Edgar Su/Reuters
Edgar Su/Reuters

OMS diz que nenhum caso de zika ocorreu na Olimpíada, mas mantém emergência global

Entidade estuda usar vírus africano, diferente do encontrado na América Latina, para imunizar populações

Jamil Chade, Correspondente de O Estado de S. Paulo

02 Setembro 2016 | 09h28
Atualizado 02 Setembro 2016 | 11h11

GENEBRA - A Organização Mundial da Saúde (OMS) afirmou nesta sexta-feira, 2, que, depois de avaliar os dados do Ministério da Saúde do Brasil e de outros países, pode concluir que nenhum caso de zika vírus foi oficialmente registrado durante os Jogos Olímpicos. Mas, ainda assim, decidiu manter o caráter de emergência global. A OMS destacou que em sete meses o vírus se espalhou pelo mundo. "Um evento extraordinário está se transformando lamentavelmente e de forma rápida em um fato ordinário, com surtos em diferentes partes do mundo", informou a organização. 

A decisão foi tomada depois de uma reunião de emergência da qual participaram os principais especialistas do mundo. Além de manter o alerta, a OMS também indicou que governos terão de criar mecanismos e estruturas para lidar com as crianças afetadas pela doença no longo prazo. 

Sobre o temor de transmissão da doença durante os Jogos Olímpicos do Rio, o especialista que presidiu a reunião, David Haymann, afirmou que nenhum atleta ou participantes foi infectado, citando relato da delegação brasileira. Segundo ele, o comitê "felicitou o Brasil em sua aplicação com êxito de medidas de saúde pública durante os Jogos". "Até hoje não existem casos confirmados de zika entre as pessoas que estiveram nos Jogos, nem durante o evento nem ao retornarem aos seus países de origem",  indicou a OMS em um comunicado. Para a entidade, a falta de casos confirma a avaliação inicial da OMS de que os Jogos representam um risco pequeno de transmissão. 

Questionada se os alertas que culminaram com o cancelamento na participação até de jogadores de golfe foram exagerados, a OMS se defendeu. "Essa foi uma nova manifestação de uma doença e todos estamos aprendendo com ela", indicou Peter Salama, diretor-executivo da OMS. "Mas existem muitas perguntas ainda não respondidas. Por conta disso, decidimos ser cautelosos", alegou. "Mas sempre dissemos que o risco era baixo. Hoje, os dados validaram essa avaliação e não temos confirmação de nenhum caso." 

Segundo Haymann, apesar dos dados positivos do Brasil, o governo afirmou à OMS que está "preocupado" com o aumento da microcefalia, principalmente na região do Nordeste. 

Proliferação. Parte da decisão da OMS em manter a emergência global, portanto, está relacionado ao fato de que a doença continua se espalhando. "Novos surtos continuam a ser identificados em novas regiões, como em Guiné-Bissau e Cingapura", disse Haymann. "Diante da expansão geográfica e da falta de entendimento sobre o vírus, o zika continua sendo uma preocupação internacional."

Diante desse cenário, a OMS começa a se preparar para socorrer países mais pobres que podem, nos próximos meses, ser afetados.

Nesta sexta-feira, a revista The Lancet revelou que potencialmente 2,6 bilhões de pessoas poderiam ser infectadas pelo vírus. Essa é a população em países que hoje contam com o mosquito Aedes, responsável pela transmissão. "Reconhecendo o impacto do vírus no enfraquecimento dos sistemas públicos de saúde. O comitê recomenda à OMS que preste ajuda necessária para países com alta vulnerabilidade e baixa capacidade", alertaram os especialistas. 

Segundo eles, diversas perguntas continuam sem respostas, entre elas a existência ou não de outros fatores que poderiam explicar os casos de microcefalia no Brasil. Por isso, recomendam que novos recursos sejam usados em pesquisas. "Precisamos melhor entendimento científico", disseram.

Imunização. Um dos focos de pesquisa a partir de agora será sobre o fato de que o zika vírus identificado em Guiné-Bissau não é da mesma cepa daquele que gerou uma epidemia na América Latina e que, principalmente no Brasil, fez explodir o número de casos de microcefalia e outras complicações neurológicas.

Uma das apostas da OMS é de que, se o vírus africano for diferentes dos demais e não causar as anomalias, ele poderá eventualmente ser usado para imunizar milhões de pessoas em outras regiões. "Precisamos aumentar nosso entendimento sobre isso e sobre o que significaria para as implicações clínicas ", disse Haymann.  

"Em Guiné-Bissau, os resultados do sequenciamento genético realizados em quatro casos confirmados de zika mostraram, de forma preliminar, que os casos são da ascendência africana, e não da ascendência asiática do vírus que provocou uma epidemia no Brasil e na América Latina", indicou a OMS. "Vamos avaliar se existe a possibilidade de usar o vírus africano para proteger as populações das demais cepas. Vamos pesquisar isso."

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