Essam Al-Sudani/Reuters
Essam Al-Sudani/Reuters

Conversa explicativa e lúdica pode amenizar teste de covid-19 em crianças

Colocar um longo cotonete em área profunda dentro do nariz pode ser assustador para os pequenos; a dica é contar exatamente o que vai acontecer e a importância do exame

Ludimila Honorato, O Estado de S.Paulo

22 de julho de 2020 | 11h00

SÃO PAULO - Os testes de diagnóstico da covid-19 podem se tornar mais comuns entre crianças à medida que elas forem voltando para a escola e tiverem mais contato com outras pessoas. Para identificar o vírus ativo no organismo, o mais indicado é fazer o exame molecular, pelo método RT-PCR, mas a coleta de amostra do fundo do nariz pode se transformar em uma experiência ainda mais desconfortável para os pequenos. A melhor dica para amenizar o momento é contar a verdade sobre o procedimento e explicar a importância dele, tudo de maneira lúdica.

Embora o novo coronavírus se manifeste de forma leve ou não apresente sintomas na maioria das crianças, certificar-se da presença dele pode ajudar nas estratégias de retomada das atividades. “Na minha visão, seria mais correto coletar de todas as crianças antes de iniciar as aulas, assim como estão fazendo com esportes, e afastar as que derem positivo”, sugere Marcus Vinicius Martuchelli, pediatra da Clínica Mantelli que também atua na área de infectologia pediátrica na Santa Casa de São Paulo.

A coleta de amostra para o exame consiste em inserir, via nasal, uma haste flexível com ponta de algodão (chamada swab) até a parte mais posterior do nariz, a nasofaringe. É lá que o novo coronavírus mais se concentra no corpo de uma pessoa infectada. Fazer isso de forma correta é uma das partes fundamentais para um resultado preciso. O método já é usado para identificar outros vírus respiratórios comuns em crianças, como o da gripe e o sincicial respiratório, que causa bronquiolite.

“Se você coletar de maneira superficial, você pode muitas vezes não estar coletando no local certo, então a gente precisa inserir o swab nasal até chegar na porção bem detrás do nariz. Se não fizer nessa região, o exame pode vir de maneira negativa, mas falso. O exame tem de ser coletado de maneira bem rigorosa, ele é muito desconfortável e não tem muito como diminuir isso”, comenta a otorrinolaringologista Milena Costa. Se já é desagradável para adultos, algumas crianças podem sentir o incômodo mais intensamente.

“Na criança é difícil e realmente tem sido um pouco traumático, porque é uma coisa invasiva, está introduzindo algo que é desconfortável. E não é indicado usar anestésico, porque isso pode modificar o resultado da amostra”, alerta Martuchelli. De fato, um estudo indicou que as crianças, geralmente, relatam sentir medo ou ansiedade em relação aos serviços de saúde, além de intervenções estressantes as afetarem psicologicamente. Outro artigo estima que 25% dos adultos têm medo de agulhas e a maioria desenvolveu esse sentimento ainda na infância.

A estratégia, então, para evitar traumas é ser claro e verdadeiro com os pequenos, usando uma linguagem que eles entendam facilmente. Foi o que a autônoma Cecília Ferreira, de 30 anos, fez para tranquilizar o filho Gustavo, de 4 anos, na hora de realizar o exame para covid-19. Em casa, ela preparou o menino para o dia, assim como costuma fazer antes de qualquer outra consulta. De forma simples, explicou a importância do exame e tentou não deixá-lo ansioso.

“A gente tem algumas rotinas com ele de lavagem nasal, então foi acostumando desde pequeno. Sempre foi na base de explicar e tentar acalmá-lo, dizer que está junto dele”, conta Cecília. No dia combinado, mãe e filho fizeram o exame. “A gente deixou ele ver como era e o doutor Marcus até ofereceu para ele ajudar a colher o meu para ele ficar mais tranquilo na hora de colher o dele.”

Manejar a ansiedade das crianças também é importante, diz Marco Aurélio Sáfadi, presidente do Departamento de Infectologia da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP). “Não precisa ficar alimentando a ansiedade com muita antecedência, não precisa avisar uma semana antes”, orienta. Outro comportamento que ele indica evitar é criar histórias para a criança que não têm a ver com o exame. “Eu sou favorável a sempre falar a verdade, mentir é a pior coisa. Omitir, inventar histórias é pior porque ela perde a credibilidade nos pais e no profissional. No futuro, vai ter problema.”

Como explicar o teste de covid-19 para crianças

Na Santa Casa de São Paulo, os médicos adotaram a prática de realizar teste molecular para covid-19 em todas as crianças que são internadas no local, independente do motivo. O pediatra Marcus Vinicius Martuchelli diz que tentar transformar o momento em algo lúdico ajuda. “A gente procura mais conversar com a criança, mostrar o cotonete, falar que vai ser um exame rápido, que não vai furar, mostrar o que vai fazer, tentar fazer uma brincadeira. Falar ‘vamos ajudar o tio a achar se tem um bichinho aí?’. Isso tem sido menos traumático”, relata.

Além das crianças, os pais também precisam de orientação, porque podem ficar tão ou mais ansiosos do que os filhos. A recomendação para eles é colocar a criança sentada de forma que ela fique na lateral do adulto, que precisará segurar os braços e a cabeça dela. Quem faz a coleta tentará realizar o procedimento da melhor e mais rápida forma possível. “Os pais, até por curiosidade, deixam fazer (o exame nos filhos), não acham isso muito invasivo, e até preferem que faça para tomar os devidos cuidados se tiver avós em casa ou alguém que seja do grupo de risco”, comenta Martuchelli.

Manter a criança parada é importante para que o processo seja rápido e preciso, mas nem sempre isso é viável. Ainda assim, mostrar que tudo está bem e manter a calma é fundamental. Eventualmente, ao se mexer muito, o cotonete dentro do nariz pode incomodar ainda mais, talvez machucar e fazer sangrar um pouco porque a região é muito vascularizada, mas nada que seja grave.

Para o pequeno Gustavo, tudo acabou bem. Cecília relata que, no momento do procedimento, ele ficou mais interessado em saber se o cotonete ia fazer doer, se tinha gosto ou cheiro. “Na hora é incômodo, ele reclamou um pouco, mas entendeu e acabou sendo melhor do que eu esperava”, ela conta. Agora, enquanto aguardam o resultado e ele fica perguntando se tem ou não o bichinho, a mãe diz que o menino “briga” para expulsar o vírus e está “viciado” em usar álcool em gel por entender a importância de se preocupar com a situação.

Realidade virtual e ambiente acolhedor

Na cidade de São Paulo, as unidades do laboratório Hermes Pardini em Santana e no Morumbi contam com óculos de realidade virtual que foram adotados inicialmente para amenizar a hora de aplicar vacinas em crianças. Agora, ele vem sendo usado para qualquer tipo de coleta, podendo inclusive servir para o teste RT-PCR da covid-19. A recomendação é que sejam usados em crianças a partir de 2 anos de idade, pois antes disso o item fica muito grande para elas e a história visualizada nas lentes não é compreendida.

Já o laboratório Delboni Auriemo aposta em um ambiente lúdico com personagens da turma do Scooby-Doo nas 26 unidades da rede. O objetivo é fazer com que a experiência da criança durante exames, vacinas e testes seja divertida em vez de provocar ainda mais medo e apreensão. Os óculos de realidade virtual também tinham sido adotados para vencer o medo de agulha, mas as equipes resolveram descontinuar o uso para reduzir a quantidade de itens em circulação e compartilhamento entre pacientes.

No caso do Grupo Fleury, a maior parte do atendimento às crianças tem sido pelo drive-thru, uma vez que os pais se preocupam em levar os filhos às unidades de saúde. Embora essa maneira não seja a mais adequada para amenizar o medo, os profissionais atuam para tranquilizá-los ao máximo e pedem para que o adulto fique ao lado da criança no momento da coleta, até mesmo para ajudar a segurá-la. “A gente continua incentivando (os profissionais) para trazer a questão do lúdico, perguntar o personagem que a criança mais gosta e estabelecer uma conexão para que ela não lembre daquilo como um trauma”, explica Janaína Barrancos, gerente corporativa de Processos de Enfermagem da rede.

Em termos de procedimentos, ela diz que o grupo passou a adotar, para crianças e adultos, um swab ultrafino e mais flexível que facilita a coleta e gera menos desconforto. Se a criança resiste ou o equipamento não chega até a nasofaringe, os profissionais de saúde fazem a coleta da região onde alcançam e complementam com uma coleta de orofaringe, ou seja, da garganta. Para os muito pequenos, a técnica é fazer um lavado nasal com soro fisiológico, em que o líquido é posto em uma seringa e injetado em uma das narinas. Com a pressão, o produto sai pela outra narina carregando o material da amostra.

Covid-19 em crianças

O novo coronavírus pode infectar qualquer pessoa, de qualquer faixa etária, mas enquanto idosos tendem a desenvolver um quadro mais grave, as crianças têm menos chance de complicações sérias quando comparadas a adultos. O que preocupa pediatras brasileiros e não havia sido descrito por estudos asiáticos é uma síndrome inflamatória ligada à covid-19.

“É um desfecho que se tem visto em crianças, que não ocorre junto com a infecção, costuma ocorrer algumas semanas depois, como se fosse um evento consequente de uma resposta imune mais aberrante e tem gerado hospitalização em UTI e até morte, mas é um evento raro”, explica Marco Aurélio Sáfadi, presidente do Departamento de Infectologia da SBP.

Ele ressalta que a maioria das crianças apresenta formas leves da doença, além de transmitirem menos o vírus, segundo pesquisas. Um amplo estudo realizado na Coreia do Sul mostrou que menores de 10 anos de idade propagam o vírus com muito menos frequência do que os adultos, mas o risco não é zero. Já em idade entre 10 e 19 anos, o contágio para outra pessoa ocorre do mesmo modo que em adultos.

“Tem lacunas no conhecimento porque, na maioria dos países, as escolas estavam fechadas, mas, até o momento, o papel das crianças tem sido menor que dos adultos. Adolescente é um pouco diferente, tem papel que é mais relevante na transmissão”, completa Sáfadi.

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