Governo SP
Primeiro hospital de campanha na periferia atendeu 270 pacientes desde abertura. Governo SP

Compra de insumos é desafio em Heliópolis

Aberto há 3 semanas, hospital de campanha está com 22 dos 24 leitos de UTI ocupados

João Prata, O Estado de S.Paulo

14 de junho de 2020 | 05h00

Enquanto a cidade de São Paulo começa a colocar em prática o plano de reabertura econômica, o hospital de campanha de Heliópolis, na zona sul, vê crescer dia após dia o número de pacientes internados e enfrenta, assim como outras unidades de saúde pelo Brasil, dificuldades para comprar insumos. O cenário foi traçado pelo médico Paulo Quintaes, superintendente do Serviço Social da Construção Civil (Seconci-SP), a organização social que faz a gestão do Heliópolis.

“Nos próximos 30 dias, vamos chegar certamente a um índice de 90% de ocupação, se não a totalidade. Estamos no pico da doença e vivemos uma abertura. As pessoas não aguentam mais ficar em casa, mas não é porque o comércio está aberto que você vai sair para fazer compras”, afirmou ao Estadão

O hospital de Heliópolis – o primeiro de campanha montado dentro de uma unidade de saúde – começou a funcionar há três semanas. Para isso, o centro cirúrgico foi adaptado para a construção de uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI) completa, com 24 leitos – 22 deles ocupados atualmente.

Uma tenda de atendimento foi erguida no estacionamento. Dos 176 leitos de enfermaria, 130 estão ocupados. Mais de 270 pacientes já foram atendidos desde a abertura, de acordo com Quintaes. E a ocupação cresce diariamente. Segundo o médico, leitos de enfermaria poderão ser transformados em de UTI, se houve necessidade.

Ele chama a atenção para a dificuldade em relação ao abastecimento de insumos.

“Não é algo nosso, mas de todos os hospitais. No começo eram os EPIs (equipamentos de proteção individual), o que já se resolveu. Antes pagávamos R$ 0,10 por máscara, ela chegou a custar R$ 3,40 e agora o preço está baixando. Estamos no momento com problema para comprar medicamento para sedar o paciente (para o processo de entubação). E esses sedativos estão em falta no Brasil inteiro. Os fabricantes não conseguem suprir a necessidade”, disse o superintendente.

Segundo o médico, foram investidos R$ 30 milhões para custear o hospital, valor que envolve manutenção do serviço, contratação dos profissionais, equipamentos, insumos. Outros R$ 927 mil foram investidos para aquisição de equipamentos de ventilação, biombo, separadores e mesas de alimentação.

Distanciamento

Quintaes conta que é difícil para os moradores de Heliópolis fazerem o distanciamento social, por causa da precária situação de habitação. “Infelizmente na comunidade o distanciamento social é muito difícil. O número de pessoas que coabitam o mesmo endereço é muito grande. As residências têm dois, três cômodos, e de 10 a 15 pessoas. Além disso, o comércio na comunidade está funcionando, assim como os bailes funks, e isso afeta a população.”

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'Isolamento social na favela é piada'

Em Heliópolis, a Central Única das Favelas (Cufa) se uniu a nomes do samba, rap e funk para ampliar o alcance das informações sobre a covid-19

João Prata, O Estado de S.Paulo

14 de junho de 2020 | 09h51

"Isolamento social na favela soa como piada. São 200 mil habitantes que vivem juntos. São dez casas amontoadas em uma mesma viela, uma em cima da outra. Tem cubículo de três, quatro metros que vivem seis, sete pessoas. Vai isolar como?". O questionamento é feito por Marcivan Barreto, morador de Heliópolis há mais de 30 anos e presidente da Central Única das Favelas (Cufa) do Estado de São Paulo.

A família de Marcivan foi uma das primeiras a chegar no que é hoje a maior favela da capital paulista. No final da década de 1970, o pai e a mãe fugiram da seca do sertão nordestino e desceram para o sudeste buscar o sustento dos nove filhos. O líder comunitário viu o local se tornar uma cidade nas últimas décadas e agora luta para manter a população viva.

Do início da pandemia do novo coronavírus até agora, ele ajudou a distribuir cesta básica e kits de higiene para mais de 4.500 famílias da comunidade onde vive. A maior parte das entregas é feita pessoalmente para evitar que as pessoas saiam de casa. E chegar até a porta de cada um não é tarefa fácil. A viela estreita, as escadas construídas no improviso, os puxadinhos uns sobre os outros tornam a tarefa de Marcivan ainda mais complicada.

"Tenho trabalhado de domingo a domingo sem parar. Perdi peso nesses últimos meses", contou Marcivan que coordena o trabalho social em 250 favelas na região metropolitana de São Paulo. Para receber as doações, a família precisa estar no banco de dados da Cufa - o cadastro é feito pelo telefone e pelo site da organização. A preocupação principal está em ajudar quem precisa e fazer a informação correta chegar na população local.  

Por isso, todos que trabalham na entrega das doações passaram por um curso com enfermeiros para aprender a usar os equipamentos de proteção e também a manusear alimentos, higienizar. No dia em que doaram cerca de mil botijões na comunidade, dividiram a entrega em dois períodos em um campo de futebol, com demarcação para que as pessoas respeitassem o distanciamento.

Para Marcivan é impensável cogitar flexibilizar a quarentena neste momento. "O governo em São Paulo está falando em reabertura. É absurdo. O Estado não chega aqui na favela para ver. A única ação do Estado aqui é coercitiva, com a polícia. Converso com diferentes lideranças. Estão todos preocupados. O governo fala em reabertura e as pessoas aqui acham que está tudo bem. Nosso papel é conscientizar as famílias para a gravidade do problema que estamos enfrentando."

Samba, rap e funk

Uma das iniciativas de Marcivan foi convocar artistas populares do samba, rap e funk e pedir para que enviassem áudios alertando para o problema do novo coronavírus. Ele está terminando a edição das vinhetas com cantores como Dodô, do grupo Pixote, Ndee Naldinho e Mc Kevin. A intenção é na próxima semana sair com carro de som pela comunidade. "São 65 mil famílias que vivem aqui. A epidemia chegou agora na favela. Na região do Ipiranga houve 110 óbitos, 60 só em Heliópolis. É preocupante."

A população em Heliópolis, segundo Marcivan, ainda não está levando a doença a sério. Os mais jovens continuam saindo à noite e organizando festas nas ruas, o chamado Fluxo. "Tem muita gente levando na brincadeira. As pessoas aqui só acordam quando morre parente."

Assim como qualquer pessoa informada sobre o vírus, Marcivan tem medo. Ele vive em Heliópolis com a esposa e duas das três filhas - a mais velha mora sozinha. Durante a conversa, se emocionou ao comentar o quanto é duro rejeitar o pedido diário da caçula de ficar em casa. Para quem viu Heliópolis nascer da ajuda comunitária, de um desconhecido ajudar o outro a construir sua moradia por se ver na mesma situação, a saída para se livrar do vírus vai ser a mesma de sempre.

"Vai ser com união. Assim como meu pai, muitos vieram do nordeste em busca de uma vida melhor aqui. Heliópolis é sinônimo de resistência. Da cavalaria derrubar o barroco do Seu João num dia e no dia seguinte a Dona Maria que morava lá longe vir para ajudar a construir. E é assim que vamos nos livrar dessa epidemia, com um ajudando o outro a se manter vivo."

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'Pensei que tinha ido lá para morrer'

Guarda civil, Cesar Russomano conta como foi sua experiência no hospital de campanha de Heliópolis

João Prata, O Estado de S.Paulo

14 de junho de 2020 | 10h00

O guarda civil Cesar Russomano, 46 anos, pensou que fosse morrer quando o médico o encaminhou para o hospital de campanha de Heliópolis. Para quem levava uma vida saudável e nunca precisou enfrentar problemas de saúde até então, ser internado, necessitar de uma máscara para respirar era um caminho sem volta.

"Procurava não pensar na minha esposa e nas minhas duas filhas porque só chorava. Tentei focar na minha recuperação, porque pensei que fui para lá para morrer", conta. Foram 13 dias de internação até seu pulmão retomar as funções sem precisar do auxílio do respirador.

Nesse período, ele procurava observar os outros pacientes para tentar entender um pouco mais as reações da doença. Mas era difícil porque notou que cada pessoa reagia de uma maneira. Em frente ao seu leito, por exemplo, ele viu um homem de meia idade chegar aparentemente sem nenhum problema, sem nem precisar de máscara no primeiro dia. "De repente, ele piorou e precisou da UTI. Veio outro paciente para aquele leito e também foi encaminhado para a UTI."

Com Cesar foi o contrário. Ele chegou com falta de ar e com o passar dos dias melhorou. Mas a sensação de que não iria morrer demorou. "Vivemos altos e baixos lá. Porque quando você parece que está melhorando, diminuem a oxigenação e você piora. Aí volta tudo de novo."

Cada passo foi dado lentamente até há quatro dias Cesar recebeu a notícia de alta. "Queria tornar público e agradecer ao atendimento de todos que me ajudaram nesse período. O trabalho deles foi maravilhoso. A paciência me chamou a atenção. Tinha paciente que era terrível, que queria fugir do hospital e eles tinham paciência com todo mundo."

Cesar pediu uma semana de folga no trabalho para retomar a vida, pagar as contas e recuperar as aulas perdidas no curso de graduação em história. "Espero colocar a vida ao normal na segunda-feira. Espero também daqui para frente me preocupar menos com coisas pequenas, me estressar menos no trânsito, por exemplo."

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