Felipe Rau / Estadão
Felipe Rau / Estadão

Reserva do maior hemocentro de SP está em 1/3; estoque de sangue no País cai 20% com pandemia

Segundo Ministério da Saúde, baixa foi registrada em outubro; Fundação Pró-Sangue, em SP, está em situação crítica

Paula Felix, O Estado de S.Paulo

13 de novembro de 2020 | 10h00

SÃO PAULO - Hemocentros de várias partes do País estão sendo afetados pela falta de doadores de sangue durante a pandemia do novo coronavírus. Segundo a Coordenação-Geral de Sangue e Hemoderivados do Ministério da Saúde, foi registrada uma queda em torno de 20% nos estoques de hemocomponentes em outubro, na comparação com o mesmo período do ano passado.

Em São Paulo, a Fundação Pró-Sangue está com o estoque em situação crítica, quadro que pode afetar cirurgias eletivas de médio e grande portes, que podem ser canceladas.

 

"Não está vindo doador. Procuramos saber pela rede nacional e vimos que vários Estados estão em situação de penúria. Estamos pensando se, com essa situação, teremos de suspender cirurgias eletivas", afirma Vanderson Rocha, diretor-presidente da Fundação Pró-Sangue e professor titular de hematologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP).

Até esta quinta-feira, 12, a entidade contava com apenas 30% das bolsas necessárias para suprir mais de 100 instituições públicas de saúde na Região Metropolitana de São Paulo. "Os sangues do tipo O+, O-, B+, B- e A- estão em estado de emergência, garantindo o abastecimento para menos de um dia", informa a instituição.

Diretor técnico-científico da Fundação Pró-Sangue, Alfredo Mendrone Junior diz que o medo de infecção pelo vírus afastou doadores. "Os postos de doação estão inseridos em centros hospitalares, e a maioria dos doadores chega de transporte público, mas o hemocentro instituiu medidas de segurança para evitar a contaminação."

Momento mais crítico em 36 anos

Medrone Junior classifica o quadro como o "mais crítico" desde a fundação da Pró-Sangue, em 1984. "Pela extensão do tempo, é o momento mais crítico que a fundação já viveu. Fomos afetados pela greve dos caminhoneiros, tivemos paralisação por causa dos ataques do PCC, mas foram períodos curtos. Esta situação está perdurando por meses. É o pior cenário que já vivemos."

Segundo Carla Luana Dinardo, diretora de relações externas da fundação, a entidade precisa recuperar o estoque nos próximos 15 dias. "Precisamos de todos os tipos de sangue, mas o que mais precisa é o tipo O, porque a maior parte da nossa população é de tipo O e a maior parte dos pacientes é também. Uma bolsa de sangue pode salvar até quatro vidas." O agendamento pode ser feito pela internet, e quem teve covid-19 deve esperar 30 dias para doar.

Em nota, o Ministério da Saúde informou que, diante do risco de desabastecimento na pandemia, a Coordenação-Geral de Sangue e Hemoderivados acionou o Plano Nacional de Contingência para Grandes Eventos. Segundo a pasta, isso "possibilitou a mobilização de hemocomponentes por todo o território nacional, transferindo para Estados mais afetados um total de 2.106 hemocomponentes de janeiro a outubro, garantindo a continuidade do tratamento dos brasileiros que necessitaram de transfusão".

Outros Estados

Além de São Paulo, outros Estados estão com níveis críticos em ao menos um tipo de sangue. Em Alagoas, este é o caso dos tipos AB+, O- e B+. Lá o estoque de A- está vazio. No Amazonas, este é o quadro dos tipos AB+ e O-. Na Bahia, O+. Em Minas Gerais, O-, O+ e A+.

"Ao longo dos meses, o nivel dos estoques chegou a um quadro crítico em São Paulo, Pernambuco, Rio de Janeiro, Espírito Santo e Amazonas", afirma Medrone Junior.

A situação da interrupção do abastecimento de energia elétrica no Amapá é outra preocupação.

"No Amapá, além da falta de doadores, o apagão prejudicando o armazenamento de sangue e Distrito Federal e o Pará vão ajudar com bolsas de sangue."

Nesta sexta-feira, 13, a Fundação Hemopa vai enviar 140 bolsas de sangue para o Hemocentro do Amapá. A entidade paraense realizou uma campanha nos dias 10 e 11.

Segundo o Ministério da Saúde, a Coordenação Geral de Sangue e Hemoderivados começou a fazer um monitoramento da situação no Estado e reorganizou os estoques de medicamentos hemoderivados refrigerados.

"Além disso, foram mobilizadas plaquetas – hemocomponente mais lábil e, portanto, mais escasso – dos Estados do Pará e Distrito Federal para o Amapá, além de o Estado ter realizado uma grande campanha de doação de sangue em caráter emergencial, que garantiu o restabelecimento dos estoques de hemácias e outros hemocomponentes que não necessitaram ser mobilizados para o Estado."

O ministério informou que o hemocentro do Amapá está funcionando com geradores.

Como doar sangue?

Para ser um doador, é necessário estar em boas condições de saúde, pesar mais de 50 kg e ter entre 16 e 69 anos. Menores de idade precisam do consentimento dos responsáveis e entre 60 e 69 anos a pessoa só poderá doar se já o tiver feito antes dos 60 anos. É obrigatório apresentar documento com foto. Homens podem doar até quatro vezes por ano, mas respeitando o intervalo de dois meses entre as doações. Já as mulheres podem doar três vezes e o intervalo é de três meses. 

Além disso, quem vai doar precisa estar descansado, ou seja, dormido pelo menos 6 horas nas últimas 24 horas, e bem alimentado, mas não pode ter consumido alimentos gordurosas nas quatro horas que antecedem a doação nem ter ingerido bebidas alcoólicas 12 horas antes de doar. Se a pessoa estiver gripada ou resfriada, deverá aguardar 7 dias após o desaparecimento dos sintomas. 

A doação deve ser feita em um posto de doação. No link, confira uma lista com os endereços de hemocentros em todas as regiões do País. Em São Paulo, na Fundação Pró Sangue, a doação de sangue está sendo feita preferencialmente por meio de sistema de agendamento individual para evitar aglomerações. Mais informações podem ser encontradas no site da Fundação

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