Michael A. McCoy/WP
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Como criar crianças antirracistas?

Em novo livro lançado nos EUA, o historiador Ibram X Kendi responde a essa questão por meio de estudos e experiências pessoais

Entrevista com

Ibram X. Kendi

Caitlin Gibson, The Washington Post

01 de agosto de 2022 | 13h15

No turbulento verão de 2020, quando os protestos contra a brutalidade policial e o racismo eclodiram nos Estados Unidos, o historiador e estudioso antirracismo Ibram X. Kendi ficou impressionado com a quantidade de jovens que se juntaram ao que provavelmente foi o maior movimento de protesto em massa da história americana. Ele viu crianças marchando com suas famílias, adolescentes içando cartazes escritos à mão, estudantes exigindo que suas escolas ensinassem toda a verdade sobre a história de seu país – e viu pais e professores que pareciam determinados a guiar essas crianças para um futuro melhor, que queriam saber como tornar esse futuro possível.

Foi quando ele soube que precisava escrever um novo livro, diz ele, não apenas para aqueles pais e professores, mas também para si mesmo. Apesar de seu estudo inovador sobre o racismo e suas origens – Kendi recebeu o National Book Award e uma bolsa MacArthur por seu trabalho, e atua como diretor do Centro de Pesquisa Antirracista da Universidade de Boston – ele também é pai de uma filha de 4 anos, e percebeu que havia mais coisas que ele queria entender sobre como criá-la para se tornar alguém que lutaria pela igualdade.

O resultado dessa epifania é o livro How to Raise an Antiracist (Como Criar um Antirracista, em tradução livre), um guia para pais e cuidadores e também um livro de memórias reflexivo. Kendi falou ao The Washington Post sobre seu trabalho e sua experiência como pai. 

Quando você decidiu escrever este livro como um roteiro baseado em pesquisa para pais e cuidadores, o que o fez incluir sua própria história?

Achei que era importante que os pais fossem capazes de superar nosso desconforto em relação aos erros que cometemos como pais. Ser pai é ser imperfeito, ser pai é ser humano. E assim vamos cometer erros, mas também somos muito sensíveis sobre os erros que cometemos, principalmente com nossos filhos. E eu senti que ao fornecer minha própria história pessoal como pai e os erros que cometi, no que se refere à raça com minha filha, pensei que poderia ajudar outros pais a serem auto-reflexivos. Também pensei que compartilhar minha história quando criança poderia ajudar os professores a começar a entender o que estão fazendo ou não da perspectiva de um aluno.

Em minhas reportagens ao longo dos anos, conversei com vários pais brancos sobre raça e algo que ouvi muito é sobre a ansiedade dar uma resposta errada a uma pergunta que uma criança faz, ou não ser informado o suficiente para oferecer uma resposta. O que você diria aos pais que estão passando por essa insegurança?

Acho que as fontes de preocupação e insegurança é essa crença de que, se de alguma forma errarmos, ou seja, se dissermos a coisa errada de alguma forma, os tornarei racistas – então a melhor solução é simplesmente não dizer nada ou encerrar a conversa. Quando na verdade é o contrário. Se não dissermos nada, eles receberão uma resposta de outro lugar, e é mais provável que essa resposta seja racista.

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Os estudiosos mostraram que criar um pensador crítico é criar uma criança que terá mais probabilidade de se proteger contra o pensamento racista
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Agora, quando nos fazem perguntas ou dizem coisas que não entendemos ou não sentimos que podemos responder a essa pergunta, esse é um espaço em que temos que modelar o pensamento crítico. E os estudiosos mostraram que criar um pensador crítico é criar uma criança que terá mais probabilidade de se proteger contra o pensamento racista. E como modelamos um pensador crítico quando uma criança nos faz uma pergunta sobre raça que não sabemos a resposta? Dizemos que não sabemos, e então dizemos: ‘Vamos descobrir juntos’. Assim transmitimos à criança ‘Isso é algo que estou aprendendo também’, ou ‘Eu tinha uma perspectiva diferente sobre isso, e agora essa evidência está me mostrando que é outra coisa’. Portanto, também estamos modelando para a criança não apenas a descoberta, mas também a mudança de mente, o que também é indicativo de pensamento crítico.

A última coisa que eu diria – pais brancos, e pais não-brancos também, eu suspeito, têm essa perspectiva de que o termo ‘racista’ é uma identidade, é quem uma pessoa é essencialmente, fundamentalmente, e então as pessoas querem se projetar como ‘não racista’, o que eles imaginam ser o oposto de racista. A concepção é: ‘Eu não quero dizer algo errado e racista porque isso significaria que eu sou racista’. Mas o que defendo e mostro em meu trabalho é que ‘racista’ é um termo descritivo, e ‘antirracista’ é um termo descritivo. Então a chave para a questão não é se estamos dizendo algo que é racista, a questão-chave é o que fazemos depois que dizemos algo que é racista. Estamos mudando? Estamos crescendo, estamos procurando aprender? Estamos reconhecendo quando estamos dizendo algo que é racista? E se somos, então estamos sendo antirracistas, e estamos servindo de exemplo para nossos filhos.

Muitas vezes há muito foco nas perguntas que as crianças podem fazer e como devemos responder a elas como pais, mas você também escreve sobre a necessidade de os pais fazerem perguntas às crianças sobre raça, começando no jardim de infância. Por que isso é tão importante? E, já que sua filha tem essa idade, que tipo de perguntas você tem feito a ela, como foram essas conversas para sua família?

Eu acho que é incrivelmente importante fazer perguntas aos nossos filhos, não apenas para modelar o pensamento crítico, mas também para encorajar a criança a ser empática. Então, quando uma criança faz algo errado – digamos que seu filho bata em outra criança, em vez de apenas dizermos: ‘Não faça isso!’ podemos dizer: ‘Por que você bateu na criança?’. Podemos perguntar: ‘Como você acha que aquela criança se sentiu?’ Isso está mais de acordo com o que os estudiosos chamam de disciplina indutiva, e a disciplina indutiva tem mais probabilidade de ensinar uma criança a ser empática, e uma criança que é mais empática tem mais probabilidade de ser antirracista, quer estejamos criando um pensador crítico ou criando uma criança para ser empática, devemos sempre fazer perguntas a elas.

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Podemos fazê-los pensar, e essa é a chave, porque ser racista é ser um crente, e ser antirracista é ser um pensador
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Minha esposa recentemente saiu com minha filha e elas estavam em um aeroporto, em um dos clubes de companhias aéreas, e minha filha perguntou: “Por que não há pessoas marrons aqui?” Minha filha tinha 5 anos na época e minha esposa tentou explicar a ela. Então, acho importante responder a essas perguntas e fazer essas perguntas, mas também acho importante trazer nossos filhos a situações em que eles façam perguntas e possamos fazer perguntas. Só para dar um exemplo, digamos que moramos perto de um lugar onde muitos moradores de rua estão reunidos, e muitas dessas pessoas são negras e pardas, poderíamos perguntar ao nosso filho: “Por que você acha que tantas dessas pessoas que são sem-teto são pretos e pardos?” Podemos dar uma resposta – racismo, políticas ruins – e podemos fazê-los pensar, e essa é a chave, porque ser racista é ser um crente, e ser antirracista é ser um pensador.

Achei que você fez uma observação muito convincente sobre a adolescência especificamente como uma época em que as crianças são especialmente vulneráveis tanto à vaidade quanto à insegurança, que você descreveu como “os filhos gêmeos do racismo”. Você pode me contar mais sobre isso – e como os pais podem ajudar seus filhos a aprender a questionar ideias racistas?

Se você é, digamos, pai ou professor de um adolescente branco e ele percebe que há desigualdade na sociedade. Se ninguém diz a eles que a desigualdade é resultado do racismo, então eles pensam que os brancos têm mais porque são mais. Uma criança branca pode pensar isso porque seu ambiente está dizendo isso, sem sequer fazer um som. Então ficam convencidos sobre sua própria raça, e pensam que pessoas como eles são especiais porque são brancos. Da mesma forma, digamos que você está criando uma criança latina, e ela está sendo informada que as pessoas latinas têm menos porque são menos, e as pessoas latinas são menos visíveis em seu currículo, então eles estão ouvindo a ideia oposta – estão dizendo para serem inseguros sobre sua raça. E ambas as concepções são muito difíceis para uma adolescente que está tentando se entender neste mundo profundamente racializado.

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Se você é um adolescente negro, de acordo com um estudo, você está testemunhando ou vivenciando cinco casos de discriminação racista por dia
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É de vital importância que esses adolescentes leiam livros sobre racismo. Quando estamos falando de uma criança de 3 ou 4 anos, acho importante que eles tenham livros com personagens diferentes de cores diferentes e vejam essas cores diferentes no mesmo nível. Quando você está falando de jovens de 11, 12 ou 17 anos, eles têm uma compreensão muito sofisticada da desigualdade racial. Eles sabem que a desigualdade racial existe. Eles estão tentando entender por que ela existe. Então eles precisam se envolver em conversas, ler e ter discussões sobre racismo, porque a única outra explicação para a existência da desigualdade racial é que há algo superior ou inferior em um determinado grupo racial. E, simultaneamente, se você é um adolescente branco, principalmente do sexo masculino, está sendo alvo de supremacistas brancos. Se você é um adolescente negro, de acordo com um estudo, você está testemunhando ou vivenciando cinco casos de discriminação racista por dia. E é fácil para você, como uma criança negra, dizer: “Isso está acontecendo porque há algo errado comigo”.

Falei com muitos pais nos últimos dois anos – sobre a pandemia, violência policial, violência armada, mudança climática e a interseção do racismo com todas essas coisas. E em muitas dessas conversas, os pais expressaram medo profundo sobre o que está acontecendo ao nosso redor agora. Mas eles também notaram que a paternidade não permite o luxo da desesperança, que devemos algo melhor a essas crianças. Eu queria perguntar como a paternidade afetou a maneira como você se relaciona com este momento atual e como isso moldou seu senso do que é possível?

Quando percebemos que minha parceira, Sadiqa, estava grávida, procuramos um nome para nossa filha e, por fim, decidimos chamá-la de Imani. Imani significa “fé” em suaíli. Simplesmente adoramos o nome Imani, e também adoramos que significa “fé”, mas não estávamos pensando na época que ela, por meio de sua presença em nossas vidas – particularmente sua chegada 2016 – que ela se tornaria uma de nossas âncoras, senão nossa âncora principal, pela esperança e por acreditar que podemos transformar este mundo novamente. Apenas testemunhando uma pessoa crescendo e navegando em seu mundo e vendo como ela não tem toda a bagagem racial que os adultos têm, que eu tenho, e sabendo que todas as coisas que erramos como adultos, nossos filhos poderiam fazer dar certo.

Como exemplo pessoal: Parece que, todos os anos, Imani tem uma cor favorita diferente. E a cor favorita deste ano é o arco-íris. E ela, é claro, nem vai discutir se “arco-íris” é uma cor. Mas quando perguntamos a ela “Por que 'arco-íris' é sua cor favorita?”  ela diz: “Porque tem todas as cores!” e ela está quase olhando para mim como, “Claro que arco-íris é a melhor cor!” Isso só me lembra que talvez pudéssemos criar um mundo onde nossos filhos vejam todas as cores, uma coleção de cores, especialmente as cores humanas, como belas. E é isso que eu espero que sejamos capazes de criar.

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