Nilton Fukuda/ Estadão
Nilton Fukuda/ Estadão

Contra coronavírus, distanciamento social intermitente pode ser necessário até 2022

A estimativa é de um grupo de pesquisadores da Escola de Saúde Pública da Universidade Harvard

Giovana Girardi, O Estado de S.Paulo

14 de abril de 2020 | 15h08

SÃO PAULO — Os esforços de distanciamento social para evitar o colapso hospitalar diante da pandemia de covid-19 podem ser necessários, ao menos de modo intermitente, até 2022. É o que estima um grupo de pesquisadores da Escola de Saúde Pública da Universidade Harvard em artigo publicado nesta terça-feira, 14, na revista Science.

Os cientistas buscaram avaliar, para os próximos cinco anos, quanto o novo coronavírus, que recebeu o nome de Sars-CoV-2,  deverá persistir na população humana após o estágio inicial da pandemia. Uma resposta concreta, dizem, dependerá de sabermos exatamente quanto vai durar a imunidade humana depois da contaminação ou de tomar uma eventual vacina. 

Para saber isso, serão necessários estudos sorológicos urgentes que determinem a extensão da imunidade da população, se ela diminui com o tempo e a que taxa. Essa vigilância epidemiológica, dizem, deve ser mantida nos próximos anos para antecipar a possibilidade de ressurgimento.

O grupo, liderado pelo epidemiologista Marc Lipsitch, elaborou vários cenários de transmissão da doença até 2025 usando estimativas de sazonalidade, imunidade e imunidade cruzada para outros coronavírus responsáveis por resfriados comuns, levando em caso dados de séries temporais dos EUA.

Eles projetam que surtos recorrentes do Sars-CoV-2 no inverno provavelmente ocorrerão após a onda pandêmica inicial mais grave, assim como ocorre com outros vírus respiratórios. Sem outras intervenções — principalmente uma vacina, um tratamento específico ou um aumento substancial da capacidade de cuidados intensivos (UTIs) —, a forma de evitar o colapso do sistema de saúde pode ser um distanciamento social prolongado ou intermitente até 2022. 

Intervenções adicionais, incluindo capacidade ampliada de cuidados críticos e uma terapêutica eficaz, melhorariam o sucesso do distanciamento intermitente e acelerariam a aquisição da imunidade do rebanho”, escrevem.

Eles dizem que os estudos sorológicos vão determinar a extensão e a duração da imunidade. “Mesmo no caso de eliminação aparente, a vigilância de Sars-CoV-2 deve ser mantida, pois um ressurgimento do contágio pode ser possível até 2024”, escrevem.

Segundo os pesquisadores, a incidência total da doença nos próximos cinco anos dependerá criticamente de o coronavírus entrar ou não em uma circulação regular entre as pessoas, questão que está ligada à duração da imunidade. Para os resfriados comuns causados por outros coronavírus comuns entre humanos, a imunidade dura em geral um ano. Nas estimativas feitas no trabalho, os cientistas consideraram que a imunidade ao Sars-CoV-2 induzida pela infecção poderia durar pelo menos dois anos.

“O distanciamento altamente eficaz poderia reduzir a incidência de SarS-CoV-2 o suficiente para tornar factível uma estratégia baseada em rastreamento de contatos e quarentena, como na Coréia do Sul e Cingapura”, escrevem. 

Do contrário, esforços de distanciamento menos eficazes “podem resultar em uma epidemia prolongada de pico único, com a extensão da pressão sobre o sistema de saúde e a duração necessária do distanciamento, dependendo da eficácia”.

Os pesquisadores ponderam que o distanciamento prolongado, mesmo que intermitente, “provavelmente terá consequências econômicas, sociais e educacionais profundamente negativas” e tentam não passar uma recomendação fechada.

“Não assumimos posição sobre a conveniência desses cenários, dado o ônus econômico que o distanciamento sustentado pode impor, mas observamos o ônus potencialmente catastrófico para o sistema de saúde previsto se o distanciamento for pouco eficaz e / ou não for sustentado por tempo suficiente”, pontuam.

Em coletiva à imprensa, Lipsitch comentou que tanto o aumento da capacidade de terapia intensiva que vendo ocorrendo em vários lugares do mundo quanto o desenvolvimento de um remédio poderão aliviar um pouco esse quadro. 

“Estamos redirecionando camas e equipamentos hospitalares existentes. Isso, obviamente, leva a uma maior resiliência do sistema em geral”, disse. Isso, segundo ele, pode permitir que haja períodos de transmissão da doença com uma prevalência mais alta e, assim, se conseguir a imunidade do rebanho durante os intervalos entre os momentos de distanciamento social.

Outra intervenção importante poderia ser a existência de um tratamento que reduzisse a demanda por terapia intensiva e não apenas voltados para quem fosse para a UTI. “Para as pessoas que apresentam casos mais leves, se pudéssemos impedir que alguns deles progridam, isso seria uma grande contribuição não apenas para o bem-estar deles, mas ao progresso da imunidade do rebanho.”

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