Nilton Fukuda/Estadão
Nilton Fukuda/Estadão

Controle de doenças crônicas pode evitar 1 em cada 3 casos de demência

É o que indica estudo realizado por pesquisadores da Faculdade de Medicina da USP, após análise de 1.092 cérebros de pacientes com mais de 50 anos

Fabiana Cambricoli e Priscila Mengue, O Estado de S.Paulo

24 Abril 2017 | 05h00

SÃO PAULO - Um terço dos casos de demência diagnosticados no Brasil poderia ser evitado com o controle de doenças crônicas como hipertensão e obesidade. É o que indica um estudo realizado por pesquisadores da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, depois da análise de 1.092 cérebros de pacientes com mais de 50 anos mortos na capital.

Primeiramente, os especialistas verificaram com familiares quantos dos pacientes tinham sintomas e diagnóstico de demência, chegando a 480. Ao analisar o tecido cerebral dessas pessoas, os pesquisadores descobriram que em 50% dos casos a doença era causada pelo mal de Alzheimer, mas que em outros 35% a demência era do tipo vascular, ou seja, associada a episódios de derrames geralmente causados por doenças evitáveis, como a hipertensão.

“A demência vascular pode ocorrer após um derrame grande, mas também acontece após repetidos episódios de pequenos derrames cerebrais, que muitas vezes não têm nenhum grande sintoma e podem passar despercebidos. Na maioria dos casos, esses derrames podem ser prevenidos com uma boa saúde vascular, ou seja, controlando a hipertensão, não fumando, praticando atividades físicas”, explica Claudia Suemoto, professora da disciplina de geriatria da FMUSP e uma das autoras do estudo, publicado no periódico Plos Medicine.

O que chamou a atenção dos pesquisadores foi que a proporção de demência do tipo vascular é maior no Brasil do que em outros países. “Estudos internacionais feitos principalmente nos Estados Unidos e na Europa mostram que a demência vascular corresponde a 20% dos casos nessas populações, o que indica que, no Brasil, as falhas na assistência à saúde podem deixar a população mais suscetível a esse tipo de demência que poderia ser evitada”, diz.

O estudo descobriu ainda que, dos 612 pacientes que não tinham sintomas de demência, 25% apresentaram, nos exames de imagem, lesões cerebrais indicativas do problema. “Pode ser que a doença estivesse na fase pré-clínica (sem sintomas) ou que os familiares achassem que os sintomas eram comuns da velhice”, diz Claudia.

Esquecimentos. Com hipertensão, sobrepeso e pré-diabete, Gilda Quartim Barbosa, de 88 anos, teve a demência diagnosticada há quatro anos. Além da causa vascular, o problema foi agravado pelo mal de Alzheimer, detectado na mesma época. “Ela sempre foi esquecida, trocava o nome das duas filhas, então só notamos quando ficou mais intenso. Nunca tivemos coragem de contar. Ela morria de medo de ter algo assim porque a irmã dela teve o mesmo diagnóstico”, relata a filha Maria de Lourdes Quartim Gotilla, advogada de 60 anos.

Mesmo morando com uma empregada e um cuidador, Gilda começou a se perder dentro de casa e a ligar pedindo ajuda para a filha, que a buscava, levava para dar uma volta no quarteirão e a trazia de volta para a residência. “Só depois desse ritual, ela percebia que estava mesmo no apartamento dela”, diz.

Atualmente, a idosa está com um diagnóstico de demência de moderada para avançada, de acordo com a geriatra Elaine Biffi Alonso Vera, médica da unidade Butantã do Lar Sant’Ana, onde Gilda passou a morar, na zona oeste de São Paulo. “A doença é degenerativa, então o avanço é inevitável. Mas ela está muito bem, até menos agitada do que quando chegou. Entende alguns pedidos, mantém pequenas conversas”, explica a médica, que também aponta a participação da idosa em atividades como a pintura e encontros semanais com crianças de uma creche da região.

“É uma doença muito ruim para os familiares. Mas, quando a visito, veja que ela está feliz. Ela sempre foi muito carinhosa, mas agora se tornou puro amor, abana e manda beijo para todo mundo”, relata a filha, que vê na atual vida da mãe quase uma lição de como a alegria pode estar nas pequenas coisas.

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‘Ela mistura coisas do passado com o presente’, lamenta filho

Até os 75 anos, quando veio o primeiro derrame, idosa tinha vida independente; especialista destaca que diagnóstico é difícil

Fabiana Cambricoli e Priscila Mengue, O Estado de S.Paulo

24 Abril 2017 | 05h00

SÃO PAULO - Até os 75 anos, a idosa Luiza (nome fictício) tinha uma vida ativa: fazia doces sob encomenda, dirigia e desempenhava todas as atividades do dia a dia de forma independente. Em julho de 2011, veio o primeiro derrame, que a deixou com dificuldades de locomoção. O tratamento com medicamentos e fisioterapia trouxe bons resultados na recuperação, mas, dois meses depois, um novo derrame atingiu a idosa, desta vez deixando sequelas mais graves: o lado esquerdo do corpo ficou paralisado e um quadro de demência se desenvolveu.

“Ela era super independente, tanto é que teve o primeiro AVC (acidente vascular cerebral) quando estava dirigindo sozinha. Não tinha obesidade nem diabete, só uma hipertensão leve, mas é difícil associar a doença aos derrames porque ela tomava remédio para a pressão, estava tudo controlado”, comenta um dos filhos da idosa, de 52 anos.

Ele diz que o principal sintoma da demência, no caso da mãe, é a confusão mental que ela manifesta desde 2011 até hoje. “Ela mistura coisas do passado com o presente. Tem horas que parece que está desorientada no espaço e no tempo. Às vezes pergunta dos pais dela, que já morreram, mas outras vezes ela lembra dos netos, que é algo mais recente”, conta.

Por causa das sequelas físicas e cognitivas, Luiza, hoje com 80 anos, vive em uma unidade para idosos com doenças crônicas do Hospital Santa Mônica, na Grande São Paulo. “Mesmo que ela ainda pudesse realizar algumas tarefas independentemente da demência, não consegue por causa da paralisia de um dos lados do corpo”, diz o filho.

Causas. Segundo Claudia Suemoto, autora do estudo da Faculdade de Medicina da USP, é possível que um derrame ocorra por razões genéticas ou não relacionadas a doenças crônicas, mas esses casos são raros, cerca de 5% do total. Ela diz ainda que os sintomas da demência vascular podem ser diferentes dos quadros associados ao mal de Alzheimer.

“No Alzheimer, a memória é comprometida desde o começo e há falhas na linguagem também. Já na demência vascular a principal função cerebral afetada é a que envolve o planejamento e a execução de tarefas. Por exemplo, fazer um bolo, que precisa de uma organização. De repente, o idoso passa a se confundir em tarefas que eram muito corriqueiras para ele”, explica a especialista.

A médica diz ainda que é comum familiares demorarem a identificar um quadro de demência por achar os sintomas naturais do envelhecimento.

“Esquecer coisas de vez em quando é normal, acontece com todo mundo, até com jovens. Mas quando isso começa a acontecer sempre e ainda vem acompanhado de perda de funcionalidade, é importante que seja feita uma avaliação médica”, defende. “Principalmente no caso da demência vascular, se detectar cedo e controlar os fatores de risco, os prejuízos serão menores.”

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