Wilton Junior/Estadão
Wilton Junior/Estadão

Conheça Preta, a criadora da rede de apoio psicológico nas favelas

Depois de quatro tentativas de suicídio, Diene Carvalho encontrou ajuda e agora na pandemia trabalha para que outras pessoas também cuidem da saúde mental

João Prata, O Estado de S.Paulo

03 de maio de 2021 | 10h00

Antes da vida de Diene Carvalho mudar de direção, ela parou. Era segundo semestre de 2016 mais ou menos - as recordações desse período são confusas. Ela se lembra apenas que desceu do ônibus em direção à faculdade no Rio de Janeiro, caminhou até a faixa de pedestre e, quando cruzava a Avenida Presidente Vargas, travou. O coração disparou, a cabeça entrou em parafuso e pensou que fosse morrer. Uma colega notou que ela estava aos prantos, estática, e a tirou do meio dos carros.

Sem apoio para tratar a crise de síndrome do pânico, Diene foi ladeira abaixo. Desfez o casamento, emagreceu demais e tentou suicídio por quatro vezes. Então buscou ajuda. No fim de 2017, procurou um, dois, três e só no quarto terapeuta se sentiu acolhida. Compreendeu melhor seus sofrimentos e notou que uma maneira de tratar os traumas era também oferecer ajuda a outras pessoas. Na pandemia, montou uma rede de apoio psicológico para quem vive nas favelas chamada Cada Trauma Importa. Hoje, conta com 30 psicólogos voluntários e já ajudou mais de 130 pessoas.

A ideia do projeto surgiu a partir das dificuldades que ela enfrentou quando procurou tratamento. "Os médicos me examinavam e falavam coisas como: 'você só precisa ocupar mais a mente'. Diziam que eu estava passando por um estresse. Falavam: 'sai, vai encontrar uns amigos que passa'."

Antes fosse isso. Diene, de 32 anos, é conhecida por todos como Preta. E prefere que a chamem assim. O apelido vem da infância em Cururupu, uma cidade de 32 mil habitantes no litoral maranhense. De um período que ela achava que sua vida era tranquila. Morava em uma casa como todas as outras, tinha os pais sempre por perto e nunca passou necessidade. Nem sabia direito o que era classe social. Só reparou mesmo nas desigualdades quando se mudou para o Rio, há dez anos, para estudar engenharia de petróleo. "De onde vim era todo mundo mais ou menos igual, as casas parecidas. Claro, sempre tem um na cidade que tem aquela casona, um carro melhor, mas era a exceção."

Por isso que quando teve o primeiro diagnóstico de síndrome do pânico foi um baque. Ficou quatro dias sem forças nem para levar comida à boca. Não fazia sentido. Ela tentava ser clara com todos, organizada, metódica até, mas achava que ninguém a entendia de verdade. Preta tinha o caderno mais caprichado da turma de engenharia de petróleo e se orgulha em contar que os professores pegavam para tirar xerox. Foi assim até o último semestre, do último período, quando ela travou.  

Ela não sabia definir aquele vazio interno esquisito. Na faculdade tinha o apelido de Sorriso, auto-explicativo ainda mais hoje em dia para quem conversa com ela. Mesmo assim tentou o suicídio por três vezes ao ingerir uma grande quantidade de remédios. Depois, tomou veneno, sozinha, em casa. Ela não sabe por que, mas quando começou a passar mal, saiu correndo e desmaiou no portão. O proprietário do imóvel, Seu Roberto, que ela considera um anjo em sua vida, a levou para o hospital. Precisou ficar internada por alguns dias.

Preta lembra que acordou com um monte de fios conectados ao corpo e a voz da médica dizendo que a ambulância estava pronta para levá-la ao hospital psiquiátrico. "Pensei: 'ferrou, nunca mais vou sair de lá'. Puxei o acesso, o meu sangue jorrou na parede, dei um pulo da cama e gritei: não vou para o hospital. Fiz um escândalo. Vieram dois seguranças para me segurar. Estava sozinha. Liguei para o Maranhão e minha mãe, de lá, autorizou que me liberassem."  

Ao ler o laudo médico que ela guarda até hoje, levou um choque. Só de contar, fica emocionada. "A médica escreveu: 'paciente sem apoio familiar'. Nossa, doía muito em mim. Caraca, sempre achei tinha uma família. Foi quando descobri a diferença de uma família estrutural para uma família funcional."

O primeiro psicólogo, no entanto, não deu certo. Preta ficou 40 minutos em silêncio olhando para cara dele e nada de começar uma conversa. "Então fazer terapia é isso? Saio de casa e vou até um lugar para ficar observando alguém que eu nem conheço? Não vou mais."

Episódios de racismo

Procurou mais outros até que se identificou com uma mulher negra como ela, que a fez compreender tudo o que sofreu. Sua infância não foi normal como imaginava. Ela era filha de um comerciante negro e de uma assistente social branca. Quando a mãe a levava para escola, sempre ouvia colegas e pais dos colegas brincarem que ela era adotada. A piada preconceituosa não era levada a sério pela família.

"Só há pouco tempo que parei para pensar que até minha mãe tinha atitudes racistas. Ela brincava, às vezes, perguntando: 'por que não puxou o nariz da mamãe? Por que não puxou o cabelo da mamãe?' Meio que inconscientemente as pessoas à nossa volta são racistas. Sei que era brincadeira, mas tem uma questão aí", disse.

No Rio, também precisou encarar o racismo sem identificar com clareza o preconceito. Nos primeiros anos, morou com uma amiga em Laranjeiras, bairro nobre da zona sul carioca. Quando dizia aos outros onde vivia, perguntavam se ela era filha do porteiro. "Foram tantas, mas tantas vezes que ouvi isso, que parei de falar que morava em Laranjeiras. Desconversava."

Pouco depois se casou e mudou para Irajá. Se separou e seguiu pela zona norte carioca, onde mora até hoje. Foi nesse período, entre 2016 e 2017, que enfrentou os piores momentos de sua vida. Mas foi também quando percebeu que precisava criar pontes, estabelecer novos diálogos e fazer com que todos falassem mais abertamente sobre como estavam se sentindo. Preta reparou que apesar de ter boa relação com seus pais, havia assunto que era tabu, que ela nem pensava em abrir para eles, como por exemplo, expressar os sentimentos.  

A importância da conversa

Seu Roberto foi ombro amigo. Além de salvar sua vida, o dono da casa onde morava era bastante sentimental. Todo dia no final da tarde Preta descia da sua casa e ia conversar com ele. Seu Roberto entendia as dores dela e também falava das dele. A esposa o havia deixado recentemente. "Entendi que ser ouvido fazia bem para ele. E as conversas com ele também faziam bem para mim."

No processo para se reerguer, Preta largou a faculdade, deu entrada no auxílio doença e decidiu realizar dois cursos: de produção cultural e fotografia. Estava disposta a mudar de vida, começou a se envolver mais com as lideranças comunitárias da região onde morava. Também descobriu um aplicativo para receber estrangeiros e viu ali a possibilidade de criar um projeto.

Colocou como prerrogativa para o gringo se hospedar em sua casa a condição de ensinar algo aos jovens de uma favela. Qualquer coisa: uma aula de idioma, um tipo de arte, um instrumento, qualquer coisa. Nasceu o projeto Maktüb Experience. Sua casa vivia movimentada.

Preta começou a se envolver mais com os jovens da comunidade e notou que havia uma grande demanda para realizar batalhas de rap na região. Passou a produzir as disputas de rimadores, só que antes e depois da competição, ela promovia conversas. Era quando ficava sabendo que a família de um estava com dificuldade para comprar botijão de gás, que o outro precisava de uma cesta básica e também de todos os problemas sociais que existiam.  

Cada Trauma Importa

Veio a pandemia e os encontros e todo trabalho dela passaram a ser online. Dos contatos que fez, percebeu que muitos ali precisavam de apoio psicológico. Criou então a rede inicialmente com seis psicólogos. E para não haver estranhamento, ela faria a ponte. "O que a gente faz hoje é também explicar para o profissional que a pessoa que ele vai atender nunca teve contato com qualquer tipo de terapia. Então tem que pensar em uma dinâmica diferente para criar um vínculo maior de confiança. A gente faz o diálogo com o profissional e com o paciente. Faz com que as duas partes se entendam", contou.

Cada Trauma Importa funciona sem muita estrutura e atende as comunidades de Acari, Muqiço e Para-Pedro. O pessoal da comunidade faz a divulgação no boca a boca mesmo. O projeto ainda não tem site, e ela o considera um braço do Maktüb, que continua existindo. Preta recebe o pedido de atendimento pelo WhatsApp, e envia dois formulários para a pessoa contar sobre sua vida. Os formulários foram criados pela ajudante e voluntária Ana Luiza dos Santos, psicóloga e mestranda pela USP de Ribeirão Preto. É Ana quem faz a primeira entrevista profissional.

O projeto de apoio psicológico não traz nenhum retorno financeiro a ela. Todos são voluntários. Preta já ganhou dois editais para promover atividades culturais pelo Maktüb. O mais recente, no início do ano, para realizar uma batalha de rap onde os participantes só poderiam fazer rimas positivas. Na pandemia, ela fica quase todo tempo em casa, mas sempre conectada. Preta é uma das pacientes do Cada Trauma Importa. Desde que se sentiu acolhida, nunca mais precisou voltar a um hospital.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.