Al Elmes/ Unsplash
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Competência em relacionamento

Existem regras e códigos não ditos que regulam relações entre as pessoas e o mundo que são descobertas com o diagnóstico

Renata Simões, O Estado de S.Paulo

09 de julho de 2022 | 05h00

Ouvir da minha irmã que, “de 80, diminuiu para 50 o número de pessoas confirmadas” relaxou meus ombros, um pequeno alívio no pânico que antecede as reuniões da família do meu pai. A gentarada não é novidade; no último Dia dos Pais, a versão reduzida da celebração contava com 22 pessoas. É que festas misturam terror, e terror, e terror, e alegria. No fim de semana passado, celebramos juntos (quase) todos os descendentes do meu bisavô, minha avó, a única filha viva, aos 104 anos. Se você, leitor, compartilha do temor da reunião familiar, ponha a camada extra de Espectro nesse sundae, e está pronta a lambança.

“Até que hoje durou, você sempre é a primeira a ir dormir”, falou uma das primas que, junto com minha irmã e outra, fazem o trio infinito. Durante um tempo, sofri pela vontade de aguentar como elas. Não dava conta da sobrecarga de estímulos, do cansaço mental dos dribles de conversas com perguntas sem sentido e do uso do álcool para diluir a tensão e fingir naturalidade. O tempo e a convivência ensinaram a sobreviver no ambiente de afeto e desespero, barulho e liberdade. Festas são espaços que misturam prazer e conflito. Muitas vezes você volta para casa com a certeza de que fez algo errado.

No nível 1 e 2 de suporte do TEA, discute-se se é possível aprender e desenvolver as ditas habilidades sociais. Se o certo é jogar a criança na arena e lá ela se vira, se o que se deve é permitir o total recolhimento até que ela se sinta pronta mesmo que isso jamais aconteça. Da minha vivência percebo ser possível desenvolver algumas habilidades, e que isso poderia ter sido menos doloroso. A eterna sensação de que “havia algo que todo mundo sabia menos eu” só foi aplacada quando descobri que existiam “regras e códigos não ditos que regulam relações entre as pessoas e o mundo, as habilidades sociais”.

Habilidades ou competências sociais são normas, costumes e habilitações que guiam as interações com outras pessoas e o mundo a nossa volta. Neurotípicos as aprendem de maneira fácil e natural, como desenvolvem as habilidades linguísticas, criando um “mapa mental” de como agir em situações sociais. Pessoas no espectro apresentam dificuldade nesse desenvolvimento, tendo que deduzir ou adivinhar como esse mapa deve se parecer.

Em 2018, a Universidade da Califórnia, Los Angeles desenvolveu, a partir de resultados de pesquisas feitas na própria UCLA, um “programa para educação e enriquecimento das competências de relações”, voltado para autistas jovens adultos, entre 18 e 25 anos. Com 16 semanas de duração, o programa inclui pais e mães no treinamento dos filhos e hoje se estende a adolescentes e crianças, todos são TEA sem problemas de cognição ou graves complicações nas situações sociais.

As aulas são em grupo e focadas em habilidades de conversa (foco e timing), identificação de marcadores de amizade, uso apropriado do humor e de comunicadores digitais, lidando com a rejeição e conflito com pares, além de “como agir em situação de flerte e encontro”. O desenvolvimento dessas competências cotidianas que envolvem cognição e linguagem, em pessoas autistas, necessita de instruções diretas e explícitas, práticas encenando situações reais, e a integração entre comunicação e parte sensorial.

Penso se é o caso de eu pedir para frequentar o módulo “uso de humor e comunicadores”. A forma como o conteúdo é transmitido se adequa ao público, o que ajuda a pessoa a saber o que esperar e o que é esperado dele em diferentes situações nesses eventos, tentando criar uma previsibilidade no lidar com a vida social cotidiana. De acordo com um estudo publicado no Journal of Autism and Developmental Disorders, esse tipo de programa traz benefícios duradouros que incluem um crescimento constante em conexões sociais.

Passou muito tempo entre “um etzinho passando de um lado para o outro da festa”, como me descreveu uma amiga numa festa, e este ano, quando percebi que sobreviver a reunião da família foi estranhamente mais fácil do que nas edições anteriores. O diagnóstico em idade adulta me impediu de questionar, como faz a turma sub 25 anos hoje, se há necessidade de estar lá, e de se acostumar a algo que não é da sua natureza. Da minha parte, fico feliz que sou capaz de chegar ao sítio, descer na cachoeira e tomar um banho gelado antes de falar com qualquer pessoa, e voltar tranquila para encarar a horda, sem me preocupar se isso é o correto a fazer.

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