Controle do colesterol reduz doenças cardíacas

O American College of Cardiology, um dos maiores congressos sobre doenças cardiovasculares do mundo, realizado em Atlanta (EUA), de 11 a 14 deste mês de março, trouxe boas notícias para pacientes com doenças cardiovasculares. Pela primeira vez, um estudo mostrou que reduzir o colesterol ruim (LDL) e aumentar o bom (HDL), de forma agressiva, pode não só impedir a progressão de placas de aterosclerose (placas de gordura nas paredes arteriais que obstruem o fluxo sanguíneo e se formam devido ao acúmulo de colesterol, células inflamatórias e tecido fibroso) como fazer regredirem as já existentes. Conseqüentemente, isso poderia evitar problemas como enfartes e derrames (acidente vascular cerebral). "O estudo também abre uma perspectiva de redução das intervenções terapêuticas mais agressivas, como a angioplastia coronária e a cirurgia de pontes de safena. Nesse caso o paciente necessitaria apenas de tratamento clínico com medicamentos", acredita José Marconi Almeida de Souza, cardiologista da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).Para se ter uma idéia da importância da descoberta, segundo o "World Health Report 2004", da Organização Mundial de Saúde (OMS), uma em cada três mortes é causada por doenças cardiovasculares. No total, são mais de 16 milhões de mortes a cada ano. O alto nível de gorduras no sangue, em especial o colesterol total e o LDL, é uma das principais causas desse tipo de problema, junto com fumo, diabete, hipertensão e herança familiar. "O colesterol passou a ser tratado para valer a partir da década de 80, quando surgiram os primeiros medicamentos para este fim, chamados de estatinas. Com esses primeiros produtos demonstrou-se que a doença não evoluía, mas também não regredia" conta Marcelo Bertolami, chefe da Seção Médica de Dislipidemias do Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia, de São Paulo, que esteve no congresso. A grande novidade do estudo Asteroid (desenvolvido pela farmacêutica AstraZeneca), é que as perspectivas para esses pacientes podem mudar radicalmente. "Mostrou-se, pela primeira vez, que a doença realmente regrediu com o uso da dosagem máxima aprovada (40mg/dia) de rosuvastatina (principal componente do medicamento de nome comercial Crestor)" diz o cardiologista. Essa é a mais moderna e eficaz estatina disponível no mercado.Outra novidade é a visualização da ação do medicamento nas placas de gordura causadoras da aterosclerose. "Esse também foi o primeiro estudo que mostrou uma visão da morfologia, de como é e do tamanho da placa que regrediu", afirma José Marconi Almeida de Souza, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). O método utilizado foi o ultra-som intravascular, com ondas sonoras de alta freqüência transmitidas e recebidas dentro do vaso sanguíneo. Com ele, é possível "enxergar" a evolução da aterosclerose na parede do vaso. "Nos primeiros estudos, os problemas eram identificados pelo cateterismo, que filma apenas o contraste passando pelo interior da artéria. Então, em muitos casos, apesar de não haver entupimento, as placas poderiam estar evoluindo para dentro da parede das artérias e isso não era visto", explica Marcelo Bertolami, do Dante Pazzanese. Na prática, entretanto, o cateterismo é a rotina dos pacientes, pois o ultra-som não está disponível para a imensa maioria dos serviços. Estudo - O Asteroid foi conduzido por 24 meses, em nove países, com 507 pacientes com problemas cardíacos. Desses, 349 concluíram o estudo. "Os pacientes que receberam rosuvastatina tiveram seu colesterol reduzido, em média, de 130 mg/dL para 70 mg/dL e a placa que tinha causado obstrução na coronária regrediu, fato que nunca tinha sido comprovado por outra estatina", relata André Yamada, gerente de operações e relações médicas da AstraZeneca. Isso não significa, no entanto, que outras estatinas não tenham também esse efeito.Os resultados, que se mostraram eficazes tanto em homens como em mulheres de faixas etárias variadas, de fato, relatam diminuição na formação das placas de 7% a 9%, associadas a redução de 53% do LDL (de 130,4 mg/dL para 60,8 mg/dL) e aumento de 15% no HDL (de 43,1 mg/dL para 49 mg/dL). Apesar disso, o estudo ainda não é considerado definitivo por muitos médicos. Uma das principais críticas no meio cientifico é a ausência de um grupo de controle com uso de placebo ou outro medicamento para comparação. A rosuvastatina já é utilizada no Brasil desde 2004, mas sua dosagem máxima ainda não é receitada pelos médicos - e deve levar um tempo até que seja incorporada na prática, como qualquer diretriz médica. "Para isso, precisamos de mais dados robustos até em relação aos efeitos colaterais, mesmo que eles não tenham sido considerados tão relevantes nos vários estudos, incluindo este", afirma Souza, da Unifesp. "Por enquanto, não sabemos ao certo para onde esse estudo vai conduzir as recomendações médicas. Falta demonstrar ainda que a regressão da aterosclerose realmente é acompanhada de benefício clínico para os pacientes, com menor número de enfartes e de mortes", completa Marcelo Bertolami, do Dante Pazzanese. "É inegável que esta seja uma contribuição muito importante para o controle do colesterol. Mas só o tempo vai realmente determinar como serão feitos os tratamentos", completa o cardiologista.

Agencia Estado,

27 de março de 2006 | 20h20

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