Lauren DeCicca/The New York Times
Lauren DeCicca/The New York Times

Como o coronavírus está afetando os motoristas na Ásia

Em Taiwan, taxista que costumava transportar pessoas da China morreu de coronavírus; há relatos de motoristas que dizem que ficaram doentes após levar passageiros infectados

Hannah Beech, The New York Times

29 de fevereiro de 2020 | 14h25

BANGKOK - A chinesa chamou o táxi e disse que queria ir ao hospital. O taxista tailandês ficou preso no trânsito, porque é o que costuma acontecer em Bangcoc. Para passar o tempo, a chinesa pegou o telefone e, inclinando-se para a frente, mostrou alguns pontos turísticos que gostaria de visitar.

Aí ela espirrou, e o jato cobriu o rosto do taxista. “Pensei assim: ela é bonita, mas não tem boas maneiras”, disse Thongsuk Thongrat, o taxista.

Uma semana depois, Thongsuk, 50 anos, testou positivo para o coronavírus, que se espalhou pelo mundo a partir da China e infectou pelo menos 41 pessoas na Tailândia.

Seu diagnóstico lança luz sobre os riscos para motoristas e outras pessoas que, com muita frequência, entram em contato com visitantes estrangeiros, no mesmo momento em que a redução nas viagens globais prejudica as economias dependentes do turismo.

Dois outros motoristas foram infectados com o coronavírus na Tailândia, com o caso mais recente confirmado na segunda-feira, 24.

Em Taiwan, um taxista que costumava pegar passageiros da China continental e de Hong Kong morreu por causa do coronavírus no início deste mês.

No Japão, um motorista de ônibus de turismo que transportou visitantes de Wuhan, a cidade chinesa apontada como origem do surto, contraiu o vírus no mês passado. O guia turístico do mesmo ônibus também ficou doente por causa do coronavírus.

Uma taxista japonesa testou positivo depois de, segundo ela, ter entrado em contato com uma pessoa do Diamond Princess, o navio de cruzeiros que atracou no Japão e se tornou foco viral. E a sogra de outro taxista japonês morreu por causa do vírus, a primeira morte registrada no Japão.

Em Cingapura, dois taxistas e dois motoristas de aplicativo também foram infectados.

Thongsuk, que se recuperou totalmente do vírus depois de 14 dias em uma unidade de isolamento de um hospital de Bangcoc, voltou ao trabalho e logo descobriu que já não há muito o que fazer. Cerca de 60% de seus clientes, disse ele, eram visitantes chineses, mas não estão mais chegando por causa do bloqueio na China e das proibições de Pequim às excursões para fora do país.

“A maioria dos chineses era bem legal”, disse ele. “Sinto falta deles”.

Nos dias bons, ele chegava a lucrar cerca de US$ 30, disse Thongsuk. Agora, consegue no máximo US$ 10 por dia.

Muitos dos templos budistas de Bangcoc, até então lotados de turistas, agora estão vazios. Os mercados, que sempre vendiam frutas tropicais e frutos do mar secos a clientes chineses, também estão sofrendo. A ocupação dos hotéis caiu vertiginosamente.

Cerca de 10% do produto interno bruto tailandês deriva do turismo, e os chineses são de longe o maior grupo de visitantes. A Tailândia é um dos poucos países que os turistas chineses podem visitar sem visto. Mais de 1 milhão visitou a Tailândia no mês passado, antes da epidemia se espalhar.

“Não pensei em me proteger quando pegava turistas, porque achei que o governo estava examinando os visitantes antes de eles entrarem no país”, disse Thongsuk.

Thongsuk disse que, assim que ficou doente, fez questão de usar máscara, apesar de não saber se havia sido infectado pelo coronavírus. Em uma cultura em que as refeições são compartilhadas e, às vezes, comidas à mão, Thongsuk passou a comer sozinho, em vez de correr o risco de infectar sua família, disse ele.

Nenhum de seus parentes contraiu o vírus. O ministro da Saúde Pública da Tailândia, Anutin Charnvirakul, que esteve com Thongsuk duas vezes no hospital, elogiou-o por seus hábitos de higiene.

Na quarta-feira, o ministro da Saúde passou uma mensagem mais severa para os tailandeses que estavam se aproveitando dos voos baratos oferecidos por companhias aéreas regionais desesperadas.

Depois de declarar oficialmente o coronavírus uma doença transmissível perigosa, a Tailândia agora está ordenando que as pessoas que visitaram países que considera de alto risco - como China, Japão, Coreia do Sul, Cingapura ou Itália - passem por uma quarentena de 14 dias.

“Mesmo que as passagens estejam mais baratas”, disse Anutin, “pode ser sua última viagem”. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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