Como os hospitais estão reduzindo erros médicos

Países ricos vêm tomando emprestado técnicas de dois setores: de manufatura e aviação

The Economist, O Estado de S.Paulo

03 Julho 2018 | 03h00

Quando sofreu um aneurisma cerebral em 2004, Mary McClinton foi admitida no Virginia Mason Medical Center em Seattle (EUA). Ao ser preparada para ser submetida a um raio X, a mulher, de 69 anos, recebeu uma injeção com um contraste que realça os vasos sanguíneos, mas com clorexidina, um antisséptico. Ambos os líquidos não tinham cor. O líquido do contraste é inofensivo; mas o antisséptico foi letal. Com insuficiência real, um AVC e duas paradas cardíacas, a paciente morreu 19 dias mais tarde.

+ Número de clientes de planos de saúde com mais de 80 anos aumenta 62%

Como resultado, o hospital se comprometeu a melhorar a segurança dos procedimentos. E usou um modelo improvável: as técnicas de manufatura adotadas pela montadora Toyota, seu chamado Toyota Production System (TPS). Quase todas as áreas do hospital, da radiologia ao recrutamento, foram analisadas e padronizadas. Sua equipe de funcionários recebeu treinamento de técnicas de segurança. Hoje a entidade se orgulha dos resultados obtidos na área de segurança e vende seu programa com base no sistema da Toyota para outros hospitais em todo o mundo.

Para melhorar seus hospitais, os países ricos vêm tomando emprestado técnicas de dois setores: de manufatura e aviação. “Lean” (enxugamento) é uma das teorias mais populares na gestão industrial extraída do setor de manufatura. Indica que os hospitais devem estudar o “fluxo” de um paciente internado do mesmo modo que um carro é monitorado na linha de produção. Desse modo, os gargalos e outras deficiências podem ser localizados. 

Além disto, como no caso do Virginia Mason, adotam também uma política da parada de linha (ou stop the line) adotada pela Toyota, ou seja, qualquer membro da equipe é incentivado a parar um procedimento considerado inseguro. E há também o chamado “genchi genbutsu” – vá e veja por você mesmo –, um sistema padronizado para os executivos visitarem as alas dos hospitais e conversarem com os funcionários sobre riscos à segurança.

No tocante à aviação, na década passada o uso de check lists como os usados pelos pilotos se tornou comum. Antes de operar um paciente, cirurgiões, anestesistas e enfermeiros passam por um exercício simples para se certificarem de que estão com o equipamento certo (e o paciente certo), têm conhecimento da cirurgia a ser realizada e conhecem os riscos.

Em 2009, estudo da Organização Mundial da Saúde (OMS) sugeriu que o uso de um simples check list em oito hospitais em cidades de oito países reduziu o número de mortes durante uma cirurgia de 1,5% para 0,8% e o de complicações pós-operatórias, de 11% para 7%. Depois, esses check lists estão onipresentes em hospitais dinamarqueses, franceses, irlandeses, holandeses e britânicos.

Talvez o maior potencial para a redução dos erros médicos esteja na nova tecnologia. Streams, aplicativo desenvolvido pela empresa de inteligência artificial DeepMind, de propriedade da matriz do Google, está sendo testado no Royal Free Hospital em Londres. E vem sendo usado atualmente para alertar médicos e enfermeiros mais rapidamente para ver os pacientes e para o risco de uma cólica renal aguda, potencialmente fatal e detectada com frequência por exames de sangue, mas não no caso de um paciente se sentir indisposto. Em vez de receber uma mensagem pelo seu Pager e depois entrar num computador, os médicos recebem um alerta no aplicativo Streams em seu celular, com todos os dados necessários para tomar uma rápida decisão clínica. 

A tecnologia médica está salvando cada vez mais vidas. Mas os profissionais com frequência têm se mostrado negligentes na implementação dos avanços. Eles precisam também se submeter ao rigor científico e a testes exaustivos que têm servido tão bem a Medicina. É preciso lembrar que, apesar de todos os magníficos avanços na saúde, médicos são meros seres humanos. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

© 2018 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM

Mais conteúdo sobre:
inteligência artificial medicina

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.