Hailey Wagner/Unsplash
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Como alcançar a felicidade, sem positivismo tóxico

Modelo do psicólogo Martin Seligman ajuda a ver mudanças possíveis de serem feitas, diz Carla Furtado, especialista em bem-estar

Nathalia Molina, Especial para o Estadão

11 de dezembro de 2021 | 05h00

Não existe fórmula, tampouco pensamento positivo que leve à felicidade. “Não mesmo, não existe uma receita, nada dessa positividade tóxica”, enfatiza Carla Furtado. A afirmação categórica vem da fundadora do Instituto Feliciência e também professora em cursos de pós-graduação e MBA na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS) relacionados ao tema.

“Existem vários modelos científicos, que vão sustentar alguns caminhos, que têm potencial de fomentar o bem-estar e a felicidade. Mas não é uma regra. Por causa da subjetividade envolvida, cada indivíduo, respeitando seu momento de vida, vai entender o que funciona para ele”, explica.

Para alcançar a felicidade de forma genuína, a especialista indica o Perma, modelo do psicólogo americano Martin Seligman que, segundo ela, pode servir mesmo para um leigo no assunto. Ela recomenda também a leitura de Florescer, escrito pelo autor, uma referência em Psicologia Positiva. Perma é a abreviação de Positive Emotion (emoções positivas), Engagement (engajamento), Relationships (relações), Meaning (sentido, propósito), Achievement (realizações, conquistas). A seguir Carla detalha esses conceitos:

Positive emotion: emoções positivas

“A primeira coisa que a gente precisa entender é que, pela perspectiva da neurociência, a emoção é uma reação corporal a um estímulo. Ela não é controlável. Eu não controlo se vou sentir medo ou não, inveja ou não.” A resposta corporal se traduz em mãos suadas, coração acelerado e pupila dilatada, entre outras reações, dependendo da situação. “Olhando como o organismo funciona, a gente vai aprender a mediar como agir diante da emoção”, diz.

A especialista ressalta que é necessário ter cuidado com a busca pelo prazer imediato. “Álcool, droga, sexo, comida e compras trazem prazer, mas isso não é emoção positiva. São coisas diferentes. Se fico buscando uma dose de prazer o tempo todo, entro numa escalada de dopamina”, alerta.

De acordo com Carla, a pessoa tem de entender aquilo que ela faz e que traz bem-estar. “Tem o corredor amador, o que toca um instrumento, a pessoa que cuida da horta, aquela que cozinha, como é o meu caso. Não importa o quê.” Carla explica que lançar mão dessas atividades tem o efeito de abrir um kit imaginário de primeiros socorros para transformar as emoções.

Engagement: engajamento

“Ocorre quando faço alguma coisa em que não percebo o tempo passar. Isso, na psicologia, se chama estado de flow ou fluxo”, explica. “Vale também quando faço algo que me desafia, mas que tenho habilidade para fazer.”

Relationships: relacionamentos

“Se eu tiver só dois minutos para esse assunto, vou falar apenas de relações. É um aspecto muito importante, e não tem a ver com quantidade de pessoas”, explica. Para entender que relações são relevantes, ela recomenda responder à pergunta “Para quem eu poderia ligar às 3 horas da manhã se precisasse?”.

Depois, é agir. “Tudo isso precisa de ação, ou não há nenhum resultado no Perma. Estreite os laços com essa pessoa. Somos uma espécie social, a gente se beneficia muito com o contato com essas pessoas”, afirma Carla. “Pode ser fazer uma delicadeza. Meu afilhadinho bateu na minha porta com uma microflor. Foi um pequeno gesto extraordinário.”

Entretanto, ela lembra que a iniciativa tem de ser verdadeira, legítima, aquilo que faz bem para que pratica. “Se eu estiver esperando algo em troca, o corpo da gente sabe e eu não tenho o benefício do bem-estar.”

Meaning: propósito

“É sobre sentido de vida”, afirma. “Costumo dizer para os alunos: ‘Senta em algum lugar na sua casa onde você não costuma ficar e vê sua realidade com olhar de estrangeiro. Traga para a mente as pessoas que coexistem com você, não importa se morando junto ou não’. A tendência é grande de a pessoa achar que já tem o que faz sentido para ela.” Carla lembra que “a filosofia de Santo Agostinho diz que felicidade é seguir desejando aquilo que já se possui”. Segundo a especialistas, esse é o processo de ressensibilização sobre o que tem sentido na vida.

Nesse exercício, de acordo com ela, é possível ainda ver o que mudar porque já não faz mais parte. “Viktor Frankl , neuropsiquiatra austríaco, dizia que o ser humano se constitui momento a momento. E eu digo: Dá muito trabalho viver uma vida bacana, mas dá muito mais trabalho viver uma vida ruim. O sentido eu construo, reconstruo.”

Achievement: realizações

“São as conquistas, e elas não são só um check-list de aquisições. Tem de ser aquilo que carrega significado.” Carla esclarece que não é sinônimo de sucesso. “Aqui é a realização pelo meu olhar. Posso morar numa casinha no interior e estar bem. Não é sobre o que a sociedade vai dizer. O sucesso pode ser perigoso porque precisa da aprovação do outro.” 

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