Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

OMS recomenda corticoides para casos graves de covid após publicação de novos estudos

Entidade se baseou em novas evidências publicadas nesta quarta-feira, que mostram que essa classe de medicamentos reduz a mortalidade em pacientes em estado crítico

Fabiana Cambricoli e João Ker, O Estado de S.Paulo

02 de setembro de 2020 | 12h58

Com a publicação de novos estudos apontando que medicamentos corticoides reduzem a mortalidade por covid, a Organização Mundial da Saúde (OMS) divulgou nesta quarta-feira, 2, novas diretrizes para médicos e gestores recomendando o uso dessa classe de remédios para pacientes com formas graves da infecção. Entre os corticoides recomendados estão remédios como a dexametasona e a hidrocortisona.

"Recomendamos corticosteroides sistêmicos para o tratamento de pacientes com covid-19 em estado grave e crítico. Sugerimos não usar corticosteroides no tratamento de pacientes com quadros não severos de covid-19", resumiu a entidade, em comunicado para a imprensa. Corticoides sistêmicos são aqueles administrados via oral ou intravenosa. 

A decisão da entidade foi embasada nos resultados de sete estudos clínicos que tiveram suas evidências analisadas em uma pesquisa de meta-análise e publicada nesta quarta-feira no Journal of the American Medical Association (Jama), um dos mais renomados periódicos científicos.

Com base em dados de 1,7 mil pacientes de 12 países, incluindo o Brasil, os cientistas observaram redução de 20% na mortalidade entre o grupo que tomou corticoide em comparação com os doentes que receberam apenas o suporte clínico padrão. A droga também se mostrou segura para o perfil de pacientes estudados (aqueles internados com quadros severos ou críticos). Não foi observado risco aumentado de eventos adversos graves, de acordo com a pesquisa.

A realização da meta-análise foi apoiada pela OMS após a divulgação dos resultados do estudo Recovery, da Universidade de Oxford (Reino Unido), que demonstrou, em junho, que o medicamento reduzia o número de óbitos pela doença em pacientes graves. 

A partir dessa primeira evidência, a organização fez uma parceria com pesquisadores desses sete estudos clínicos para "fornecer rapidamente evidências adicionais" que complementassem os dados do Recovery e permitissem o desenvolvimento de diretrizes atualizadas. Os resultados apontaram que o uso de corticóides evitou 87 mortes a cada grupo de mil pacientes graves, que estavam recebendo oxigênio por respiradores, hospitalizados e sob cuidados médicos. 

A organização ressalta que a recomendação não vale para pacientes com quadros não severos de covid porque, além de não haver evidências científicas de benefício para esse grupo de doentes, o medicamento pode até agravar o quadro. Isso porque os corticoides atuam controlando a resposta inflamatória do organismo contra o vírus. Nos casos graves, essa resposta costuma estar desenfreada, causando a chamada "tempestade inflamatória". Mas no início da infecção, essa resposta é a que combate o vírus. Bloqueá-la no começo dos sintomas pode piorar o quadro ou aumentar o período de sintomas.

Em transmissão online nesta manhã, Janet Diaz, chefe de Atendimento Clínico do programa de emergências da OMS,  reforçou a orientação. “O medicamento não é recomendado aos paciente que apresentam sintomas, mas não tem sinais fisiológicos de quadro inflamatório, porque há uma preocupação de que ele possa causar danos a esse subgrupo.”

Ela pontuou ainda que as recomendações de hoje foram publicadas especificamente para médicos e gestores da saúde, além de afirmar que a descoberta não chega a ser uma surpresa, já que corticóides têm um histórico positivo no tratamento de pneumonias virais. “Nós já sabíamos no início da pandemia que eles começaram a ser usados, então incentivamos os médicos a não só usarem os corticoides, mas aplicá-los em estudos.” 

Maria Van Kerkhove, líder técnica da resposta à covid-19 da OMS, frisou que essas recomendações não significam que os pacientes possam se automedicar ou tomarem corticóides sem indicação de um profissional. Em nota, o órgão também destaca que os medicamentos estão amplamente disponíveis em todo o mundo por um baixo custo e que acompanhará seu acesso em países mais vulneráveis. Essa classe de remédios é usada há décadas no tratamento de doenças inflamatórias, respiratórias e alérgicas, como asma e artrite reumatoide.

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