Luis Ascui/Australia and New Zealand out via EFE/EPA
Luis Ascui/Australia and New Zealand out via EFE/EPA

Como é o lockdown 2.0: regras mais severas, confusão mais profunda

O novo lockdown é produto do sucesso inicial; o país pensou que havia derrotado o vírus em junho

Damien Cave, New York Times

08 de agosto de 2020 | 10h00

Melbourne, a segunda maior cidade da Austrália, está enfrentando um novo surto de coronavírus, o que forçou a instalação de um lockdown com algumas das restrições mais severas do mundo – uma prévia do que muitos moradores de outras cidades podem encarar nas próximas semanas e meses.

O novo lockdown é produto do sucesso inicial; o país pensou que havia derrotado o vírus em junho.

Mas houve uma falha no programa de quarentena em hotéis. Os viajantes que retornaram ao país transmitiram o vírus aos seguranças dos hotéis de Melbourne, os quais levaram o contágio para casa.

Mesmo depois que as máscaras se tornaram obrigatórias na cidade, há duas semanas, a disseminação continuou. E agora, enquanto as autoridades tentam quebrar a cadeia de infecções, Melbourne está sendo remodelada pela aplicação da lei e pelas letras miúdas. Uma matriz confusa de pesadas multas por desobediência ao lockdown e pequenas exceções para tudo – de parceiros românticos a construção de casas – resultaram em ruas silenciosas e inúmeras versões da pergunta: “Então, espere aí, será que eu posso ____?”.

Os donos de restaurantes estão se perguntando sobre a entrega de comida depois que um toque de recolher às 20h que começou no domingo. Os adolescentes estão perguntando se seus namorados e namoradas contam como parceiros essenciais. Os voluntários do abrigo de animais podem passear com cães à noite? Os empregados domésticos são essenciais para aqueles que lutam contra problemas de saúde mental? As pessoas que foram testadas para covid podem se exercitar ao ar livre?

“Vivemos tempos muito estranhos, assustadores e bizarros”, disse Tessethia Von Tessle Roberts, 25 anos, estudante em Melbourne que admite ter surtado alguns dias atrás, quando sua máquina de lavar quebrou.

“Nossos profissionais de saúde estão trabalhando dia e noite para salvar nossas vidas”, disse ela. “Nossos políticos estão tão assustados quanto nós, mas precisam fingir que têm uma ideia mais clara do que a nossa sobre o que vai acontecer no futuro”.

Os lockdowns pandêmicos nunca foram fáceis e agora estão ficando cada vez mais confusos e controversos diante de uma segunda e terceira ondas de surtos que vêm esgotando tanto as autoridades quanto os cidadãos. Com o sucesso contra o vírus tão fugaz quanto a brisa, as novas séries de restrições parecem um bombardeio que simplesmente não termina.

Para alguns lugares, os cálculos de risco podem mudar da noite para o dia. Em Hong Kong, as autoridades proibiram as refeições em restaurantes no mês passado, mas reverteram a ordem logo no dia seguinte, após protestos. Em algumas cidades, as escolas estão abrindo e fechando feito portas de geladeira no verão.

Em muitas regiões onde o vírus recuou e depois ressurgiu, o caminho para o futuro parece longo e sinuoso. Os governantes estão procurando suas próprias metáforas para tentar explicar a situação.

Na Califórnia, o governador Gavin Newsom comparou a abertura e fechamento do comércio a um “dimmer que regula a intensidade da lâmpada”. Dan Andrews, governador de Victoria, estado cuja capital é Melbourne, várias vezes falou em “chama piloto” para se referir a setores como construção civil e empacotamento de carne, que receberam ordens para reduzir temporariamente sua força de trabalho.

Qualquer que seja a metáfora, a situação é sombria.

Em Melbourne, cidade de 5 milhões de habitantes considerada capital da gastronomia e da cultura, a pandemia voltou mesmo depois que o chamado lockdown da Fase 3 começou no início de julho – até recentemente, o nível de restrições mais alto.

As autoridades ficam desconcertadas diante da persistente complacência das pessoas que permitem que o vírus continue prosperando e se multiplicando.

Os dados de tráfego mostraram mais pessoas andando de carro em julho do que durante o primeiro lockdown da Fase 3, em março e abril. Pior ainda: quase 9 em cada 10 pessoas com covid-19 não fizeram teste nem isolamento quando se sentiram doentes, disse Andrews no final de julho. E 53% não haviam se colocado em quarentena enquanto aguardavam os resultados dos testes.

“Isso significa que as pessoas se sentiram mal, mas seguiram levando vida normal”, disse Andrews.

Soando o alarme, ele impôs o uso obrigatório de máscaras no dia seguinte, 22 de julho.

Ainda assim, as infecções continuaram aumentando. Chegaram a 753 novos casos em 30 de julho e, desde então, giram em torno de 500 por dia, com o número de mortos em Victoria agora totalizando 147, depois de 11 mortes terem sido registradas na segunda-feira.

Esses números, embora muito menos problemáticos que os dos Estados Unidos, abriram o caminho para um lockdown de Fase 4 – que as autoridades estão chamando de ataque de “choque e pavor” ao vírus – o qual se estenderá por pelo menos seis semanas.

Ao que parece, o objetivo é aplicar uma força avassaladora, mas com precisão. Os principais modeladores da resposta à pandemia na Austrália descobriram que o vírus só pode ser suprimido se mais de 70% da população cumprir as diretrizes de distanciamento social e outras regras de saúde pública.

Andrews disse que as novas restrições tirariam mais 250 mil pessoas de suas rotinas, na esperança de atingir o limite necessário.

Então, as lojas de varejo serão fechadas. As escolas retornarão às aulas online. Os restaurantes só poderão oferecer serviços de entrega ou para viagem. As creches estarão disponíveis apenas para determinados trabalhadores.

Essas restrições já estão bem compreendidas. As regras que exigem mais explicações estão ligadas ao toque de recolher e aos setores que precisam reduzir as atividades.

Grandes projetos de construção, com mais de três andares, por exemplo, terão de reduzir sua força de trabalho no local em 75%, e os trabalhadores não poderão trabalhar em mais de um local. As construções de pequena escala não poderão ter mais de cinco trabalhadores.

Na terça-feira, numa entrevista coletiva em Melbourne, Andrews respondeu a perguntas de repórteres sobre passeio com cães (permitido depois do toque de recolher, quer dizer, mais ou menos, só se for perto de casa) e outros assuntos que geraram grande confusão.

Agradecendo aqueles que cumpriram as novas regras e repreendendo os que não cumpriram, ele anunciou que agora ninguém em isolamento poderá se exercitar ao ar livre. Uma campanha de bater de porta em porta para verificar 3 mil pessoas que tinham covid-19 descobriu que 800 delas não estavam em casa.

Todos os 800 foram encaminhados à polícia de Victoria para investigação. A multa para os infratores daqui para frente, disse ele, será de 4.957 dólares australianos (US $ 3.532).

Trabalhar, mesmo legalmente, também ficará mais complicado. Além de funcionários de hospitais com identificação formal, todos os que se deslocam para realizar algum trabalho considerado essencial durante o lockdown devem portar um documento formal – uma permissão de trabalho assinada pelo empregador e pelo empregado.

Para Cara Devine, que trabalha numa loja de vinhos que fecha às 20h, isso significa carregar um formulário do governo consigo para todos os lugares e esperar que a polícia reconheça sua tarefa como essencial quando ela volta para casa após o toque de recolher. Mas ela também se preocupa com os motoristas do Uber que a levam de um lado para o outro.

“Mesmo antes das restrições mais recentes, dois motoristas do Uber chegaram muito atrasados na loja porque foram parados pela polícia, o que custou quase uma hora do seu tempo de trabalho”, disse ela.

A polícia já está enfrentando resistência. Em pelo menos quatro ocasiões na semana passada, policiais relataram que tiveram de quebrar as janelas dos carros e retirar as pessoas depois que elas se recusaram a fornecer seu nome e endereço no posto de controle da polícia. O comissário de polícia de Victoria, Shane Patton, disse que uma mulher de 38 anos também foi acusada de agressão depois de atacar um policial que a deteve por não usar máscara.

Alguns criminologistas estão questionando se a aplicação mais rigorosa da lei terá bons efeitos. Por enquanto, os melburnianos estão tentando aguentar firme. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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