REUTERS/Rick Wilking
REUTERS/Rick Wilking

Como a má postura afeta o bem-estar

Dores, limitações na respiração, artrite, problemas digestivos e mudanças de humor podem ser consequências da postura incorreta

Jane E. Brody, The New York Times

13 Janeiro 2016 | 17h34

Preocupada, uma leitora implorou para que eu escrevesse sobre a importância da boa postura. "Meu marido passa horas, todo curvado, no computador. Já cansei de dizer que isso faz mal, que devia se sentar com as costas retas, mas ele não quer nem saber. Como lê a sua coluna toda semana, quem sabe ouça o que você tem a dizer".

Então, aqui vai: sim, meu caro senhor, ouça a sua mulher. Má postura é ruim, não só para a saúde física, mas para o bem-estar emocional e social. E é disso que vou falar agora.

Coloque esse seu computador aí em uma superfície adequada agora mesmo (mantê-lo no colo só estimula as costas curvadas) e sente-se em uma cadeira resistente que o permita manter as costas retas e a cabeça alinhada com os ombros e os quadris enquanto mantiver os olhos na tela.

Baixinha e com predisposição a dores nas costas, há tempos descobri o valor da boa postura e de me sentar para minimizar o estresse na coluna e nos músculos e ligamentos de sua estrutura. Em questão de segundos já sei se determinado carro vai me dar dor nas costas ou no pescoço; quando alugo, tenho que testá-los, um a um, até encontrar o ideal para a minha baixa estatura.

Comprei meu veículo atual, uma minivan Sienna da Toyota, principalmente porque me senti confortável de cara, assim que me acomodei atrás do volante para o test drive. Senti as costas todas protegidas, sem nem um tiquinho de incômodo, o que geralmente acontece com vários outros. Podia enxergar tudo, além da direção, com facilidade, sem ter que jogar a cabeça para trás, o que também tive que fazer em vários casos - e alcanço os pedais sem ter que esticar a perna, forçando assim a região lombar.

Os efeitos da má postura são sentidos em todo o corpo, causando dores nas costas e pescoço, fadiga muscular, limitações na respiração, artrite nas juntas, problemas digestivos e mudanças de humor - sem contar que cria uma má impressão na hora de procurar emprego, no início de um relacionamento ou de uma nova amizade.

Ela também pode tornar a pessoa mais vulnerável à violência urbana: muitos anos atrás, pesquisadores mostraram que as mulheres que andam curvadas, olhando para o chão como se carregassem o peso do mundo nas costas, tinham muito mais chances de serem assaltadas do que as que andavam rápido, com a cabeça ereta. Não sei se a culpa foi só da postura, mas, de fato, foi exatamente isso que aconteceu com uma vizinha minha, no Brooklyn, quando voltava para casa um dia.

Vivemos em um campo gravitacional e quando nosso corpo está desalinhado verticalmente, certos músculos têm que trabalhar mais que outros para nos manter na posição correta; a consequência é uma fadiga e desconforto que perduram mesmo depois do esforço que os causou.

Em um estudo realizado com 110 alunos da Universidade Estadual de San Francisco, a 55 deles foi pedido que andassem curvados; aos outros 55, com as costas eretas. Resultado: esses últimos se sentiram muito mais bem-dispostos e cheios de energia ao longo do dia.

Qualquer posição assumida repetitivamente ou por períodos prolongados "treina" os músculos e tendões para se esticarem ou encurtarem e causa um nível de estresse nos ossos e juntas a ponto de alterar sua forma mais ou menos permanentemente. Da mesma forma que o salto alto encurta e contrai o tendão de Aquiles e os músculos da panturrilha, manter as costas curvadas, hora após hora, pode resultar em uma deformação perene; o mesmo vale para a má postura na caminhada, que deixa a pessoa com os ombros e a parte superior das costas permanentemente arredondados.

Embora os primeiros seres humanos passassem a maior parte do tempo caminhando, correndo e de pé, hoje, nos países desenvolvidos, 75 por cento do trabalho é feito sentado. A maioria vai e volta do trabalho sentada e descansa na mesma posição. Quanto mais tempo a pessoa passar sentada (ou de pé), sem se mexer, nem se movimentar, maiores são as chances de desenvolver dor nas costas, de acordo com um relatório na revista Journal of Manipulative and Physiological Therapeutics.

"Text neck" ("pescoço de torpedo") é um termo criado por um quiroprata da Flórida, Dean L. Fishman, para definir a lesão de estresse repetitivo resultante das (muitas) horas da cabeça para frente e para baixo durante o uso de dispositivos eletrônicos. Nessa posição, os músculos da nuca e da parte superior das costas se contraem; já quem se curva para frente quando se senta tem a tendência de cerrar as mandíbulas e contrair os músculos faciais, o que causa dores de cabeça e DTM, ou disfunção temporomandibular.

Curvar-se para frente ou manter a má postura pode reduzir a capacidade pulmonar em até trinta por cento, reduzindo o volume de oxigênio que chega aos tecidos do corpo, segundo o Dr. Rene Cailliet, pioneiro no campo da Medicina Musculoesquelética que faleceu em março passado.

Além disso, comprime os órgãos abdominais e pode reduzir os movimentos peristálticos, tão importantes para a digestão e função intestinal normais.

Uma das atividades mais problemáticas da atualidade, especialmente para crianças e adolescentes, cuja estrutura óssea ainda está em formação, é carregar mochilas extremamente pesadas para a escola, às vezes durante o dia. O peso força o corpo para frente, com grandes chances de causar os mesmos males que a má postura.

É hora de restaurar a moda das mochilas de rodinha. Eu uso uma para transportar arquivos pesados e livros de/para casa desde que elas foram inventadas, logo depois que as malas também ganharam locomoção própria, nos anos 80.

Até então eu levava tudo, incluindo uma pasta pesada e as compras, no ombro direito, o que me forçava a levantá-lo e pender para a esquerda, obviamente em uma posição indesejável. Se carregar peso for inevitável, procure dividi-lo entre os dois lados do corpo.

Seguem abaixo outros hábitos de postura a serem evitados, de acordo com o Serviço Nacional de Saúde britânico:

- Ficar de pé com as costas retas, mas o quadril para dentro e a região lombar retesada (a espinha dorsal normal tem três curvas: no pescoço, no peito e na região lombar).

- Ficar de pé com o peito e as nádegas empinados (a chamada "posição Pato Donald" sobrecarrega a curva lombar).

- Apoiar-se em uma perna só, o que coloca uma pressão desnecessária em um único lado do quadril e da região lombar.

- Jogar a cabeça para trás e o queixo para frente na hora de olhar para a tela do computador ou ver TV. Abaixe a tela ou eleve o assento.

- Segurar o telefone no ombro. Melhor usar o hands-free como fone de ouvido ou Bluetooth.

Para o fisioterapeuta britânico Nick Sinfield, melhorar/manter a postura exige um esforço consciente combinado a exercícios de força e flexibilidade que corrijam os desequilíbrios musculares. Segundo ele, sequências que trabalham os músculos das nádegas e os extensores ajudam a corrigir a má postura.

 

Mais conteúdo sobre:
Flórida Bluetooth

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.