Taylor Glascock/The New York Times
Taylor Glascock/The New York Times

Como o coronavírus se compara à gripe?

Esse novo coronavírus realmente é uma ameaça séria? A gripe não mata mais pessoas?

Denise Grady, The New York Times

02 de março de 2020 | 10h00

Enquanto os Estados Unidos registravam sua primeira morte por coronavírus no sábado, 29, e outros casos apareciam em pessoas na Costa Oeste, os americanos se perguntavam como medir essa nova ameaça em comparação com um inimigo mais familiar: a gripe.

O presidente Donald Trump, germofóbico declarado, disse na quarta-feira que ficou surpreso ao saber que dezenas de milhares de americanos morrem de gripe todo ano, contrastando esse número com os 60 e poucos casos registrados de infecção por coronavírus. Na sexta-feira, Trump acusou a mídia e os democratas de exagerarem os perigos do vírus.

“A gripe mata”, disse Mick Mulvaney, chefe de gabinete interino da Casa Branca, na quarta-feira. “Isso não é Ebola. Não é SARS, não é MERS. Não é uma sentença de morte”.

Para muitas autoridades de saúde pública, esse argumento está equivocado.

Sim, a gripe é terrível - é exatamente por isso que os cientistas não querem que outra doença respiratória contagiosa crie raízes na população. Se eles pudessem eliminar a gripe sazonal, eles o fariam. Mas ainda pode haver uma chance de conter o coronavírus.

De muitas maneiras, a gripe é o melhor argumento para atacar o coronavírus com tudo. Aqui está um olhar mais atento sobre suas semelhanças e diferenças.

Qual vírus é mais letal?

O coronavírus parece ser mais mortal que a gripe - até agora.

Em média, as cepas sazonais de gripe matam cerca de 0,1% das pessoas infectadas. A gripe de 1918 teve uma taxa de mortalidade excepcionalmente alta, em torno de 2%. Por ser muito contagiosa, essa gripe matou dezenas de milhões de pessoas.

As primeiras estimativas da taxa de mortalidade do coronavírus em Wuhan, China, o epicentro do surto, giraram em torno de 2%. Mas um novo relatório sobre 1.099 casos de muitas regiões chinesas, publicado sexta-feira no periódico científico The New England Journal of Medicine, aponta para uma taxa mais baixa: 1,4%.

A taxa de mortalidade do coronavírus pode ser ainda mais baixa se - como vários especialistas suspeitam - houver muitos casos leves ou sem sintomas que não foram detectados.

A verdadeira taxa de mortalidade pode vir a ser semelhante à de uma gripe sazonal grave, abaixo de 1%, de acordo com um editorial publicado no periódico pelo Dr. Anthony S. Fauci e pelo Dr. H. Clifford Lane, do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas, e pelo Dr. Robert R. Redfield, diretor dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças.

Mas mesmo uma doença com uma taxa de mortalidade relativamente baixa pode provocar muitas mortes se um grande número de pessoas a contrair. Na sexta-feira (28), havia 83.861 casos de coronavírus e 2.867 mortes. Nesta semana, pela primeira vez, o número de novos casos fora da China excedeu o número dentro do país.

Qual vírus é mais contagioso?

Até agora, o novo coronavírus parece ser mais contagioso do que a maioria das cepas de gripe e quase tão contagioso quanto as cepas que aparecem nas estações de gripe pandêmica.

Cada pessoa com coronavírus parece infectar 2,2 outras pessoas, em média. Mas o número está distorcido pelo fato de que a epidemia não foi bem administrada no início e as infecções dispararam em Wuhan e na província ao redor. À medida que uma epidemia vai ficando sob controle, a taxa de reprodução começa a cair.

Em comparação, o valor da gripe sazonal é de aproximadamente 1,3. A taxa de reprodução da gripe de 1918 era aproximadamente a mesma do novo coronavírus, talvez mais alta, mas isso foi antes dos tratamentos e vacinas modernos estarem disponíveis.

Tanto na gripe quanto na doença causada pelo coronavírus, as pessoas podem ser contagiosas antes que os sintomas se desenvolvam, dificultando ou mesmo impossibilitando o controle da propagação do vírus. Ninguém sabe quantas pessoas infectadas com o coronavírus têm apenas sintomas muito leves ou mesmo nenhum sintoma.

Quem está sob maior risco de infecção?

Tanto o coronavírus quanto a gripe são mais perigosos para as pessoas que têm mais de 65 anos, ou doenças crônicas, ou sistema imunológico frágil.

As taxas de mortalidade entre os homens infectados com o coronavírus na China, particularmente aqueles com mais de 40 anos, excederam as das mulheres, um padrão não observado na gripe sazonal. Não se sabe o motivo da discrepância, embora os homens chineses fumem mais, o que geralmente resulta em comprometimento da função pulmonar.

Parece haver outra diferença importante: a gripe parece muito mais perigosa para as crianças, principalmente as crianças muito pequenas, que podem ficar gravemente doentes. As crianças infectadas com o novo coronavírus tendem a apresentar sintomas leves ou não apresentar nenhum sintoma.

A gripe também é especialmente perigosa para as mulheres grávidas, que podem adoecer gravemente. Não se sabe se o novo coronavírus representa uma ameaça séria para as mulheres grávidas.

Qual vírus deixa você mais doente?

Até 22 de fevereiro havia pelo menos 32 milhões de casos de gripe na atual estação nos Estados Unidos, com 310 mil hospitalizações e 18 mil mortes, segundo o Centros de Controle e Prevenção de Doenças. As taxas de hospitalização entre crianças e jovens estão extraordinariamente altas este ano.

Haveria ainda mais doenças e mortes se não existisse vacina contra a gripe. A maioria das pessoas se recupera em menos de duas semanas e, às vezes, em apenas alguns dias.

Por outro lado, menos de 70 pessoas nos Estados Unidos foram infectadas com o novo coronavírus e houve uma morte. Não existem tratamentos ou vacinas para o coronavírus, apenas cuidados para as pessoas infectadas.

A maioria dos casos de infecção por coronavírus não é grave, mas algumas pessoas ficam bastante doentes. Dados do maior estudo até o momento, realizado na China, sugerem que dos pacientes com coronavírus que receberam atendimento médico, 80% tiveram infecções leves, cerca de 15% sofreram doenças graves e 5% chegaram a estados críticos.

Os primeiros sintomas - febre e tosse - são semelhantes aos da gripe, então é difícil distinguir as doenças sem um teste para identificar o vírus. A pneumonia é comum em pacientes com coronavírus, mesmo naqueles cujos casos não são graves.

Especialistas acham que também pode haver muitas pessoas sem sintomas, ou com sintomas tão leves que não chegam a procurar atendimento médico. Como esses casos não estão sendo contabilizados, por enquanto é impossível conhecer a verdadeira proporção de casos leves e graves.

Quais são os tratamentos disponíveis?

Não há medicamento antiviral aprovado para o coronavírus, embora vários estejam sendo testados. Os médicos podem recomendar apenas os cuidados habituais para qualquer doença viral: descanso, remédios para reduzir a dor e a febre e bastante líquido para evitar a desidratação.

Pacientes de coronavírus com pneumonia também podem precisar de oxigênio e auxílio respiratório.

Para a gripe, no entanto, existem quatro medicamentos prescritos. Todos funcionam melhor quando tomados dentro de um ou dois dias após o início dos sintomas.

Posso tomar vacina?

Uma vacina experimental contra o coronavírus pode estar pronta para ser testada em seres humanos dentro de alguns meses, mas levará muito mais tempo, pelo menos um ano ou dois, para ficar disponível para uso generalizado.

As vacinas contra gripe, por outro lado, estão amplamente disponíveis e de 40% a 60% são eficazes, o que significa que reduzem os casos nessa proporção em uma população que foi vacinada, em comparação com uma que não foi.

A vacina para a atual estação se enquadra nessa faixa, de acordo com o Centros de Controle e Prevenção de Doenças, que afirmou em 21 de fevereiro que as pessoas que não foram vacinadas ainda devem receber a vacina, porque a temporada de gripe está em andamento.

* TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU 

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