REUTERS/Phil Noble
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Abuso de álcool cresce entre mulheres, mas é mais comum entre homens

Pesquisa do Ministério da Saúde mostra que 11% das mulheres e 26% dos homens exageraram na bebida no último ano

Marco Antônio Carvalho, O Estado de S.Paulo

25 de julho de 2019 | 09h00
Atualizado 26 de julho de 2019 | 12h30

SÃO PAULO Ministério da Saúde considera uso abusivo de álcool a ingestão de quatro ou mais doses entre as mulheres e cinco ou mais doses entre os homens em uma mesma ocasião nos últimos 30 dias. O que a pesquisa mais recente sobre o assunto divulgada nesta quinta-feira, 25, mostra é que o uso abusivo cresceu mais entre as mulheres, mas esse comportamento permanece sendo mais comum entre os homens

Os dados são da Pesquisa de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel), de 2018. A pesquisa mostra que, em 2006, 7,7% das mulheres fizeram uso abusivo da substância. No estudo, uma dose de bebida alcoólica corresponde a uma lata de cerveja, uma taça de vinho ou uma dose de cachaça, whisky ou qualquer outra bebida alcoólica destilada. No ano passado, o porcentual chegou a 11% dessa parcela da população, crescimento de 3,3 pontos percentuais. 

Entre os homens, a porcentagem passou de 24,8% há 12 anos para 26% na pesquisa mais recente, indicando que, apesar de ter subido em um ritmo mais lento (1,1 ponto percentual), eles ainda fazem uso proporcional mais problemático de álcool. Somados, os dados totais mostram que 17,9% da população adulta do Brasil faz uso abusivo da bebida. 

Os dados mostram também que o uso abusivo entre os homens é mais frequente na faixa etária de 25 a 34 anos (34,2%) e entre as mulheres nas idades de 18 a 24 anos (18%). O menor percentual entre os homens e mulheres foram observados em pessoas com 65 anos ou mais, sendo 7,2% entre homens e 2% em mulheres. “O percentual de consumo abusivo entre os brasileiros tende a diminuir com o avanço da idade, em ambos os sexos”, informou o ministério.

A pasta destacou que o consumo de qualquer tipo de bebida alcoólica pode trazer danos imediatos à saúde ou a médio e longo prazo. O governo federal lembra que, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), não existe volume seguro de álcool a ser consumido, “porque ele é tóxico para o organismo humano e pode provocar doenças mentais, diversos cânceres, problemas hepático, como a cirrose, alterações cardiovasculares, com risco de enfarte e acidente vascular cerebral e a diminuição de imunidade”. 

A psiquiatra Ana Cecília Marques, da Associação Brasileira de Estudos do Álcool e Outras Drogas (Abead), lembra que desde a década de 1980 pesquisas mostram o aumento de consumo de álcool entre mulheres. A tendência é que elas equiparem aos homens.

“As meninas se aproximavam dos meninos quanto à idade de iniciação, depois veio a semelhança no padrão de consumo e agora as mulheres alcançarão os homens em relação a taxa de dependência”, disse Ana Cecília. Para ela, a falta de políticas para tratar as consequências do uso de bebidas alcoólicas explica o fenômeno. “Além da falta de uma política moderna e completa para o álcool, é preciso focar em grupos mais vulneráveis, como as mulheres, e correr atrás do prejuízo, desenvolvendo a prevenção.”

O supervisor do grupo de estudos de álcool e drogas do Hospital das Clínicas, Arthur Guerra, alerta para o fato de mulheres, em geral, terem menos enzimas que metabolizam o álcool no fígado e, geralmente, terem menos massa corporal. “O álcool fica distribuído no corpo, e especialmente no cérebro, de forma mais rápida”, diz.

Ele também chama atenção para o aumento do consumo de álcool entre jovens de 18 e 24 anos. “Quanto mais cedo a pessoa começa a beber, mais vulnerabilidade ela tem para desenvolver um problema com a bebida – fazer uso nocivo ou desenvolver dependência do álcool.”

1,4% das mortes deste século tem ligação com ingestão abusiva de bebida

Entre 2000 e 2017, 1,45% do total de óbitos no Brasil está totalmente atribuído à ingestão abusiva de bebidas, como doença hepática alcoólica. “Quando verificado o número de mortes entre os sexos, os homens morrem aproximadamente nove vezes mais do que as mulheres por causas totalmente atribuídas ao álcool. Os óbitos excluem acidentes e violências e outras causas parcialmente atribuídas”, informou o ministério.

Em todo o mundo, segundo a OMS, mais de 3 milhões de homens e mulheres morrem todos os anos pelo uso nocivo de bebidas alcoólicas e 5% das doenças mundiais são causadas pelo álcool.

Ministério diz ter ferramentas de atendimento a dependentes

O ministério lembra que são ofertados atendimentos gratuitos a pessoas que sofrem com a dependência alcoólica. “O acolhimento dessas pessoas e seus familiares é uma estratégia de atenção fundamental para a identificação das necessidades assistenciais, alívio do sofrimento e planejamento de intervenções medicamentosas e terapêuticas, se e quando necessárias, conforme cada caso.”

A pasta explica que os principais atendimentos em saúde mental são realizados nos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) que existem no País, “onde o paciente recebe atendimento próximo da família com assistência multiprofissional e cuidado terapêutico conforme o quadro de saúde de cada paciente”. /COLABOROU TULIO KRUSE

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