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Como será o futuro do Brasil na pós-pandemia?

Muitos morreram, mas aprendemos novas práticas que vão ficar: como atender pacientes graves em UTI, reaprender a utilizar alguns medicamentos, utilizar máscaras, fazer a correta higiene das mãos

Gonzalo Vecina Neto*, O Estado de S.Paulo

15 de setembro de 2020 | 12h03

Depende do ângulo, a resposta é rápida. Econômico, social, político, sanitário? Acho que, independentemente do ângulo, a questão da saúde é um balizador de todos os outros. Durante esta pandemia, o SUS mostrou a que veio – conseguiu garantir uma travessia com uma redução razoável de perdas.

Muitos morreram, mas aprendemos novas práticas que vão ficar: como atender pacientes graves em UTI, reaprender a utilizar alguns medicamentos, utilizar máscaras, fazer a correta higiene das mãos. Expandimos o número de leitos de UTI e conseguimos reduzir um déficit crônico desse tipo de recurso que ainda não foi coberto apesar da melhora.

Mas este é o momento que o Congresso começa a discutir o orçamento do ano que vem. Um ano complexo do ponto de vista da crise econômica e quando ainda se viverá a crise sanitária. As vacinas estão sendo estudadas – a Oxford/AstraZeneca retomou depois de uma semana de paralisação seus estudos de fase 3, e todas as demais continuam suas investigações. Provavelmente teremos alguma vacina. Com muitas questões em aberto: quem serão os primeiros a recebê-la, quanto tempo durará o efeito protetor, quando toda a população do País estará protegida, será possível ter um segundo episódio da doença, teremos segunda onda, o vírus sofrerá mutação?

Além das questões, existe a agenda assistencial em aberto do que não foi realizado em 2020 – as doenças crônicas não atendidas, os cânceres não diagnosticados ou que não tiveram seus tratamentos iniciados. Enfim, tudo que se suspendeu para acertadamente impedir que a rede hospitalar entrasse em colapso. Exageramos na dose, não precisava ter parado a atenção primária, a atenção ambulatorial, os exames diagnósticos, etc.

É tempo de aprender para não repetir velhos erros, mas sobretudo é tempo de buscar preservar os imensos avanços realizados até aqui, como o número de leitos de UTI que devem continuar sendo financiados pelo Ministério da Saúde (MS). Aliás, essa questão ressurge sempre. Para que serve o MS? Ele tem a responsabilidade de criar as políticas que induzem as ações e é responsável por 50% do financiamento do SUS, portanto é fundamental. Outros avanços estão na descoberta e no uso da telemedicina, que terá de ser expandida, na importância e na necessidade de ampliação da atenção primária, e na criação de interfaces com a rede privada, com a melhoria da eficiência dos serviços públicos.

Essa é uma discussão que os profissionais da saúde sempre realizaram – a sociedade não descobriu o serviço de saúde, não conhece sua importância. Apesar da situação também sofrível da educação, esta já é reconhecida como um serviço essencial e que deve ser entregue pelo Estado. Mas a saúde não é vista assim. Veja a recente ameaça do governo em extinguir o Aqui Tem Farmácia Popular, que atinge 23 milhões de brasileiros e reduziu a mortalidade por hipertensão e diabetes no País. Ela quase não foi discutida e deveria, por sua importância sanitária ter virado uma manifestação semelhante às de 2013 contra o aumento da tarifa de ônibus.

Como despertar na sociedade a noção da importância de um sistema de saúde universal, de um sistema de saúde integral que faz a prevenção e a cura de doenças e que constrói pontes para a igualdade social?

No entanto, a nação tem de estar atenta agora – é hora de todos levantarmos a bandeira do SUS, pois sem SUS é a barbárie. Portanto, neste momento, é hora de criar um movimento nacional para entregar à sociedade brasileira um sistema de saúde melhor e que entregue um futuro melhor para os brasileiros.

Vamos nos unir e construir esse futuro juntos!

*É Fundador e ex-presidente da Anvisa, ex-secretário municipal da Saúde de São Paulo e professor do mestrado profissional da EAESP/FGV e da FSP/USP

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