Contra Ebola, médicos enfrentam desconfiança e longas jornadas

Por causa do número baixo, profissionais de saúde trabalham até 14 horas por dia; na Libéria, há apenas um para cada 100 mil pessoas

O Estado de S. Paulo

18 Agosto 2014 | 10h21

Profissionais de saúde têm enfrentado severos problemas no combate ao Ebola no continente africano. As dificuldades vão desde uma jornada de trabalho que chega a 14 horas diárias, nos sete dias da semana, ao trabalho de convencimento dos pacientes sobre a importância do tratamento - boatos se espalham sobre a eficácia do atendimento e atuação de forças humanitárias. Soma-se a isso, a proximidade física exigida para tratar os atingidos pelo vírus, resultando em diversos casos de contaminação de médicos e enfermeiros.

Na Libéria, um dos países africanos com registros de casos de Ebola, há um médico para cada 100 mil habitantes, enquanto na Serra Leoa esse número sobe para dois, de acordo com dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) divulgados pela agência Associated Press (AP). O número de médicos por 100 mil habitantes nos Estados Unidos, por exemplo, é de 245. A deficiência nos sistemas de saúde contribuem para as longas jornadas de trabalho.

"Com uma necessidade tão intensa, você não pode justificar a sua ausência por um dia ou ir para casa mais cedo", disse à AP o doutor Robert Fowler, que recentemente trabalhou em Guiné e Serra Leoa. As condições de trabalho são descritas como horríveis em clínicas bagunçadas, situação que se agrava pela obrigatoriedade de uso de uma roupa de proteção que cobre as equipes dos pés à cabeça. 

Com uma estrutura tão frágil e um vírus que continua a se espalhar pela África, os profissionais têm que lidar com a sombra da morte diariamente. "Com a taxa de mortalidade sendo como é, você sabe que todos os dias haverá alguns de seus pacientes que não aguentará mais uma noite", disse o doutor Kent Brantly, médico americano infectado pelo Ebola no mês passado após tratar pacientes.

"Segurei a mão de inúmeras pessoas enquanto a doença lhes tomava a vida. Eu presenciei o horror em primeira mão", declarou o médico.

O caso de Brantly não é o único. Na Serra Leoa, por exemplo, autoridades de saúde estimam que 10% das mortes por Ebola tenham sido de enfermeiras infectadas, informou a Agência France-Presse (AFP). Ao menos 32 profissionais morreram desde o fim de maio no país. Serra Leoa registrou a morte do reputado médico especialista Modupeh Cole, infectado enquanto examinava um paciente suspeito de portar o vírus. Cole morreu duas semanas depois de contrair a doença.

Rumores. As condições de trabalho ganham traços dramáticos quando os profissionais de saúde têm que lidar com a desconfiança dos pacientes. Os rumores são de que corpos estão sendo roubados ou até que a infecção está ocorrendo de forma intencional. Ganhar a confiança dos pacientes é tarefa difícil quando se tem de usar diversas camadas de roupa de proteção e máscaras. 

"Você quer dizer tanto porque estão com tanta dor. Eles sofrem muito, mas só podem ver os nossos olhos", disse a enfermeira Monia Sayah da ONG Médicos Sem Fronteiras. Os últimos dias de uma vítima de Ebola podem ser terríveis, com dores musculares, vômitos, diarreia e hemorragia. 

Para o médico Robert Fowler, as barreiras das roupa de proteção representam um desafio no contato com o paciente, mas são superáveis. Ele relatou um caso de uma menina de seis anos, que teve a família morta pela Ebola. Sangrando, desidratada e delirando, ela estava empurrando quem queria lhe oferecer ajuda. Após dias tentando ajudá-la, Fowler contou como melhorou o contato com a criança após levar suas bebidas e comidas preferidas.

"Ela eventualmente desenvolveu um senso de que essa pessoa por trás da roupa amedrontadora está tentando ajudá-la", disse o médico. Quando deixou a Guiné, Fowler contou que a menina estava próximo de receber alta hospitalar./AFP E AP 

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