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Como lidar com os 15% que resistem a tomar vacina contra covid?

Há que se pensar em como lidar com esses 15%. O sucesso do plano pode depender deles.

Fernando Reinach, O Estado de S.Paulo

31 de julho de 2021 | 05h00

Muitos países já vacinaram com duas doses mais de 60% de sua população, o que corresponde, em muitos casos, a 85% dos adultos. Esses países estão iniciando a vacinação de adolescentes e logo mais vão vacinar crianças. Assim é de se esperar que nos próximos meses teremos vários países com aproximadamente 85% da população totalmente vacinada. Os 15% restantes são pessoas que resistem à vacinação. O problema é desenhar e implementar estratégias para vacinar esses 15%. As primeiras propostas já estão sendo postas em prática.

Com novas variantes como a Gama, que se espalha facilmente, a expectativa de controlar totalmente o espalhamento do vírus com 70 a 80% da população imunizada foi por água abaixo. Isso seria possível se as novas variantes se comportassem como a original. Infelizmente as novas têm um R0 bem maior e hoje se acredita que a imunidade coletiva só pode ser atingida com 90 a 95% da população imunizada. E isso, com vacinas com eficácia acima de 90%. 

Com as menos eficazes, talvez ela nunca seja atingida. Essa compreensão da realidade tem levado governos a readequar o conjunto de vacinas a utilizar no futuro e a estudarem a possibilidade de aumentar a imunidade geral com doses de reforço. E ainda a iniciarem a vacinação de jovens e crianças. Tudo na esperança de atingir a imunidade coletiva ou chegar próximo dela.

O problema é que na maioria dos países existe uma fração da população que resiste a tomar a vacina. No Reino Unido, nos EUA e em Israel, no grupo de pessoas idosas que correm mais risco de serem internadas e morrer de covid, a porcentagem dos idosos vacinados após meses de insistência continua por volta de 95%. Isso apesar de mais de 90% das internações e mortes nesses países serem de pessoas ainda não vacinadas. Como lidar com essas pessoas?

A primeira medida são as campanhas de esclarecimento sobre a necessidade de se vacinar. Isso lida com os simplesmente desinformados. Essas propagandas incluem depoimentos de pessoas não vacinadas gravados imediatamente antes da intubação (o arrependimento é visível). Essa medida tem sido associada a um aumento na facilidade para que as pessoas se vacinem. Nos EUA, a vacina pode ser obtida nas farmácias: você entra sem marcar hora e sai vacinado em 10 minutos, nenhuma pergunta é feita. Além disso há o problema dos imigrantes ilegais, criminosos e outras pessoas que não querem ser identificadas. Para garantir que eles sejam vacinados foi proibida a presença de agentes governamentais nas imediações dos postos de vacinação. Essas medidas ajudam os relutantes – e muitas vezes são associadas a prêmios em dinheiro para quem se vacinar. Infelizmente essas medidas têm pouca influência nas pessoas que são radicalmente contra vacinas.

Para conseguir vacinar os radicalmente contra, muitos governos estão tomando medidas que tornam a vida dessas pessoas mais difícil. Isso inclui a exigência de atestados de vacina para entrar no trabalho, em restaurantes, ou em ambientes onde existam aglomerações. Como essas medidas são consideradas uma ingerência exagerada do Estado na vida individual, em muitos lugares a pessoa tem uma opção: ou apresenta certificado de vacinação ou um resultado de PCR negativo feito nos dois dias anteriores. O incômodo de repetir o teste a cada dois dias tem levado muitas pessoas a se vacinarem. Nessa linha mais agressiva, estão regras que exigem a vacinação de certos grupos caso desejem continuar no emprego. 

O fato é que é impossível para um governo imobilizar um cidadão à força e vaciná-lo. A necessidade de vacinar os últimos 15% da população tem trazido à tona a questão da liberdade individual frente ao bem comum. No Brasil ainda estamos longe desse ponto. A grande maioria da população não vacinada ainda deseja ser vacinada o mais rápido possível, mas é fato que o número de pessoas que não se apresenta para a segunda dose é crescente. À medida que mais doses sejam disponibilizadas nos próximos meses, seria importante o País começar a pensar em como lidar com os últimos 15%. O sucesso de todo o programa pode depender dessas pessoas.

É BIÓLOGO, PHD EM BIOLOGIA CELULAR E MOLECULAR PELA CORNELL UNIVERSITY E AUTOR DE A CHEGADA DO NOVO CORONAVÍRUS NO BRASIL; FOLHA DE LÓTUS; E A LONGA MARCHA DOS GRILOS CANIBAIS.

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