Denis Lovrovic/ AFP
Denis Lovrovic/ AFP

Como as crianças se defendem do coronavírus?

'As crianças reagem imunologicamente de modo diferente a este vírus e ao que parece isso as protege', afirma a Dra. Betsy Herold, do Albert Einstein College of Medicine

Apoorva Mandavilli, The New York Times

30 de setembro de 2020 | 12h00

A razão pela qual o coronavírus afeta as crianças bem menos gravemente do que os adultos tem sido um mistério da pandemia que perdura. A vasta maioria das crianças não adoece e, quando isto ocorre, elas se recuperam.

O primeiro estudo comparando a resposta imunológica das crianças sugere uma razão para isto. Nas crianças, uma ramificação do sistema imune que evoluiu para proteger contra patógenos não familiares destrói rapidamente o coronavírus antes de ele começar a fazer estragos nos seus corpos, segundo pesquisa publicada esta semana na Science Translational Medicine.

“O resultado é que as crianças reagem imunologicamente de modo diferente a este vírus e ao que parece isso as protege”, afirmou Betsy Herold, especialista em doenças infecciosas em crianças no Albert Einstein College of Medicine, que comandou o estudo.

Nos adultos essa resposta é muito mais débil, ela e seus colegas concluíram. Quando o corpo se depara com um patógeno não conhecido, ele reage em questão de horas desencadeando uma forte atividade imune, chamada resposta imunológica inata. Os defensores do corpo são rapidamente recrutados para lutar e começam a lançar sinais pedindo ajuda.

No caso das crianças, os patógenos que são novos para seu sistema imune são descobertos rapidamente e sua defesa inata é rápida e avassaladora.

Conforme avança o tempo, à medida que o sistema imune encontra patógenos atrás de patógenos, ele cria um repertório de vilões conhecidos. Quando o corpo chega à idade adulta, ele vai depender de um sistema mais sofisticado e especializado adaptado para evocar e combater ameaças específicas.

Se o sistema imune inato parece ser o primeiro a reagir diante deste cenário, o sistema adaptativo representa os especialistas habilitados no hospital. O sistema adaptativo tem sentido biologicamente porque os adultos raramente reconhecem o vírus no primeiro momento, disse Michael Mina, imunologista pediátrico na Harvard T. H. Chan School of Epidemiology em Boston.

Mas o coronavírus é novo para todos, e o sistema inato atenua à medida que as pessoas envelhecem, o que as torna mais vulneráveis. Durante o tempo que leva para um corpo adulto conseguir que o sistema adaptativo especializado entre em ação, o vírus já teve tempo para causar danos, sugere a pesquisa.

Herold e seus colegas compararam respostas imunes em 60 adultos e 65 crianças e jovens com menos de 24 anos, todos eles hospitalizados no Montefiore Medical Center na cidade de Nova York, de 13 de março a 17 de maio, e 20 crianças tinham síndrome inflamatória multissistêmica ligada ao coronavírus.

No geral, as crianças foram ligeiramente afetadas pelo vírus, em comparação com os adultos, a maioria reportando sintomas gastrointestinais como diarreia e perda do olfato e paladar. Somente cinco crianças precisaram de ventiladores, em comparação com 22 adultos. Duas morreram, comparado com os 17 adultos que vieram a falecer.

Os pesquisadores descobriram que as crianças tinham níveis de sangue muito mais altos de duas moléculas imunes particulares, a interleucina 17A e o interferon gama. As moléculas eram mais abundantes nos pacientes mais jovens e diminuíam progressivamente com a idade. “Entendemos que isto as está protegendo, particularmente contra doenças respiratórias graves porque esta é realmente a maior diferença entre os adultos e as crianças”, disse a médica.

Em alguns pacientes adultos com covid-19, a falta de uma resposta vigorosa precoce também pode estar desencadeando uma reação adaptativa intensa e desregulada que leva à síndrome do desconforto respiratório e à morte, associadas com essa hiper inflamação”, afirmou Herold.

Todos os vírus têm artimanhas para se evadirem do sistema imune inato e o coronavírus é particularmente perito nisto. Produzida logo no início da infecção, a interleucina 17A ajuda as crianças a frustrarem as tentativas do vírus para fugir da resposta inata e repelir a resposta adaptativa posterior. “Pensamos que isto também as protege de uma resposta imune adaptativa mais vigorosa associada a essa hiper inflamação”, disse ela.

Outros especialistas afirmam que o estudo foi bem feito, mas, como ocorre com muitos estudos sobre o coronavírus, ela sofre com o fato de recrutar os pacientes num estado muito avançado da infecção.

A resposta imune inata é desencadeada horas após a exposição a um patógeno, mas as pessoas no geral só chegam ao hospital uma semana depois de serem infectadas, quando os sintomas são graves, disse Akiko Iwasaki, imunologista da Yale University.

É então tarde demais para estudar como o sistema imune inato reage ao vírus, disse ela, acrescentando que “quando a pessoa adoece já resposta já é tardia”. Mas os novos dados negam algumas teorias populares sobre o porquê de as crianças estarem protegidas contra o vírus, afirmou a epidemiologista.

Alguns cientistas suspeitavam que as crianças se defendem melhor porque tendem a se expor a outros coronavírus que causam resfriados comuns o que daria a elas alguma proteção.

Mas segundo este novo estudo não existem diferenças importantes nas respostas do sistema imunológico a esses vírus entre os grupos, observou Akiko Iwasaki.

Uma outra teoria diz que as crianças geram uma resposta de anticorpos mais forte que liquida o vírus de modo mais eficaz do que nos adultos. Mas o novo estudo também concluiu que os adultos mais doentes na verdade produziram os anticorpos mais poderosos.

Esse resultado pode confirmar uma preocupação persistente entre os pesquisadores: de que a presença desses anticorpos potentes contribui para a doença nos adultos em vez de os ajudarem a combater o vírus – um fenômeno chamado reforço dependente de anticorpos. Os laboratórios que vêm desenvolvendo vacinas estão monitorando atentamente os participantes de testes clínicos em busca de sinais deste problema.

“Este é um assunto que todo mundo tem evitado”, afirmou Jane C. Burns, especialista em doenças infecciosas na universidade da Califórnia. “É possível que uma alta dose de alguns anticorpos na verdade seja ruim, não boa, para você?”.

E também é preciso saber o que ocorre com as crianças depois do reforço imune inicial, disse a médica. As crianças produzem uma forte resposta imune, mas seus corpos precisam silenciá-la rapidamente depois de o perigo passar.

Se este vírus se tornar uma endemia, como os coronavírus que causam resfriados comuns, as crianças acabarão desenvolvendo defesas adaptativas tão fortes que no futuro não sofrerão os problemas que os adultos vêm tendo agora, disse Mina. “No fim, à medida que nos tornamos mais velhos, afastamos este vírus”. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO  

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