Daniel Teixeira/Estadão
Profissionais de saúde da linha de frente da covid-19 relatam esgotamento na pior fase da pandemia Daniel Teixeira/Estadão

Com um ano de pandemia, hospitais têm profissionais cansados, pacientes jovens e famílias internadas

Profissionais da saúde relatam o desafio de cuidar dos pacientes – em número crescente e cada vez mais jovens – e lidar com o esgotamento de um ano de pandemia

Pablo Pereira, Marco Antônio Carvalho e Ricardo Araújo, Especial para o Estadão, O Estado de S.Paulo

29 de março de 2021 | 05h00

Depois de um ano de pandemia, a sensação é de viver em um campo de guerra. Profissionais da saúde relatam o desafio de cuidar dos pacientes com covid-19 – em número crescente, e cada vez mais jovens – e lidar com o cansaço. 

Esse rejuvenescimento da pandemia pressiona hospitais. Na comparação entre a 1ª semana epidemiológica do ano com a 10ª (7 a 13 de março), as infecções pelo vírus subiram 316%, disse o Observatório Covid-19 da Fiocruz, na sexta-feira. 

Já nas faixas de 30 a 39 anos, os casos aumentaram 565%; e de 40 a 49 anos, 626%. Por terem menos comorbidades, a permanência dos mais novos nos hospitais é maior. 

“Antes, a gente até falava: ‘eram os avós’. Agora são os filhos e os netos”, diz o infectologista André Baptista, médico residente do Instituto Emílio Ribas, unidade de referência em São Paulo. Além disso, as equipes convivem com a ansiedade de dar notícias (más, na maioria) às famílias e a revolta de ouvir sobre flagrantes de festas e aglomerações, como se a crise sanitária nem existisse. 

O medo de acabar os remédios é outra sombra. “Se as drogas acabarem, todos vão acordar com um tubo dentro do pulmão. Imagine que situação desesperadora”, descreve Baptista.

Além das mortes – o País tem mais de 312 mil vítimas –, o número de novas infecções indica que ainda não há sinais de melhora em breve. Médica intensivista do Hospital Municipal de Natal, Ana Patrícia Tertuliano define: “Realmente, o que a gente está vivendo é um inferno”.

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'Eram os avós, agora são os netos. Se a sedação acabar, acordam com um tubo no pulmão', diz médico

Infectologista do Instituto Emílio Ribas relata como é atender pacientes cada vez mais jovens e critica aglomerações na fase mais aguda da pandemia

Pablo Pereira, O Estado de S.Paulo

29 de março de 2021 | 05h00

*Depoimento de André Baptista, médico residente em infectologia do Instituto Emílio Ribas

"No Emílio Ribas temos 60 leitos de UTI, com pacientes intubados, com a forma grave da doença. Após 12 meses de pandemia, aprendemos muito. No começo, em março de 2020, a gente estava lidando com um vírus novo.

Não sabíamos quais eram as complicações, seu comportamento evolutivo e não tínhamos tratamento específico. Normalmente eram pacientes idosos, com comorbidades, obesos, com diabetes, alguns com hipertensão. O que chamava muita atenção era o sobrepeso. Mas isso mudou. Quando aparecia um jovem, abaixo de 50 anos, era com obesidade grande. 

O problema é que, agora, como colapsou o sistema, público e privado, os pacientes estão chegando mais graves, com necessidade de intubação muitas vezes já na admissão no pronto-socorro. 

Mudou o perfil. Antes, a gente até falava “eram os avós”; agora são os filhos e os netos. Com as novas variantes, temos paciente de 26 anos, 30 anos, sem comorbidades, sobrepeso ou sem doenças associadas. 

O padrão respiratório também é importante. Não adianta ele estar a 15 litros, que é o máximo, saturação de 94%, mas estar desconfortável. Aí se indica a intubação. Você seda o paciente e o ventilador é que vai realizar as trocas de oxigênio. Aí o pulmão consegue “descansar” para se recuperar da infecção. E há gargalo, que é a falta de medicação para a sedação. 

No Emílio Ribas a gente não tem esse problema, mas sabemos que essa não é a realidade do SUS. Essa droga usada para colocar o tubo precisa ser mantida enquanto o paciente estiver intubado. Na UTI, com 60 leitos, todos intubados, todos recebem drogas de sedação. Se as drogas acabarem, todos irão acordar com um tubo dentro do pulmão. Imagine que situação desesperadora. 

Dentro do possível, a população também tem de fazer a parte dela. Bailes da terceira idade, cassino clandestino, bingo clandestino, isso não dá para acontecer no contexto que estamos vivendo. É muito triste você trabalhar 12 horas, se dedicar ao máximo, e chegar em casa e ler notícia de apreensão em baile de idosos, de boate noturna."

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'Muitos jovens, na casa dos 20, 30 anos. Membros da mesma família intubados', conta médico

Cardiologista intensivista do Hospital Sírio-Libanês relata angústia diante do aumento de internações e risco de falta de medicamentos nos hospitais

Pablo Pereira, O Estado de S.Paulo

29 de março de 2021 | 05h00

*Depoimento de Maurício Henrique Claro, cardiologista intensivista do Hospital Sírio-Libanês

"Acredito que depois de aproximadamente um ano de trabalho árduo de combate à covid-19, nenhum profissional de saúde que atua na linha de frente imaginaria que a gente chegasse na situação em que a gente se encontra agora. 

É o pior momento da pandemia, com o número de casos aumentando muito e a necessidade de abrir mais leitos de terapia intensiva para atender à demanda desses pacientes que chegam graves. 

São muitos pacientes jovens, na casa dos 20, 30 anos de idade. A gente está vendo também muitos membros da mesma família sendo intubados, necessitando de ventilação mecânica ao mesmo tempo. E, além disso, (hospitais) correndo risco da falta de medicamentos

Por isso, é super importante as pessoas se cuidarem, manterem o distanciamento social, usarem as máscaras e também se vacinarem contra a covid-19. Não é hora de parar de se cuidar."

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'O que a gente está vivendo é um inferno', diz intensivista

Médica do Hospital Municipal de Natal relata o peso de ter que, todos os dias, dar notícias ruins para familiares dos doentes

Ricardo Araújo, Especial para o Estado, O Estado de S.Paulo

29 de março de 2021 | 05h00

*Depoimento de Ana Patrícia Tertuliano, médica intensivista do Hospital Municipal de Natal

"É uma doença cruel que a todo momento aparece com um viés diferente. São pacientes que estão bem, mas daqui a duas horas descompensam de forma rápida e imprevisível. Muitos pacientes não se apresentam como se esperava. Estamos recebendo pacientes bem mais graves, com estágio da doença mais avançado, e mais jovens. Todo mundo está muito sensibilizado.

Estamos internando famílias no hospital. Temos muitos casos de estar o marido numa UTI, a esposa na outra e um filho na enfermaria. São vários casos assim, de familiares com internação simultânea. Ou de ligar para a mulher para dar notícia de um irmão internado numa UTI e ela me dizer que ele não sabe que a mãe estava numa outra UTI, e ela morreu. 

Enquanto profissionais de saúde, não estamos para curar 100%. Estamos para cuidar de 100%, de ser uma esperança, de dar conforto a 100% dos nossos pacientes. É para isso que o profissional de saúde está. Só que esses altos índices de mortalidade, tantos e tão corriqueiramente, destroem qualquer pessoa. 

As histórias se repetem. Você fica o tempo todo bombardeado com morte. Imagino estar num campo de guerra. Eu fico imaginando os soldados, o tempo todo vendo morte. Uma pessoa dessa não volta normal. Um profissional de saúde que está ali para dar vida fica só vendo morte. Uma atrás da outra. A pessoa fica, realmente, deprimida. A gente adoece. Mas, neste momento, a gente não pode. A gente não pode perder as forças agora.

A exceção, para nós, é dar alta. Com vida. O que nos marca profundamente é a nossa felicidade em dar alta a um paciente. Quando a gente dá alta, faz uma festa. Todo dia é uma batalha.

É habitual dizer para uma mãe que o filho morreu; ou para o marido que a esposa morreu; ou para uma filha que o pai morreu. Todos os dias são extremos. É o estresse persistente, o sofrimento persistente. Quem está do lado de fora, ouvindo os nossos relatos, talvez não tenha a real noção do que é esse inferno. Realmente, o que a gente está vivendo é um inferno."

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‘Além das equipes desfalcadas, faltam materiais', diz enfermeira

Enfermeira de hospitais de Porto Velho se emociona ao falar da sensação de impotência diante das mortes por covid-19

João Renato Jácome, especial para o Estadão, O Estado de S.Paulo

29 de março de 2021 | 05h00

*Depoimento da enfermeira Maira Joaneide de Oliveira Barros, que atua nas UTIs do Hospital de Campanha da Zona Leste e do Hospital Regina Pacis, em Porto Velho, Rondônia

“A realidade aqui dentro da UTI, neste momento, é de temor, muito terror e tensão. Temos que lidar todo dia com o nosso emocional, nos controlar. Fico triste, arrasada. E quando chego em casa, fica ainda pior. 

Para quem trabalha dentro de UTI não é nada fácil. No momento, a estrutura ainda não funciona como a gente precisa, como a gente planeja, como tem de ser. Como é muito grande a necessidade, o poder público não consegue dar conta da demanda. 

A gente vive horas, minutos e segundos de forma muito imprevisível. Quando pensamos que não, a saturação dos pacientes começa a cair, e é muito rápido. A gente corre para tentar manter viva aquela pessoa. Infelizmente, a equipe não está completa, e muitas vezes precisamos nos desdobrar, fazer mais horas extras, mais plantões. 

Não temos funcionários suficientes nas UTIs, até porque nem todos querem assumir contratos provisórios, de caráter emergencial, e vir para cá, em plena pandemia, trabalhar com pacientes que estão com covid-19. A gente está o dia todo atendendo um paciente, e no dia em que ele é intubado, ele não melhora. Ou quando melhora, após um grande esforço da equipe, simplesmente no dia seguinte - e isso é o que me deixa mais arrasada -, o paciente morre. 

A gente fica com um engasgo na garganta! Não conseguimos quase falar, não sabemos o que dizer às pessoas da família, porque essas pessoas, do lado de fora, sem poder ver os familiares, sofrem muito. É uma dor que sentimos aqui dentro também. Até quando vamos ficar assim? Só Deus sabe!

E isso sem falar das condições de trabalho: para tudo temos de correr atrás. Já está faltando materiais, além das equipes desfalcadas e cansadas, que precisam se desdobrar a cada dia mais para melhorar a oferta do serviço. 

A gente espera, todo dia, que essa pandemia passe o mais rápido possível. Mas a gente sabe que só vai passar quando as pessoas começarem a respeitar as regras do governo, o isolamento, o uso da máscara. Quando as pessoas fizerem a parte que cabe a elas. Esta é a grande verdade, e precisamos assumir que temos parte nesta pandemia. Muita gente não respeitou o isolamento. Vejo todo dia as pessoas fazendo balada, festinha, com eventos escondidos, clandestinos. Acredito que essas pessoas não amam os avós, os pais, nem os filhos. Não têm amor no coração, não têm sentimentos. 

É triste saber que enquanto muitos estão sofrendo e morrendo, há outros ignorando tudo isso. No final, ninguém quer passar pelo que esses pacientes estão passando todos os dias.”

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‘Os profissionais estão exaustos e a rotina é desgastante’, diz chefe de UTI

Cardiologista do Hospital Beneficência Portuguesa relata alta carga emocional de lidar com pacientes na pior fase da pandemia

Pablo Pereira, O Estado de S.Paulo

29 de março de 2021 | 05h00

*Depoimento de Viviane Cordeiro Veiga, cardiologista chefe de UTI do Hospital Beneficência Portuguesa, além de presidente do Comitê de Analgesia, Sedação e Delirium da Associação de Medicina Intensiva Brasileira (Amib)

“A rotina de uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI) de covid é uma rotina extremamente desgastante. Depois de um ano de pandemia, os profissionais estão bastante exaustos. Exaustos pela alta carga de trabalho, pela alta carga emocional de lidar com esses pacientes. E com o que aconteceu do ano passado para cá.

Já esperávamos que neste período a gente já tivesse muita gente vacinada, com decréscimo das internações, do número de pacientes com covid internados nas UTIs. Mas, infelizmente, a nossa realidade é exatamente o contrário. 

Fora isso, estamos com muitos pacientes jovens muito graves nas nossas UTIs. É muito importante que a população mantenha as recomendações do distanciamento social, do uso de máscaras, do álcool em gel, evitar aglomerações. E a vacina é fundamental. Para quem já tiver oportunidade de estar sendo convocado para a vacinação: isso é muito importante neste momento. 

Sobre as UTIs lotadas, quero acrescentar que estamos passando pelo momento mais crítico de covid que já passamos, pelo menos aqui em São Paulo. A gente está com perfil totalmente diferente neste ano, com pacientes muito jovens, que permanecem muitos dias na UTI. E o que acontece é que as UTIs ficam lotadas."

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