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Como saber sobre proteção

Cientistas descobriram um teste capaz de prever o nível de proteção de uma pessoa

Fernando Reinach*, O Estado de S.Paulo

22 de maio de 2021 | 05h00

Quem toma a vacina contra a covid-19 logo se pergunta: será que estou protegido? Até agora a resposta era sempre a mesma: depende da eficácia da vacina que você tomou. Se tomou a Coronavac deve estar parcialmente protegido, pois a eficácia da vacina é 50%. Se tomou AstraZeneca, provavelmente está mais protegido, pois a eficácia está por volta dos 70%. E se tomou a vacina da Pfizer provavelmente está bem protegido, pois a eficácia é de 95%. Mas, como existe muita variabilidade entre pessoas, e esses números representam uma média, era difícil medir o nível de proteção de um indivíduo.

Os cientistas que desenvolvem vacinas enfrentam o mesmo problema. Para cada nova vacina ou variante eles precisam saber se a população vacinada está ou não protegida. Para descobrir, são obrigados a fazer um experimento em que milhares de pessoas são divididas em dois grupos: um recebe a vacina e outro um placebo. Depois é esperar para ver se o grupo de vacinados tem menos casos de covid-19 que o grupo que recebeu o placebo.

São os famosos testes de Fase 3. É a partir deles que os cientistas medem a eficácia das vacinas. Mas esse é um experimento que demora meses, é complexo, e tem de ser repetido para cada vacina sempre que surge nova variante do vírus. Para os cientistas seria ótimo se existisse um teste que pudesse ser feito nas pessoas vacinadas e pudesse prever, mesmo de forma imprecisa, a eficácia em diferentes situações.

Pois bem, agora os cientistas descobriram um teste de laboratório que é capaz de prever o nível de proteção de uma pessoa (o que resolve o problema dos vacinados) e, se feito em um grupo de imunizados, é capaz de prever a eficácia da vacina que foi aplicada nessas pessoas (o que resolve o problema dos cientistas). Mas a notícia é ainda melhor: esse teste já vem sendo comercializado por laboratórios de análises clínicas faz alguns meses.

O teste consiste em medir a quantidade de anticorpos neutralizantes no sangue (os anticorpos capazes de impedir a entrada do vírus na célula). Mas por que ainda não sabíamos que esses testes poderiam nos dar essa informação?

O que os cientistas descobriram é que o resultado desses testes depende muito do método e do referencial usados para calcular a quantidade de anticorpos. Ou seja, cada laboratório expressa a quantidade de anticorpos neutralizantes de uma maneira diferente, o que dificulta a comparação entre resultados. Então se perguntaram: e se usarmos o mesmo padrão para calibrar todos os testes, o que acontece?

Para responder a essa pergunta, os cientistas reanalisaram os trabalhos que mediram a eficácia das vacinas e a quantidade de anticorpos neutralizantes presentes nos vacinados. Mas agora eles consideraram como padrão a quantidade de anticorpos neutralizantes presente no sangue de pessoas que haviam sido infectadas pelo SARS-CoV-2 e haviam se curado. Fazendo isso, descobriram que as pessoas vacinadas com o produto da Pfizer possuem uma quantidade de anticorpos neutralizantes duas vezes e meia maior do que a presente nas pessoas infectadas naturalmente; os vacinados com AstraZeneca metade da quantidade presente nos infectados naturalmente, e os vacinados com a Coronavac menos de um quinto da quantidade.

Feito isso, fizeram um gráfico onde na horizontal colocaram a quantidade de anticorpos neutralizantes induzidos por cada uma das vacinas e no eixo vertical a eficácia medida nos estudos de Fase 3 da vacina. O resultado é uma curva que relaciona a quantidade de anticorpos neutralizantes com a eficácia da vacina. E foi assim que descobriram que existia uma relação direta entre esses dois números. Ou seja, se medirmos a eficácia da vacina é possível prever a quantidade de anticorpos neutralizantes. E se medirmos a quantidade de anticorpos neutralizantes é possível prever a eficácia da vacina.

Esse tipo de relação entre uma medida da resposta imune e a eficácia de uma vacina já havia sido demonstrada para as vacinas contra a gripe. Agora temos esse tipo de medida para as vacinas contra covid-19. Mas é bom lembrar que, apesar da quantidade de anticorpos neutralizantes ser capaz de prever a eficácia da vacina, esses anticorpos não são os únicos componentes da imunidade uma vez que parte da resposta reside nas células do sistema imune.

Os cientistas acreditam que essa correlação deve ficar mais robusta à medida que os laboratórios padronizem a maneira de medir a quantidade de anticorpos neutralizantes. Como esses testes podem ser feitos com as diferentes variantes do vírus, e com o soro de pessoas vacinadas com diferentes vacinas, tudo indica que logo mais teremos um meio rápido e relativamente preciso de saber que vacina protege contra qual variante e com que eficácia. Além disso poderemos saber o nível de proteção que cada um de nós possuí contra cada variante. Esse tipo de medida vai facilitar a análise das características das vacinas e a imunidade das pessoas vacinadas, ajudando a controlar a pandemia. É um belo trabalho que vale a pena ser lido.

Mais informçaões: Neutralizing antibody levels are highly predictive of immune protection from symptomatic SARS-CoV-2 infection

*É BIÓLOGO, PHD EM BIOLOGIA CELULAR E MOLECULAR PELA CORNELL UNIVERSITY E AUTOR DE A CHEGADA DO NOVO CORONAVÍRUS NO BRASIL; FOLHA DE LÓTUS, ESCORREGADOR DE MOSQUITO; E A LONGA MARCHA DOS GRILOS CANIBAIS

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