Yuyang Liu/The New York Times
Yuyang Liu/The New York Times

Contra o coronavírus, China cria uma 'muralha azul'

Alguns lugares, como Tianjin, ergueram tapumes em torno de bairros inteiros

Cao Li, THE NEW YORK TIMES

05 de março de 2020 | 05h00

As chapas de metal azul-cobalto brotaram semanas atrás em Tianjin, cidade portuária de pouco mais de 15 milhões de habitantes no nordeste da China. Cruzavam ruas e becos, isolavam estabelecimentos dos seus clientes. Separaram um vizinho do outro. “A partir de hoje”, dizia o aviso afixado a muitas dessas chapas, “esta comunidade residencial será administrada com isolamento”.

Barreiras de todo o tipo foram erguidas na China. O país enfrenta a epidemia de uma doença chamada Covid-19, que já matou mais de 3 mil pessoas e deixou doentes outras dezenas de milhares delas. É provocada por um novo coronavírus, que recebe esse nome por causa das protuberâncias pontudas em sua superfície microscópica.

Para deter a disseminação do coronavírus, o governo chinês está pensando em novas formas de separar seus cidadãos. As viagens entre muitas de suas cidades foram praticamente interrompidas, congelando grandes setores da segunda maior economia do mundo.

O Partido Comunista Chinês passou décadas pressionando e convencendo um país historicamente fracionado de 1,4 bilhão de habitantes a ver a China como unida. Agora, o próprio governo a separa. Barreiras foram erguidas dentro dos bairros. Agora, guardas cercam muitos complexos residenciais. Em alguns lugares, somente um membro de cada lar pode sair de casa por vez para fazer compras ou tomar um pouco de ar.

Alguns lugares, como Tianjin, ergueram muralhas em torno de bairros inteiros. As autoridades desses lugares descobriram que as chapas de metal, do tipo usado tipicamente como tapume de construção, servem como barreiras práticas. Há muitas chapas desse tipo pela China. Durante anos, o país turbinou seu crescimento econômico por meio da construção civil. Complexos de escritórios, estradas, aeroportos, shoppings, siderúrgicas – alguns mal foram usados – servem como monumentos de uma devoção monotemática ao crescimento.

Agora a conta chegou. Autoridades de Tianjin admitiram recentemente que superestimaram o crescimento, e a cidade tem hoje um dos piores desempenhos da China. Muitas de suas construções foram interrompidas. Especialistas calculam que o endividamento total da cidade seja da ordem de centenas de bilhões de dólares.

Quando o coronavírus atingiu o país, as autoridades locais começaram a agir. O distrito de Heping em particular aproveitou a imensa disponibilidade de chapas metálicas azuis usando-as como tapumes, formando uma muralha para deter o avanço do vírus. Ajuda o fato de Tianjin ser vizinha da província de Hebei, área industrial de muitas siderúrgicas, com um suprimento de chapas amplamente acessível.

As autoridades de Heping chamaram as chapas de aço de “Grande Muralha Azul”, embora seja na verdade uma série de muralhas menores espalhadas pelo distrito. O nome é uma referência à Muralha da China, um símbolo da determinação nacional.

O governo local disse em comunicado que a Grande Muralha Azul fecha as entradas laterais das comunidades e facilita o rastreamento dos moradores pelas entradas principais. “O distrito de Heping gerencia e controla entradas complexas para bloquear acessos desnecessários a uma comunidade, mantendo uma única entrada principal.”

Brecha

A mídia controlada pelo governo local relatou que os moradores se sentem mais tranquilos agora do que antes. Mas informou também que as pessoas encontraram brechas e torceram as chapas em certos pontos para conseguir passar. Como a maravilha do mundo moderno que inspira seu nome, a Grande Muralha Azul não consegue deter a natureza.

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