Convívio com animais tem efeito curativo

Cerca de 31 milhões de lares brasileiros têm hoje um animal de estimação. Segundo dados da Associação Nacional dos Fabricantes de Alimentos para Animais de Estimação (Anfal), são 28 milhões de cães, 12 milhões de gatos e 4 milhões de outros animais, entre peixes, iguanas, hamsters, serpentes e outros mais incomuns. Isso equivale a um animal de estimação para cada cinco pessoas. Muitas delas nem imaginam o quanto essa convivência com os bichos é importante para a saúde e qualidade de vida. Nem ouviram falar na Terapia Assistida por Animais, que, segundo a Delta Society, organização internacional com sede nos Estados Unidos, é capaz de promover melhoras físicas, sociais, emocionais e cognitivas.Não importa. Não é preciso fazer esse tipo de tratamento nem acompanhar as novidades em terapia para comprovar esses benefícios. Que o diga Catarina Rosdaibida Pinto Gomes (foto), de 9 anos, depois das transformações surgidas da convivência com Penélope, uma labradora da cor chocolate que a pré-adolescente ganhou no Natal de 2004. A relação com os amigos ficou mais divertida. Catarina, que mora na Vila Sônia, na zona oeste de São Paulo, agora vai muito mais à casa das amigas do colégio. "Nós combinamos encontros quando estamos passeando com os cachorros na praça." As conversas ganharam novos assuntos. "A maioria dos meus colegas de escola tem cachorro e nós conversamos muito sobre isso." Os especialistas concordam que a convivência com animais de estimação é benéfica para o desenvolvimento humano, principalmente na infância. Ao lidar com um animal, as crianças aprendem e desenvolvem suas relações afetivas, influenciando sua forma de se relacionar com outras pessoas, com respeito e compreensão.Segundo o psicólogo Hélio José Guilhardi, a relação com um animal é uma metáfora das relações humanas. Um cachorro, por exemplo, requer cuidados, alimentação, vacinas, banho e carinho. "Eles são dependentes, precisam de nós. Fazem com que nos lembremos dos enfermos, dos velhos, das crianças, de quem precisa de ajuda. Nos tornam mais generosos e compreensivos". Por outro lado, o cão retribui essa atenção com carinho, dando e permitindo o exercício do afeto. "As duas coisas auxiliam no desenvolvimento da afetividade", diz.Catarina conta que ficou muito mais responsável com a chegada da Penélope. "Principalmente no começo, quando eu limpava o cocô dela e a levava para passear todos os dias. Isso foi muito bom porque eu até emagreci. Sem falar que antes eu tinha medo até daqueles cachorros salsichinhas."O medo foi o maior motivo de hesitação na hora em que a professora Simone Passador Iotti, de Jundiaí (SP), teve de decidir se atenderia ou não ao pedido do filho Rafael, 12 anos, para ter um cachorro de estimação. "Na infância fui mordida por um pastor alemão e fiquei com pavor de qualquer tipo de cão. " No entanto, ela não achou justo privar Rafael da alegria de ter um animal de estimação. Há três anos resolveu enfrentar seu temor e comprou uma poodle, a Lili. "No começo, eu tinha medo dela, mas aos poucos fui perdendo, a Lili foi me conquistando e hoje só quer saber de mim."Em seu livro "Biofilia", o zoologista americano Edward Wilson, professor do Museu de Entomologia da Universidade de Harvard, diz que essa atração pelos animais é inerente à condição humana. Segundo Wilson, somos humanos, em grande parte, por causa da forma particular com que nos relacionamos com outros seres vivos, não só animais, mas também as plantas. Somos capazes de estabelecer, com outros seres vivos, laços de afeto e carinho. Assim, a capacidade de amar define a própria condição de ser humano. Relações perigosas - Há casos em que essa relação, porém, entra em um terreno perigoso. O animal de estimação é, muitas vezes, tratado como se fosse uma pessoa, um membro da família. As pessoas sentem nos seus animais o carinho, o afeto que muitas vezes não encontram nas relações com outros seres humanos. Em uma sociedade cada vez mais egoísta, as pessoas passam a sentir falta de ter relações com alta dose de amor altruísta, que não peça nada em troca. Os animais, por exigirem menos atenção e afeto, tomam uma ponta nessa parceria, substituindo uma relação madura com as pessoas. "É um substituto móvel. É melhor ter um cachorro do que um urso de pelúcia", diz o psicólogo. "É um afeto egoísta, é pouco afeto em relação ao que exige uma pessoa", diz Guilhardi, "e reflete uma mudança lamentável na sociedade". Esse comportamento é resultado de uma crescente incapacidade de lidar com a solidão. Se o bicho de estimação for encarado como uma motivação, um ponto de partida para desenvolver a habilidade de estabelecer relação com outras pessoas, é uma atitude válida. Mas quando é um fim em si mesmo, "é apenas um remédio para minimizar a dor da solidão e carência de afeto, mas não é solução", diz o especialista. Em muitos casos, a pessoa estabelece uma relação tão próxima com seu animal de estimação que não apenas o tem como substituto de uma relação humana, mas chega a sacrificar sua vida social em razão desse animal. É quando deixa de sair, conversar com outras pessoas, estabelecer novas relações sociais e explorar outras possibilidades. Ela se refugia no afeto seguro do seu animal de estimação por incapacidade ou medo de estabelecer outros relacionamentos. Terapia - Além do afeto, os bichos também podem produzir outros benefícios para a saúde. É nisso que se baseia a Terapia Assistida por Animais. Segundo a Delta Society, organização internacional com sede nos Estados Unidos que se dedica a reunir pacientes a animais treinados, as terapias assistidas por animais são capazes de promover melhoras físicas, sociais, emocionais e cognitivas humanas.Nesse tipo de tratamento, o convívio com algum animal é incentivado para acelerar os resultados de tratamentos tradicionais. Diversas pesquisas mostram que o convívio com animais pode reduzir a incidência de asma e depressão, diminuir a pressão arterial e o estresse e facilitar o tratamento de deficiências motoras. Mas o maior benefício é para o sistema imunológico. Isso porque a presença de um animal provoca alegria, o que aumenta os níveis de endorfina no organismo. A endorfina age diretamente no sistema de defesa, fortalecendo a saúde geral e melhorando a reação do corpo às doenças. Com base nesses resultados, diversas entidades se dedicam a promover o encontro de pacientes com animais. É o caso do Projeto Cão do Idoso, que leva cães para visitarem idosos em casas de repouso e abrigos, atendendo a cerca de 150 pessoas em São Paulo. Também bastante reconhecidos são os resultados obtidos na equoterapia, que utiliza o cavalo para obter ganhos físicos e psicológicos para os pacientes. Em Brasília, a Associação Nacional de Equoterapia promove e incentiva esse tipo de tratamento, que busca o desenvolvimento de pessoas portadoras de deficiência ou com necessidades especiais (Colaborou Rejane Lima/AE).

Agencia Estado,

31 de março de 2006 | 16h00

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