Foto: Eleonora Rigotti
Casa com cartaz pedindo para as pessoas ficarem casa para combater o coronavírus.  Foto: Eleonora Rigotti

Isolado no quarto, com coronavírus

O que muda no dia a dia de quem contrai a doença, mas não precisa ser hospitalizado e pode ficar em casa

José Fucs, O Estado de S.Paulo

04 de maio de 2020 | 13h00


Logo que recebeu o resultado do teste e confirmou a infecção pelo coronavírus, o ortopedista Maurício Póvoa Barbosa, de 46 anos, isolou-se na suíte de seu apartamento, no Morumbi, na zona sul de São Paulo, para evitar o contágio da família. Segundo ele, sua tomografia do pulmão havia revelado ligeiras alterações, mas nada grave, e mesmo com outros sintomas do vírus, como febre, dor de cabeça, tosse e calafrios, não precisou ser internado.

Agora, vinte dias depois de sentir os primeiros sintomas da doença, Barbosa aguarda apenas o resultado de um novo teste para saber se vai receber a alforria. "Como sou asmático, tinha muito medo de pegar o vírus e desde fevereiro comecei a usar máscara e álcool gel no hospital", diz. "O pessoal até estranhava, porque eu era o único que fazia isso na época. Felizmente, a doença não foi tão ruim para mim quanto imaginava."

Como Barbosa, milhares de brasileiros contraíram o coronavírus, mas escaparam do pior e puderam ficar em casa para se recuperar. Embora representem a maior parte dos infectados, pouco se sabe sobre o que acontece com quem fica nesta situação.

Diante da letalidade do vírus, da falta de estrutura do sistema de saúde e da preocupação de boa parte da população com o contágio, é até natural que haja um interesse maior em relação às medidas tomadas para enfrentar os casos mais graves, às condições dos hospitais e às vidas perdidas na pandemia. Agora, como é a recuperação de quem fica doente, mas não precisa ser hospitalizado? O que muda na sua rotina? Até que ponto o vírus afeta a disposição para as tarefas domésticas do dia a dia?

Refeições na porta

Apesar de o contágio ser uma preocupação geral e exigir cuidados especiais, a combinação dos sintomas varia muito, segundo relatos de quem apresentou um quadro mais leve da doença, sem  problemas respiratórios. A intensidade, também. Uma mesma pessoa pode sofrer sintomas diferentes a cada dia. O impacto na vida de cada um, portanto, depende de vários fatores e se altera ao longo da recuperação.

Barbosa conta que, logo depois de saber que tinha contraído o vírus, não saía do quarto nem para fazer as refeições, preparadas por sua mulher Ana Flávia, de 47 anos, e deixadas na porta para ele pegar. Embora sentisse calafrios e dor no corpo e tivesse uma tosse seca típica do vírus e uma febre baixa, na faixa de 37,5°, ele diz que passava o tempo tocando violão e guitarra, assistindo séries na TV, lendo artigos científicos sobre o covid-19 e até participando de reuniões virtuais de trabalho.

No final, porém, acabou ficando só três dias em confinamento no quarto. Embora afirme ter tomado todo cuidado para não contaminar a família desde que sentiu os primeiros sintomas, isolando-se no quarto, usando máscara para ir à cozinha e higienizando tudo depois, Barbosa não conseguiu evitar que os testes de Ana Flávia e de seus filhos Luíza e João Pedro, ambos adolescentes, também dessem positivo.

Com isso, o isolamento individual se tornou familiar, o que aliviou um pouco a situação, já que sua mulher também apresentou sintomas leves e seus filhos ficaram praticamente assintomáticos. Ao mesmo tempo, por não poderem sair do confinamento, eles tiveram de deixar o cachorro da família, que levavam para passear três vezes ao dia, num hotel para cães.

Hostilidade

Barbosa conta que comunicou seu estado ao síndico logo que soube que seu teste havia dado positivo e ele repassou a informação aos demais moradores do condomínio, formado por várias torres. Mas o diz-que-diz foi tão grande nos grupos de WhatsApp dos moradores que ele resolveu sair do anonimato – procedimento estendido depois aos demais membros da família. “Na hora em que revelei meu nome e falei o que estava acontecendo, toda a hostilidade que havia antes acabou”, afirma. “Muita gente mandou mensagem oferecendo ajuda e colocando-se à disposição para fazer compras.”  

Assim como Barbosa e sua família, a psicóloga baiana Sandra Auster, de 63 anos, não precisou ser internada, mas teve sintomas um pouco mais fortes, ainda que sem falta de ar. Hoje, três semanas depois de sentir os primeiros sinais da doença, Sandra afirma que está bem melhor e aguarda o resultado do exame que realizou para saber se desenvolveu anticorpos contra o vírus e já pode voltar à ativa.

Ela diz que, neste período, sentiu muito cansaço, uma forte dor no corpo, principalmente nas costas, e perdeu o olfato e o paladar, outro sintoma comum da doença. Segundo Sandra, os sintomas vêm em ondas e quando ela achava que já estavam passando voltavam de repente. Ou então apareciam sintomas novos, como a perda do paladar e do olfato, que surgiu depois de vários dias. "Tem horas que a gente acha que está melhorando, mas você nunca sabe o dia de amanhã. Isso é muito ruim." 

Quartos separados

Sandra conta que passava boa parte do dia na cama, assistindo a filmes na TV, lendo e navegando na internet. “Não aguentava fazer nada que exigisse muito esforço”, afirma. Ela diz que sugeriu a seu marido Hélio, de 70 anos, até o momento assintomático, que ficassem em quartos separados, mas ele não quis. Afirma que propôs a separação dos objetos de uso diário, mas ele também não quis. De acordo com Sandra, eles não tiveram qualquer contato físico, mas continuaram dormindo na mesma cama. Como os filhos Marcelo e Débora moram em São Paulo, foi mais fácil administrar a situação.

Sandra diz que eles dispensaram a empregada desde antes do aparecimento dos sintomas, embora tenham continuado a pagar seu salário normalmente, e se isolaram em casa, localizada perto da Praia do Forte, a cerca de 60 km de Salvador (BA). “O Hélio fez tudo para mim, porque eu praticamente não conseguia sair da cama.”

Nem todo mundo, porém, pode contar com o apoio de alguém em casa durante a recuperação. Como mora sozinha, a veterinária Luíza Cohen, de 26 anos, teve de recorrer à sua mãe para ajudá-la. Segundo Luíza, sua mãe deixava refeições para ela na portaria do prédio em que mora, no bairro de Perdizes, na zona oeste de São Paulo. Por causa da diarreia e dor de estômago que apresentou durante vários dias, entre outros sintomas, ela afirma que sua mãe preparava pratos bem leves, como “sopinha” e macarrão na manteiga.

Ela conta que, no período em que ficou doente, sentiu sintomas semelhantes aos de Sandra: febre baixa, na faixa de 37,5°, por dois ou três dias, muita dor no corpo, dor de cabeça, tosse, além de ter perdido o paladar e o olfato. “Nunca senti tanta dor de cabeça na minha vida. Não conseguia nem escrever.” Hoje, até já voltou a trabalhar, depois de saber que desenvolveu anticorpos para o vírus.

Carinho nos gatos

Além de também ter informado o seu estado ao síndico, ela combinou com o zelador de deixar o lixo na porta do apartamento e de avisá-lo por interfone quando isso acontecesse. Um funcionário do edifício subia, então, ao seu andar, com máscara, óculos de segurança e luvas, para retirá-lo.

Como os demais, Luíza passava muito tempo na frente da TV. Assistia a séries e acompanhava as notícias. Ela diz que um de seus passatempos era “fazer carinho” em seus três gatos e colocar comida para eles. “Não senti em nenhum momento a necessidade de ir para o hospital”, afirma. “Mas não foi uma gripe qualquer.”

Como se pode observar pelos casos de Luíza, de Sandra e de Barbosa e sua família, o coronavírus faz seus estragos mesmo nos casos mais leves, ainda que eles não sejam tão apavorantes quanto aqueles que a gente acompanha de perto desde o início da pandemia.

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