Werther Santana/Estadão
Werther Santana/Estadão

'Comecei a entender a dança como um remédio natural de conexão', diz Isa Zendron

Sem nenhuma intenção de criar bailarinos, Isa busca promover o autoconhecimento do corpo e da mente no projeto Boate Class – caminho que ela mesma segue com orgulho

Ana Lourenço, O Estado de S.Paulo

16 de abril de 2022 | 05h00

“A gente pode ser um ótimo profissional e também ser uma pessoa rebolativa. Uma coisa não interfere na outra.” Para a professora de dança Isadora Zendron, 34 anos, rebolar e dançar não são apenas formas de movimentar o corpo, mas ferramentas de empoderamento.

Isa, como gosta de ser chamada, é criadora da Boate Class, aulas de dança com músicas de ritmos diferentes, mas sempre atuais, e coreografias simples de serem feitas. “O nome vem justamente disso. Queria que as pessoas dançassem como dançam quando estão em uma boate ou em uma festa.” O projeto, diz, tem uma proposta de meditação ativa, com conexão de mente, corpo e alma. As aulas começaram em 2018, ainda de forma presencial, na região da Santa Cecília, em São Paulo.

Durante a pandemia, Isa começou a fazer lives no Instagram ensinando as coreografias online, o que trouxe um pouco de leveza para um período de incertezas. “Nunca tinha passado pela minha cabeça trabalhar na internet. Eu queria mesmo ser professora de dança e o Instagram era um marketing. Mas com o isolamento, as lives me forçaram a explorar esse lado e aquilo virou um escape.”

A procura aumentou, e Isa começou a oferecer aulas online avulsas, por preços populares, ministradas pelo Zoom. Hoje, o online segue em paralelo com o presencial. Desde o início do projeto, são mais de 5 mil alunos que estão nesse processo de descobrir como se conectar com o corpo. “Não existe um corpo certo para rebolar. O seu jeito sempre vai ser o melhor jeito de fazer isso”, diz ela em seu site, que oferece as modalidades Quero Arrasar, Sensualiza, Ousadex e Rabaterapia, uma aula focada em consciência corporal e, claro, no rebolar.

Trajetória

A história da Boate Class começa quando Isa, aos 28 anos, sentiu que precisava se reencontrar. Saiu de São Paulo, onde vivia desde 2007, e retornou a Blumenau, Santa Catarina, sua cidade natal, onde voltou a dançar. Na correria da vida na capital paulista, ela havia deixado de lado sua grande paixão pela dança, que a acompanha desde os 4 anos.

De volta a São Paulo, buscou aulas leves: nem tão compromissadas como nas escolas de dança, nem tão fitness como nas academias. “Queria a dramaticidade, um pouco de Broadway, mas sempre era oito ou oitenta”, lembra. Nessa busca por algo que priorizasseadiversão proporcionada pela dança, surgiu a Boate Class.

Confiança

Não é de hoje que a dança é um ponto de escape para a professora. Isa tinha 15 anos quando perdeu a mãe, e conta que seu sofrimento só era abrandado quando dançava. “Era libertador para a minha mente.” 

Anos depois, um acidente de carro desencadeou um grande medo da morte, que evoluiu para fobia de metrô, gente e até elevadores. “Só quando voltei a dançar é que resgatei a coragem de viver.” A Boate Class acabou por se tornar uma forma de autoconhecimento – dos alunos e da própria Isa. “Perceber os limites dos alunos me fez estabelecer limites também na minha vida pessoal e isso me aproxima da mulher que quero ser”, diz. 

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Trabalhar com os alunos e perceber os limites deles me fez estabelecer limites na minha vida pessoal e isso me aproxima da mulher que quero ser
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Isadora Zendron

Ao longo dos quatro anos do projeto, ela já recebeu diversos relatos de alunos que contam sobre superação do corpo na dança, mas também sobre limites, liberdade e propósito. “Comecei a entender a dança como um remédio natural de conexão, de corpo presente. Quando a gente está ali, só pensa no corpo, não tem espaço para outra coisa na cabeça. E esse sentimento fica na memória para sempre”, conta. 

A timidez, que existia antes, foi embora de vez e deu espaço para uma Isa que, além de mais desinibida, planeja looks e maquiagens . “Trabalhar com o público dançando tem me dado mais coragem de ser eu mesma. Eu sofria muito da síndrome da impostora e hoje consigo valorizar o que faço. Porque sei que muda a vida das pessoas.” 

 

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