Wilson Júnior/AE
Wilson Júnior/AE

Convênio possibilita cirurgia cardíaca em bebês pelo SUS

Clínica privada no Rio já realizou cirurgias em mais de 500 crianças com cardiopatias congênitas desde a assinatura do acordo, em 2009

Clarissa Thomé, do Rio,

22 Agosto 2012 | 22h30

 A dona de casa Elinadja Damas da Silva Viana, de 29 anos, levou um susto ao ver a filha recém-nascida ficar arroxeada na primeira mamada. Ester tinha transposição das grandes artérias – malformação cardíaca em que a posição da aorta e da artéria pulmonar está invertida. Se não fosse submetida a uma operação, viveria 15 dias. A cirurgia, pelo SUS, ocorreu há dois meses na Clínica Perinatal da Barra da Tijuca, instituição particular onde atrizes como Luana Piovani e Grazi Massafera deram à luz.

O convênio entre a clínica e a Secretaria de Estado de Saúde foi assinado em outubro de 2009. Desde então, mais de 500 crianças foram submetidas a cirurgias. A taxa de sobrevida é de 94%, comparável a índices de hospitais americanos, como o Children Hospital of Boston, da Universidade de Harvard, e o Children Hospital of Philadelphia.

“Existe uma carência de cerca de 700 cirurgias cardíacas de recém-nascidos por ano no Rio de Janeiro. Essas crianças acabavam simplesmente morrendo, porque não tinham assistência médica adequada. Conseguimos suprir uma boa parte da demanda e é muito emocionante ver essas crianças se desenvolvendo saudáveis”, afirma Sandra Pereira, coordenadora da equipe de cirurgia cardíaca da Perinatal.

Parceria. O convênio entre o Estado e a clínica abrange as cardiopatias mais complexas, como a síndrome hipoplasia de cavidades esquerdas, em que a criança nasce sem o lado esquerdo do coração e sem parte da artéria aorta, responsável por enviar o sangue para o resto do corpo.

Para corrigir o problema, é feita a cirurgia de Norwood. Por meio dela, o lado direito do coração assume as funções do esquerdo. Os médicos constroem a artéria aorta e a ligam à artéria pulmonar, que sai do ventrículo direito. “Essa cirurgia faz com que o ventrículo direito não seja necessário: o sangue passa diretamente das veias para o pulmão, sem passar pelo coração”, explica Sandra.

As cirurgias mais complexas são feitas pelo médico paulista José Pedro da Silva, um dos maiores especialistas em cirurgia cardíaca do País.

“Ele treinou a nossa equipe e é acionado toda vez que há casos mais graves”, diz Sandra. Silva é o criador da cirurgia de Ebstein, que trata pacientes com malformação congênita na válvula tricúspide, que separa o átrio do ventrículo direito do coração.

 

“Essa válvula tem de conter o sangue, impedir que ele volte para o coração. Na anomalia de Ebstein, o sangue quase não vai adiante e, o pouco que vai, retorna, fazendo aumentar o coração”, diz Sandra. “A área cardíaca ocupa, em média, de 30 a 35% da caixa torácica. Algumas crianças têm 90% da caixa torácica ocupada pelo coração, o que impede o pulmão de se desenvolver”, explica a coordenadora.

Processo. Para a criança ser operada na clínica particular, ela precisa ser cadastrada na Central Estadual de Regulação de Leitos. Como também são atendidos pacientes do interior do Estado, em alguns casos o transporte é feito por helicóptero, pelo Corpo de Bombeiros.

 

“Hoje não há fila de espera grande no Estado. Algumas crianças aguardam mais tempo porque precisam ganhar peso ou realizar algum exame”, afirma a pediatra Márcia Freitas, superintendente de regulação do Estado. “É uma parceria vitoriosa porque não tínhamos para onde mandá-las. Os serviços que temos – o Instituto Nacional de Cardiologia e o Instituto Estadual de Cardiologia Aloysio de Castro – já não davam conta.”

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