FELIPE RAU/ESTADÃO
FELIPE RAU/ESTADÃO

Como reabrir as escolas: o que a ciência e outros países nos ensinam

Preocupação maior no caso da reabertura das escolas é o potencial que existe delas estarem infectadas, muitas sem apresentar sintomas, e depois contagiarem funcionários da escola

Pam Belluck, Apoorva Mandavilli e Benedict Carey, The New York Times

14 de julho de 2020 | 12h54

À medida que as escolas nos Estados Unidos analisam se e como iniciar as aulas presenciais, esta é uma questão complicada diante de incertezas importantes. Nenhum país tentou enviar as crianças de volta para a escola com o novo coronavírus se propagando no nível dos Estados Unidos e a pesquisa científica sobre a transmissão do vírus em salas de aula é limitada.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) concluiu que o vírus se propaga pelo ar em espaços fechados com aglomeração e pouca ventilação, o que se enquadra em muitas escolas americanas. Mas existe uma enorme pressão para a volta às aulas por parte de pais, pediatras, especialistas em desenvolvimento infantil e também do presidente Trump.

“Digo apenas isto: é como se estivéssemos brincando de roleta russa com nossos filhos e nossos professores”, disse Robin Cogan, da Yorkship Schooll em Camden, Nova Jersey, que participa da comissão estadual que estuda a reabertura das escolas.

Dados coletados em todo o mundo mostram claramente que as crianças têm muito menos possibilidade de adoecer gravemente por causa do vírus. Mas há questões importantes a serem resolvidas, incluindo saber com que frequência são infectadas e que papel elas têm na transmissão do vírus. Algumas pesquisas sugerem que crianças mais novas têm uma probabilidade menor de infectar outras pessoas do que os adolescentes, o que tornaria a abertura das escolas primárias menos arriscada do que as secundárias, mas tal evidência não é conclusiva.

A experiência vista no exterior tem mostrado que medidas como distanciamento físico e uso de máscaras nas escolas são importantes. Outra variável significativa é como o vírus se propaga na comunidade em geral, uma vez que isto afetará como muitas pessoas potencialmente o transmitem numa escola.

No caso de muitos distritos escolares, a solução não é o tudo ou nada. Muitos estabelecimentos de ensino, incluindo o maior do país, na cidade de Nova York, estão estudando uma solução híbrida em que as crianças estudariam alguns dias em salas de aula e outros online.

“Você tem de fazer muito mais do que lavar as mãos e dizer faça assim”, afirmou o Dr. Joshua Sharfstein, professor na John Hopkins Bloomberg School of Public Health. “Primeiramente você precisa controlar a propagação na comunidade e então abrir as escolas criteriosamente."

O quebra-cabeças da transmissão

Embora as crianças tenham um risco bem menor de adoecerem gravemente por causa do coronavírus do que os adultos, o risco não é zero. Um pequeno número delas morreu e outras precisaram de terapia intensiva porque tiveram problemas respiratórios ou uma síndrome inflamatória que causaram problemas de coração ou circulatórios.

A preocupação maior no caso da reabertura das escolas é o potencial que existe delas estarem infectadas, muitas sem apresentar sintomas, e depois contagiarem funcionários da escola. Muitas evidências até agora sugerem que mesmo se crianças com menos de 12 anos são infectadas na mesma proporção dos adultos à sua volta, elas têm menos probabilidade de propagar o vírus. A Academia Americana de Pediatria citou alguns desses dados para recomendar que as escolas reabram com precauções de segurança adequadas.

A maior parte das evidências foi coletada em países que já passaram por um lockdown e começaram a implementar outras medidas preventivas. E alguns países testaram sistematicamente as crianças para monitorar o vírus ou anticorpos indicando se elas foram expostas ao vírus.

Especialistas em doenças infecciosas vêm elaborando modelos do impacto das escolas sobre a propagação comunitária desde fevereiro. Em março chegaram à conclusão de que o fechamento das escolas reduziria a progressão das infecções. Mas medidas mais amplas, como o distanciamento social, provaram ter um efeito de contenção bem maior, ofuscando os resultados do fechamento das escolas, segundo análises recentes.

Evidências do exterior

Até agora, países que reabriram as escolas após uma redução dos níveis de infecção - e impuseram regras como distanciamento físico e limites no número de alunos em salas de aula - não viram um aumento de casos de coronavírus.

Noruega e Dinamarca são bons exemplos. Os dois países reabriram suas escolas em abril, cerca de um mês depois de serem fechadas, mas inicialmente as abriram apenas para as crianças menores. As escolas secundárias continuaram fechadas. Reforçaram as medidas de desinfecção e mantiveram um número limitado de alunos em salas de aula, com espaço entre as mesas. Nenhum dos países observou um aumento significativo de casos.

Não há estudos científicos rigorosos sobre o potencial de contágio nas escolas, mas alguns estudos de casos isolados, a maior parte deles não revisados por pares, reforçam a noção que não é inevitavelmente um alto risco.

Em uma comunidade no norte da França, Crépy-em-Valois, dois professores de uma escola secundária foram infectados com a covid-19 no início de fevereiro, antes de as escolas fecharem. Cientistas do Instituto Pasteur testaram depois os anticorpos dos alunos e dos outros professores. E observaram anticorpos em 38% dos alunos e 43% dos professores e em 59% dos demais funcionários, disse o Dr. Arnaud Fontanet, epidemiologista do instituto que conduziu o estudo e é membro da comissão que assessora o governo francês. “Vimos claramente que o vírus circulou na escola”, disse ele.

Posteriormente a equipe testou alunos e professores e funcionários de seis escolas elementares na comunidade. O fechamento de escolas em meados de fevereiro ofereceu uma oportunidade para ver se as crianças mais novas foram infectadas quando ainda frequentavam as escolas, momento em que o vírus atingiu alunos das escolas secundárias.

Os pesquisadores encontraram anticorpos em apenas 9% das crianças das escolas elementares, 7% dos professores e 4% dos demais funcionários. Identificaram três alunos em três escolas diferentes que frequentaram as aulas com sintomas agudos de coronavírus antes do fechamento das escolas. Nenhum teria infectado outras crianças ou professores, disse Fontanet. Dois deles tinham irmãos na escola secundária e um terceiro tinha uma irmã que trabalhava na escola, disse ele.

O que as escolas podem fazer

Testes para detectar infecções são essenciais, afirmam especialistas. O Centro de Prevenção e Controle de Doenças (CDC) recomenda testes de alunos ou professores baseados somente em sintomas ou exposição ao vírus. Mas esses testes não detectarão todos os que estiverem infectados.

“Sabemos que a propagação pelos assintomáticos ou pré-sintomáticos é real e que as crianças têm menos probabilidade a mostrar sintomas do que os adultos”, disse a Dra. Megan Ranney, médica especialista em saúde dos adolescentes na Brown University. As escolas deveriam testar aleatoriamente alunos e professores, disse ela, mas isso é impossível devido à falta de financiamento e testes limitados até mesmo em hospitais.

O CDC delineou as medidas que as escolas devem adotar para minimizar os riscos para os alunos, incluindo o distanciamento de dois metros, lavar as mãos e usar máscaras.

 

“As diretrizes já são excepcionalmente frágeis”, afirmou Carl Bergstrom, especialista em doenças infecciosas na Universidade de Washington. Ele e outros disseram temer que as recomendações sejam atenuadas ainda mais em resposta à pressão política.

A Dra. Kathryn Edwards, especialista em doenças infecciosas e professora de pediatria na Vanderbilt University School of Medicine, vem assessorando as escolas de Nashville, Tennessee, quanto às medidas para reabrirem. Ela disse que Nashville ainda avalia a distância entre as mesas. “Algumas pessoas dizem que basta apenas um metro de distância, outros falam em dois e outras ainda se perguntam se, com a distância da propagação de gotículas, é preciso uma distância ainda maior".

Edwards disse estar frustrada com a decisão de Nashville, anunciada na quinta-feira, de instituir aulas online no primeiro mês de aulas e até, pelo menos, o início de setembro.

Manter as escolas fechadas por um período prolongado tem implicações preocupantes para o desenvolvimento acadêmico e social e o desenvolvimento infantil, afirmam especialistas. E também é evidente que privar as crianças de um dia de escola real aprofunda as desigualdades econômicas e raciais.

“Há um dano real para as crianças se não forem para a escola. Acho que temos de pensar nas crianças e fazer com que retornem à escola com segurança”, disse a médica. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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