doses em atraso.

Para Isabella Ballalai, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), mesmo com o prazo prolongado dado aos gestores, é incomum ver coberturas tão baixas nesta época do ano. “Mesmo que eles tenham meses para notificar, os índices parciais não costumam destoar tanto dos que vemos no fim do ano. Acredito que tenha um impacto, sim, da pandemia. Muitos estão adiando a vacinação com medo do vírus”, diz.

O medo dos pais de levarem as crianças aos postos de saúde em meio à pandemia é a principal razão para as baixas coberturas, diz. Mas problemas nas notificações das doses dadas também podem estar afetando os números. “Os sistemas de registro são complexos, nem sempre funcionam. No meio da pandemia, a prioridade de atendimento era outra e pode ser que algumas doses dadas não tenham sido notificadas ainda”, explica Alessandro Chagas, assessor técnico do Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde (Conasems).

Isabella destaca o risco de retomada das aulas presenciais com as carteiras de vacinação atrasadas. “Neste ano, mesmo com todo mundo isolado, tivemos 7 mil casos de sarampo. Imaginem se as crianças estivessem indo nas escolas. É muito preocupante. É importante que, nos protocolos de retomadas das aulas, esteja como um dos pontos fundamentais a atualização das doses em atraso”, diz ela.

Questionado sobre os impactos da pandemia na adesão à vacinação, o Ministério da Saúde afirmou que foram mantidas e prorrogadas as estratégias de vacinação contra o sarampo em pessoas de 20 a 49 anos. Disse ainda que outras ações serão realizadas no segundo semestre, como as campanhas nacionais de vacinação contra a poliomielite e a multivacinação para a atualização da situação vacinal. “O público-alvo das ações inclui crianças e adolescentes de até 15 anos cujas doses estão atrasadas por qualquer motivo, inclusive a pandemia”, disse a pasta.

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