Alex Silva/Estadão
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Conheça a rotina de quem está no grupo de risco e teve de se isolar

São pessoas mais suscetíveis aos efeitos do coronavírus, que precisam redobrar a atenção durante a quarentena

João Prata, O Estado de S.Paulo

02 de abril de 2020 | 15h00

A Organização Mundial da Saúde e o Ministério da Saúde apontaram no início da pandemia que há pessoas mais suscetíveis aos efeitos da covid-19. Idosos, diabéticos, hipertensos, quem tem insuficiência renal crônica, doença respiratória crônica ou doença cardiovascular precisam redobrar a atenção durante a quarentena pois correm risco de vida.

Estado conversou com cinco pessoas consideradas grupos de risco, de diferentes faixas etárias, para mostrar a rotina durante o isolamento social, as privações e quais cuidados estão tomando. Ficar em casa contribui para diminuir a proliferação do vírus, por consequência, o número de internações e o número de mortes. Com todos em casa, fica menos angustiante a vida de quem sabe que o contágio pelo novo coronavírus não será só uma simples gripe.

GILBERTO, 42 ANOS

Há duas semanas, o dentista Gilberto Casanova deixou a esposa e mudou-se com o filho de sete anos para a casa da mãe. Não houve briga, discussão, nada. O casamento continua, a vida conjugal só precisou ser alterada por causa da pandemia do novo coronavírus. Gilberto é diabético e sua mulher, Gabriela Ferreira, trabalha como dentista no SUS.

A diabetes deixa o sistema imunológico mais fraco e, ao longo do tempo, pode dar complicações no coração, rins e também à perda de sensibilidade nas extremidades do corpo. Gilberto já teve de colocar três stents para desobstrução de artérias  e um balão, quando há entupimento quase completo das veias. Ele também tem problema circulatório. "Se pegar o coronavírus, a chance de ter um desfecho pior é muito alta", contou.

Por isso a opção pelo isolamento na casa da mãe. Gilberto atendia pacientes em consultório particular e está sem trabalhar. Ele também preside a Associação de Diabetes Juvenil (ADJ) e sabe a importância de permanecer isolado. Isso não significa que ele permaneça o tempo inteiro em casa.

No período de quarentena, criou um hábito. Todo dia, por volta das 21h, ele e o filho vão de carro encontrar com a esposa. Um encontro a distância. Os dois ficam na janela do carro e ela aparece na janela do terceiro andar do prédio onde moram, em Perdizes, em São Paulo. "Esperamos ela chegar em casa, colocar a roupa para lavar, tomar um banho e comer alguma coisa. Aí vamos. É um jeito de matar um pouco a saudade". O filho já entende um pouco a importância do isolamento. "Como profissional de saúde minha recomendação é não sair de casa", disse Gilberto.

MARIA ADÉLIA, 72 ANOS

Maria Adélia, 72 anos, está impaciente na quarentena. Ela vive com uma das três filhas e o genro. "Levo bronca o tempo inteiro. Falo que vou sair e vem a bronca. Estou ficando louca", conta dando risada. Aposentada, tinha como passatempo dar uma volta pelo bairro Mandaqui, visitar a irmã, e brincar com a neta de dois anos que é de uma filha que não mora com ela. Foi proibida de tudo isso.

A neta aparece de vez em quando no portão da casa, mas ficam distantes uma da outra. Maria Adélia faz tratamento no Incor e por causa da pandemia tem recebido atendimento em casa. "Não tenho mais assistido ao noticiário. Fico nervosa, minha pressão começa a oscilar. Muito triste acompanhar tudo isso", comenta.  

Ela não desanima. Na rotina atual, ela tem pedalado na bicicleta ergométrica e também auxiliado nos afazeres domésticos. "Quando você me ligou a primeira vez não atendi porque estava no fundo da casa estendendo roupa. Não estava na rua não, viu?"

A pressão em cima da filha e do genro para sair de casa surtiu ao menos um efeito. Ela convenceu os dois a trazer a irmã, Conceição, para passar a quarentena ao seu lado. "Vai ser bom, vou ter alguém para conversar. Ela é solteira, tem diabetes, também está dentro do grupo de risco. Não pode sair de casa. Então ficamos nós duas aqui."

CAUANI, 8 ANOS

Cirlene Fagundes Batista, 41 anos, e a filha Cauani dos Santos, de 8 anos, estão presas em São Paulo por causa da pandemia do novo coronavírus. Elas vivem em Salvador e precisam vir à capital paulista a cada seis meses para que Cauani faça exames no Incor. A pandemia aconteceu justamente nesse período e as duas foram aconselhadas a não pegar o avião e voltar para casa.

A menina nasceu com problema cardíaco e no primeiro mês de vida passou por cirurgia para corrigir a interrupção do arco aórtico. Perto de completar um ano, a garota teve um pseudoaneurisma. A força da aorta era muito grande na artéria e Cauani precisou fazer uma traqueostomia - como consequência tem atraso motor e psicológico. Cauani é cadeirante e ainda possui um furinho na região da garganta. Sua imunidade é baixa.

Cirlene e Cauani estão passando a quarentena na Sede da Associação de Assistência à Criança e ao Adolescente Cardíacos (ACTC - Casa do Coração). O local proporciona hospedagem, alimentação, apoio social, psicológico e pedagógico para quem não tem condições de arcar com as despesas em São Paulo durante tratamento no Incor.

 

As duas dividem uma casa com nove quartos com outras duas famílias, também apenas mães e filhas. "Como é um local amplo, cada um tem seu quarto. Também há bastante ventilação, álcool em gel nos cômodos. Estamos sem contato com as pessoas de fora. Quando precisamos de algo, ligamos e alguém vem entregar", explica Cirlene.

A passagem de volta para Salvador ainda não foi comprada. "A gente fica preocupada de estar longe de casa, mas estamos consciente da importância do isolamento. Vejo as notícias na TV. O nosso presidente que parece estar perdendo um pouco a noção. Mas a gente fica em casa", conta Cirlene. A insuficiência cardíaca de Cauani não tem cura. Os exames servem para monitoramento e auxílio com remédios paliativos. "Para o que ela enfrentou, é muito ativa. Ela consegue conversar, entende o que você fala. Consegue viver bem."

SAULO, 16 ANOS

O estudante Saulo Gian Ferreira, de 16 anos, é de Arapongas, no Paraná, e desde novembro precisou se mudar para São Paulo, pois está na fila de um transplante de coração. O Incor recomenda que a pessoa que vai passar por essa cirurgia fique a pelo menos duas horas de distância do hospital.

A mãe, Ana Lúcia Conceição, está com o filho e pediu aos médicos para não saber em que lugar Saulo está nessa fila. "Acho que me deixaria ainda mais nervosa. Eles podem ligar a qualquer momento e temos de correr para o hospital."

Ana Lúcia perdeu uma filha quando ela tinha 3 anos e 11 meses por causa do mesmo problema cardíaco, chamado de miocardiopatia dilatada não compactada. É uma alteração no coração. As paredes ficam mais esponjosas, dilatadas e diminui a força, o músculo vai parando de bater. O Saulo apresentou o problema quando tinha dez anos, após o falecimento da avó. "Ele começou a ter vertigem, palidez e muita dor no estômago. Eram os mesmo sintomas da minha filha. Corri para fazer exames."

Como Saulo praticava esporte e tinha uma vida saudável, o médico disse que não precisava. "Insisti muito, contei o caso da minha filha e eles fizeram os exames, que deram a alteração no coração", relembra a mãe. Há seis anos Saulo começou tratamento, mas chegou no momento que os remédios não estavam mais resolvendo. O desenvolvimento de Saulo é normal.

Desde o início do ano, ele estuda em uma escola pública em São Paulo. As aulas foram interrompidas, as férias antecipadas até o dia 20. Saulo não vê a hora da pandemia passar, de realizar a cirurgia e voltar para casa, no Paraná. "Está um pouco sem graça ficar aqui. Não é fácil, mas procuro ficar sossegado. Estou preocupado com o coronavírus. Meu pai tem 70 anos. Estou no grupo de risco. O que sinto mais falta são meus amigos do Paraná", conta.

RENATO, 39 ANOS

O publicitário Renato Consonni, 39 anos, calhou de estar de certa maneira isolado quando a pandemia chegou ao Brasil. Desde janeiro, ele se mudou para uma fazenda em São Joaquim da Barra, no interior de São Paulo, para cuidar dos negócios do pai, que faleceu no final do ano passado. Ele é casado e trabalha temporariamente como produtor rural. "É o melhor lugar que poderia estar nessa situação", conta.

Em 2010, ele passou por um transplante multivisceral - trocou pâncreas, fígado, duodeno, estômago, intestino e mesentério. Está dentro do grupo de risco por ser iminussuprimido. "Para tentar manter minha imunidade alta procuro fazer sucos. Dificilmente fico gripado por isso. Agora nessa situação extrema tenho me preocupado ainda mais em preparar esses sucos", explica.

A cidade onde Renato vive teve somente há três dias o primeiro caso confirmado de infectado pelo novo coronavírus. De qualquer forma, ele adotou os procedimentos recomendados pela Organização Mundial da Saúde há tempo. "Nunca lavei tanto a mão. Minha esposa tem feito as compras e não me deixa nem pegar nas sacolas antes de higienizar."

A vida no campo é provisória. Depois da pandemia, após organizar os negócios da família, ele pretende retomar também a vida, voltar a trabalhar no terceiro setor e constituir seu projeto de vida, o Instituto Visceral, uma ONG para ajudar pessoas que passam por situações similares às que ele passou.

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