WERTHER SANTANA/ESTADÃO
Por mais que paciente tenha consciência de que se trata de ficção, cérebro é ‘enganado’ nas simulações, em que são usados sensores WERTHER SANTANA/ESTADÃO

Contra depressão e fobias, psiquiatras apostam em choques e realidade virtual

Programadores e desenvolvedores de games têm criado, com computação gráfica, cenários para os pacientes interagirem com situações que os aterrorizam; correntes elétricas também são usadas para dependências, compulsões e transtornos

Fabiana Cambricoli, O Estado de S.Paulo

08 de setembro de 2019 | 03h00

SÃO PAULO - Na batalha contra os transtornos mentais, duas tecnologias inusitadas têm ganhado espaço nos consultórios de psiquiatras e psicólogos. Além do já tradicional tratamento com medicamentos e psicoterapia, especialistas têm apostado no uso da realidade virtual e de estimulação do cérebro por meio de choques – em algumas situações, ambos são combinados – para tratar problemas que vão desde depressão até compulsão alimentar e fobias.

A realidade virtual, conhecida pelo uso na indústria de games, tem sido cada vez mais utilizada para recriar situações de trauma ou medo e, assim, permitir que o paciente seja exposto a uma situação de risco de forma controlada e com auxílio profissional. Medo de avião, pavor de aranhas ou insetos e fobia de lugares fechados são alguns dos problemas na mira. 

Para isso, programadores e desenvolvedores de games têm sido contratados por médicos e psicólogos para criar, com técnicas de computação gráfica, os cenários para pacientes interagirem com as situações que os aterrorizam.

Na clínica Perseus Realidade Virtual, em São Paulo, uma equipe de cinco programadores trabalhou nas versões mais recentes das experiências de imersão. O nível de detalhamento impressiona. No cenário de fobia de aranha, o paciente não só observa o comportamento do animal como pode interagir usando as próprias mãos, inseridas no cenário por meio de um sensor. No cenário da fobia de avião, a imersão é ainda maior. Além dos óculos de realidade virtual, a clínica tem duas poltronas de avião posicionadas sobre uma plataforma móvel que simula os vários momentos – decolagem, pouso e turbulências.

Antes mesmo de “entrar” na aeronave, o paciente em tratamento passa, dentro da experiência de realidade virtual, por check-in, raio X e fila de embarque. Em todas as situações, ele tem os batimentos cardíacos e a respiração monitorados pela equipe de psicólogos, que acompanha cena a cena.

Segundo o psicólogo Cristiano Nabuco, professor do Instituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo (USP) e chefe da Perseus, a abordagem é eficaz porque trabalha três dimensões: pensamento, emoção e comportamento. “Para quem tem medo de avião, não adianta você só trazer estatísticas.”

O especialista explica que, por mais que o paciente tenha consciência de que aquela é uma simulação, o cérebro acaba “sendo enganado”. “Quando a pessoa coloca os óculos de realidade virtual, os centros cerebrais estimulados são imediatamente bombardeados de informação e, mesmo que o indivíduo saiba que aquilo não é real, a amígdala cerebral, que é o centro identificador do perigo, vai reagir mais rápido, levando em poucos segundos à imersão total”, diz. De acordo com os especialistas da clínica, a experiência é tão real que há pacientes que pedem para interromper a sessão quando estão na rampa de acesso ou na decolagem.

Tratamentos combinados. Já a realidade virtual aliada ao tratamento com choques elétricos tem sido estudada para casos como os de dependência química, manias e compulsões. Algumas das pesquisas foram apresentadas no congresso Brain deste ano, em Brasília. O tratamento com choques elétricos no cérebro nada tem a ver com as terapias praticadas nos antigos manicômios e condenadas hoje.

Hoje, a corrente elétrica é usada em baixíssima intensidade, de forma não invasiva, para estimular ou inibir áreas do cérebro afetadas por alguns transtornos. Estudos publicados em renomadas revistas médicas já comprovaram a eficácia do tratamento para pacientes com depressão grave que não demonstravam uma boa resposta aos remédios. Nos últimos anos, a técnica começou a ser estudada também para condições de dependência química, autismo, transtorno obsessivo-compulsivo e compulsão alimentar.

Professor da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e fundador da clínica Nemo-Neuromodulação, em Porto Alegre, o psiquiatra Pedro Schestatsky explica que, no caso de compulsão alimentar, o paciente coloca um par de óculos de realidade virtual por meio do qual se vê em um restaurante com uma comida saborosa. “Alguns chegam a salivar.”

Nesse momento, os eletrodos já estão alocados em sua cabeça na região que se quer inibir (a da compulsão) e liberam a corrente elétrica. Estudo preliminar do grupo gaúcho acompanhou pacientes que se submeteram à terapia e registrou perda de peso meses depois. Os especialistas destacam que tanto a realidade virtual quanto a estimulação transcraniana são parte do tratamento e precisam ser associados a psicoterapias e a medicações.

Tinha medo de avião. ‘Depois, até conheci a cabine do piloto’

Quando a filha do gráfico aposentado Rodolfo José Scolari, de 69 anos, avisou que sua cerimônia de casamento seria nos Estados Unidos, onde ela mora há 20 anos, o idoso não titubeou. “Se quiser que eu entre na igreja com você, vai ter de casar no Brasil, porque avião eu não pego.”

Até então, o pavor de voar fez com que ele nunca tivesse tomado um voo na vida. “Eu ficava pensando várias coisas ruins que podiam acontecer: que o avião ia cair, que eu ia passar mal lá dentro e não daria tempo de me socorrer. E não era só com avião. Eu também não tinha coragem de entrar em navio, pensava que ia afundar e eu morreria afogado”, conta o aposentado.

Desde que a filha havia se mudado para o exterior, era sempre ela que tinha de visitar o pai. Mas em 2017, com o anúncio do casamento, não havia alternativa: ou ele viajava ou não participava do casório. Foi então que a mulher e os filhos de Scolari passaram a pesquisar alguma terapia que, em poucos meses, tratasse a fobia. Descobriram, então, o tratamento para aerofobia com o uso de realidade virtual. “Eu fui fazer o tratamento por insistência deles, mas não estava botando muita fé.”

Scolari iniciou a intervenção com sessões tradicionais de psicoterapia comportamental. As últimas sessões foram, de fato, no simulador. “A gente vai treinando o pensamento, a respiração, e vê que não é nada daquilo que estávamos temendo”, diz o aposentado.

Após alguns meses de sessões semanais (a maioria das pessoas finaliza o protocolo com 15 consultas), Scolari enfrentou o desafio real e conseguiu vencer o medo. “Fiquei um pouco tenso, mas depois achei bem tranquilo. Até conheci a cabine do piloto e agora em setembro vou de novo visitar minha filha nos Estados Unidos.”

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    Estimulação elétrica apresenta resultados promissores

    A técnica também pode ser indicada para outras situações em que, como no AVC, uma perda neurológica ocasionou sequelas motoras e cognitivas

    Fabiana Cambricoli, O Estado de S.Paulo

    08 de setembro de 2019 | 03h00

    Não é só no campo da psiquiatria que a estimulação elétrica transcraniana vem apresentando resultados promissores. Os estudos mais antigos e consolidados sobre a técnica mostram sua aplicação no tratamento de sequelas de acidente vascular cerebral (AVC) e dor crônica.

    A técnica também pode ser indicada para outras situações em que, como no AVC, uma perda neurológica ocasionou sequelas motoras e cognitivas. Foi o caso de Cauã Gomes Ferreira, de 8 anos. Aos 9 meses, o menino teve um problema pulmonar que levou à falta de oxigenação cerebral. Foi diagnosticado meses depois com paralisia cerebral. O problema prejudicou a evolução do menino, que tem limitações motoras e ainda não fala.

    No ano passado, a dona de casa Vivian dos Santos Gomes, de 38 anos, mãe de Cauã, soube do tratamento com estimulação transcraniana e decidiu aliar a técnica a outras terapias, como fonoaudiologia, terapia ocupacional e fisioterapia. Vivian conta que, ao iniciar o tratamento com as correntes elétricas, a primeira área cerebral foco da estimulação foi a responsável por questões comportamentais. “Ele estava muito agressivo com ele mesmo, se batia o tempo todo porque não conseguia se comunicar de outra forma. Então os eletrodos foram colocados nessa região da cabeça relacionada ao comportamento”, relata. Ela diz que, após alguns meses de sessões, já observou mudanças no menino. “Eu diria que ele melhorou essa parte da agressividade em 80%.”

    Com os bons resultados, a equipe médica iniciou agora a estimulação da região do cérebro responsável pela fala. “Com algumas sessões, a gente vê que ele está conseguindo falar algumas sílabas e fazer sons que indicam se quer algo, o que já é um ganho para a comunicação dele e para que a gente o entenda melhor”, diz a mãe.

    Para entender

    O tratamento de estimulação elétrica transcraniana estudado hoje difere totalmente da chamada eletroconvulsoterapia (ECT), praticada nos antigos manicômios. A técnica transcraniana de corrente contínua libera correntes de baixa intensidade (aproximadamente 2 miliamperes) sem grandes desconfortos para o paciente. 

    Já a eletroconvulsoterapia (ECT) é caracterizada pela liberação de altas correntes elétricas (até 1 mil amperes), o que provoca convulsões nos pacientes. Controversa, a técnica precisa ser feita sob anestesia geral do paciente e já foi classificada como prática de tortura. 

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