Taba Benedicto/Estadão
Taba Benedicto/Estadão

Coragem e apoio ajudaram Giovanna Massera a aceitar suas marcas

O tratamento para o lúpus deu fim às suas dores, mas causou estrias que atingiram em cheio a autoestima da estudante de moda

Ana Lourenço, O Estado de S.Paulo

09 de abril de 2022 | 05h00

Ainda na infância, Giovanna Massera passou a sentir muitas dores nas juntas e reclamava de febre constantemente. Depois de uma bateria de exames, o diagnóstico foi de lúpus sistêmico. Porém, ao contrário do que se pode imaginar, o mais difícil para Giovanna não foi lidar com a doença em si, mas sim com as marcas que ficaram no corpo. O tratamento, à base de corticoides, fez com que sua pele ficasse com muitas estrias. “Foi muito mais difícil porque eu sabia que poderia ficar melhor do lúpus. Mas não tinha como meu corpo voltar a ser o que era antes”, diz. O processo de aceitação e resgate do amor-próprio foi demorado, como ela conta em entrevista por telefone.

Com 12 anos, Giovanna Massera teve de aprender a lidar com as limitações de seu corpo. “Não conseguia mais correr, pular que nem criança, sabe? Sentia dor todos os dias”, conta. Até descobrir a razão dessas dores – o lúpus sistêmico – foi um longo processo. Afinal, o diagnóstico costuma demorar, já que os sintomas são parecidos com os de outras enfermidades. 

O lúpus sistêmico é uma doença autoimune na qual as células de defesa do corpo atacam seus próprios tecidos. No caso de Giovanna, cérebro, coração, pâncreas e parte dos pulmões foram os mais afetados. 

Para garantir um bom tratamento, Giovanna teve de consumir corticoides. No entanto, apesar de serem essenciais neste caso, os remédios possuem efeitos colaterais, como aumento de apetite, inchaço, e estrias largas. Isso porque o medicamento inibe as células da pele responsáveis pela produção de colágeno

“Senti que lutei tanto contra uma doença e quando ‘acabou’ havia outra luta contra os olhares alheios”, diz. Por essa razão, Giovanna diz que o mais difícil não foi enfrentar o lúpus, e sim as estrias que vieram como consequência do tratamento. 

“Eu não me sentia uma pessoa normal. Nunca tinha visto nada daquilo, não sabia o que estava acontecendo. E a minha família não entendia o quanto afetava minha autoestima e como aquilo causou uma depressão muito forte em mim”, conta. “Não era só lidar com a doença, era como se eu tivesse perdido minha humanidade, porque não me sentia uma pessoa comum, me sentia uma aberração.” 

Na tentativa de escapar dos olhares e das perguntas indesejáveis, Giovanna se escondia em roupas largas e blusas de moletom. Regatas, saias e vestidos passavam longe de seu guarda-roupa. “Eu preferia passar mal de tanto calor do que as pessoas me verem”, lembra. O medo que alguém percebesse as marcas indesejadas em seus braços e joelhos era grande e constante. 

ACEITAÇÃO

Giovanna tinha muita vontade de mudar totalmente seu corpo, no entanto, a situação não era favorável no seu caso. “Logo na primeira consulta com o dermatologista, ele me disse que não tinha muito o que fazer, pois além da cirurgia plástica ser muito difícil de conseguir pelo SUS, era muito perigoso para o lúpus, que poderia entrar de novo em atividade”, recorda ela.

Sem possibilidade de se transformar externamente, ela encarou uma mudança interna. Em 2017, depois de sete anos vivendo com a doença, Giovanna decidiu que era hora de começar a viver como as outras pessoas. 

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Ter uma doença é muito visto como algo anormal, mas eu acho o contrário. É o que nos faz mais humanos ainda
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Giovanna Massera, Criadora de conteúdo e estudante de moda

“Eu sabia que não dava mais para continuar daquele jeito”, conta. Não foi fácil aguentar as perguntas, os olhares e as chacotas, mas com as redes sociais e o apoio que veio de outras pessoas com problemas similares, as coisas começaram a melhorar. “Eu só passei a me aceitar mais quando falei nas redes sociais. O primeiro lugar que eu postei era um grupo no Facebook, e foi tipo um desabafo. Eu estava no meu limite, bem revoltada. E decidi mostrar o meu corpo. E as pessoas me acolheram, o que foi superimportante.”

Hoje, a criadora de conteúdo e estudante de moda acredita que ajuda os outros com as informações que não teve: desde fatos sobre o lúpus até processos de autoestima. 

“Eu passo muito da minha vivência, mas quero falar também sobre outras pessoas, porque cada um tem um caso. Não existe regra no lúpus. Mas ajudo também pessoas que não sabem lidar com o corpo quando mostro minhas marcas”, revela. “É engraçado, porque ter uma doença é muito visto como algo anormal, mas eu acho o contrário. É o que nos faz mais humanos ainda.”

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