GABRIELA BILO / ESTADAO
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Vacinas contra meningite: entenda o que é, quais são os tipos e quem deve tomar

Antes disponível apenas na rede privada, a meningocócica ACWY começou a ser incluída no calendário da rede pública, neste ano, para adolescentes com idade entre 11 e 12 anos

Renata Okumura, O Estado de S.Paulo

11 de agosto de 2020 | 07h55

SÃO PAULO - Diante da corrida entre os países pela vacina contra o novo coronavírus, algumas doenças, que já têm imunização disponível, não podem ser deixadas de lado. Embora seja rara, a meningite é uma doença que mata e deixa graves sequelas nos sobreviventes, principalmente a bacteriana, que tem letalidadade em torno de 20% no Brasil.

"99% das ocorrências de meningite são virais ou bacterianas. A meningite causada por bactérias, como a meningite pneumocócica, que tem maior incidência entre crianças pequenas, e a meningite meningocócica, que pode afetar todas as faixas etárias, podem se desenvolver de forma mais grave, causar infecção generalizada, levando o paciente a óbito rapidamente. Já a viral evolui de forma mais leve, sendo a cura espontânea e sem sequelas", afirma Renato Kfouri, vice-presidente do departamento de Imunizações da Sociedade de Pediatria de São Paulo (SPSP). Há ainda meningite causada por fungos e parasitas, mas é algo realmente muito mais difícil de ocorrer.

Segundo Kfouri, três bactérias respondem por quase toda a totalidade dos casos graves de meningite bacteriana. Contra elas, existem as seguintes vacinas nas redes pública e particular.

Vacina meningocócicas conjugadas (C e ACWY) e Meningocócica B:

"Causada pela bactéria Neisseria meningitidis, a meningocócica tem basicamente quatro tipos que circulam entre nós: B, C, W e Y. Mas somente a vacina contra o tipo C, com casos mais frequentes, foi introduzida no Programa Nacional de Imunizações (PNI) do Ministério da Saúde em 2010 em crianças de 3 meses a menores de 5 anos de idade", diz o vice-presidente do departamento de Imunizações da Sociedade de Pediatria de São Paulo (SPSP).

Na rede privada, a vacina que inclui o tipo C é a conjugada quadrivalente ACWY. Geralmente, é administrada em quatro doses até um ano de idade, dependendo da marca da fabricante. Também é recomendado um reforço entre os 5 e 6 anos e outra dose aos 11 anos.

Neste ano, a novidade é que o Sistema Único de Saúde (SUS) começou a incluir no calendário dos estados a vacina ACWY para adolescentes entre 11 e 12 anos. "A vacina foi introduzida neste ano para adolescentes entre 11 e 12 anos e pessoas com Hemoglobinúria Paroxística Noturna (HPN)", afirma Rosana Richtmann, infectologista chefe do Serviço de Infecção Hospitalar do Hospital e Maternidade Santa Joana. A HPN é uma doença rara, de origem genética, considerada uma anemia crônica.

Embora esteja atrás somente do tipo C em número de casos, em média 20%, a Meningocócica B somente está disponível na rede particular. Ela é administrada em três doses entre 2 meses e um ano e meio. A Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm) indica a imunização para grupos de alto risco, como portadores de HIV e de asplenia anatômica ou funcional. 

Vacina pneumocócica conjugada

A pneumocócica conjugada 10-valente (VPC10) faz parte desde 2010 do calendário de vacinação do SUS. Protege contra pneumonia e também meningite. São dadas duas doses de VPC10 com intervalo mínimo de 2 meses no primeiro ano de vida da criança e um reforço com um ano de idade.

Na rede privada, a pneumocócica conjugada 13-valente (VPC13) é mais abrangente. "A vacina existe em ambas as redes, mas na rede privada protege contra 13 sorotipos de pneumococos", afirma a infectologista Rosana Richtmann. Geralmente, é administrada em quatro doses até um ano e três meses de idade, dependendo da marca da fabricante.

Esse tipo de meningite é causada pela bactéria Streptococcus pneumoniae, que geralmente atinge o sistema respiratório, podendo, no entanto, afetar também o sangue e o cérebro.

Vacina conjugada contra Haemophilus influenzae tipo b (Hib)

Segundo a SBIm, na década de 80, foi a principal causa de meningite bacteriana em crianças menores de 5 anos, acometendo uma em cada 200. Entre as que ficavam doentes, 25% sofriam danos cerebrais permanentes.

A vacina foi incluída no calendário de vacinação do SUS na década de 90 e também está disponível na rede particular. "Principal causa de meningite bacteriana em crianças, hoje os casos são raros", afirma a infectologista chefe do Serviço de Infecção Hospitalar do Hospital e Maternidade Santa Joana.

A proteção contra a meningite provocada pela bactéria Haemophilus influenzae tipo b pode ser aplicada individualmente, mas geralmente é administrada pela vacina hexavalente, que também protege contra difteria, tétano, coqueluche e hepatite B e poliomielite, ou pela pentavalente, que protege contra as mesmas doenças, exceto contra a poliomielite.

No SUS, é disponibilizada em três doses: aos 2, 4 e 6 meses de idade. Na rede particular, quatro doses são aplicadas entre dois meses e um ano e meio de idade.

De acordo com a SBIm, pessoas com doenças que comprometem a imunidade ou a função do baço (órgão que tem papel fundamental na proteção contra essa bactéria), ou aquelas que tenham retirado cirurgicamente esse órgão, devem manter em dia com a vacinação.

BCG

Além das vacinas acima, ao nascer toda a criança toma uma dose única da vacina BCG, que protege contra a meningite turberculosa. A imunização impede que o bacilo de Koch, bactéria responsável pela tuberculose, instale-se nas meninges.

Recomendação

A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) recomenda que todas as crianças e adolescentes até 20 anos de idade sejam vacinados, pois a incidência da doença é maior nesta faixa etária.

"Vacinar adultos não faz parte da rotina, a não ser que esteja em vigência de algum surto ou eles estejam em condições de saúde em que sistema imunológico esteja comprometido, como transplantado, quem tem HIV ou doença crônica como câncer", explica Kfouri.

Reações provocadas pelas vacinas

De 10 a 15% podem ter reação no local da aplicação da injeção, com dor e inchaço. Embora menos frequentes, febre, dor de cabeça e diarreia podem aparecer em no máximo por um período de 72 horas. Somente no caso da vacina Meningocócica B, a taxa das reações é elevada para 30% de quem toma a vacina.

Custo na rede particular

No Centro de Imunização Santa Joana, a vacina Meningite B custa R$ 600. O preço da ACWY é de R$ 350. A VPC13 está no valor de R$ 320. A Haemophilus influenzae tipo b custa R$ 110.

Nos laboratórios do Grupo Cura, a vacina Meningite B custa R$ 548. Já a ACWY, custa R$ 338,49. A VPC13 custa R$ 290,70. O preço da pentavalente é de R$ 252 e da hexavalente, R$ 243.

O que é meningite?

É uma doença rara, mas a sua letalidade e o alto índice de sequelas reforçam a necessidade e mobilização no sentido de prevenção. "Trata-se de uma inflamação das meninges, que recobre nosso sistema nervoso e, por isso, a proximidade dessas estruturas cerebrais nobres com a infecção gera bastante angústia e acometimento do sistema nervoso e, consequentemente, a chance de sequelas entre os sobreviventes", afirma Kfouri. Aproximadamente 15% dos sobreviventes apresentam sequelas como cegueira, problemas neurológicos e surdez.

Quais os sintomas da doença?

Entre os sintomas da meningite bacteriana estão mal-estar, febre, vômito (paciente nem percebe que vai vomitar), dor de cabeça e confusão mental. Muita irritabilidade também em bebês e nas crianças maiores e adultos é comum observar rigidez da nuca e manchas vermelhas na pele. As crianças também podem perder os sentidos e ter confusão mental.

Na meningite viral, o paciente apresenta dor de cabeça e cansaço. Os sintomas são mais leves, sendo a situação semelhante a um quadro viral.

Em caso de suspeita da doença, é realizada a coleta do líquor, também chamado de líquido cefalorraquidiano (LCR) ou cérebro-espinhal. Desta forma, é possível ter um diagnóstico mais preciso.

Como é a transmissão?

O tipo bacteriano é transmitido de pessoa para pessoa por gotículas e secreções do nariz e da garganta, mas também há bactérias passadas pelos alimentos. As virais dependem do tipo de vírus. Há casos de contaminação por contato com pessoas e objetos infectados e até por picada de mosquitos, de acordo com o Ministério da Saúde.

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