Robson Fernandjes/Estadão
Robson Fernandjes/Estadão

Coreano quer clonar cães e vacas no Brasil

Parte de uma das maiores fraudes da história da ciência ainda quer produzir células-tronco embrionárias

Herton Escobar, O Estado de S. Paulo

17 Maio 2014 | 03h00

Woo Suk Hwang, o cientista coreano que, dez anos atrás, protagonizou um dos maiores escândalos de fraude na história da ciência moderna, quer desenvolver pesquisas no Brasil ligadas às áreas de biomedicina, cosméticos e biotecnologia animal - incluindo a clonagem de cachorros e vacas.

"O Brasil tem um potencial enorme na área de biotecnologia. Estamos conversando com possíveis colaboradores interessados, incluindo cientistas e empresários", disse Hwang ao Estado nesta sexta-feira, 16, com exclusividade, durante uma rápida visita ao País. Segundo ele, foi sua primeira entrevista concedida a um jornalista estrangeiro (de fora da Coreia) em vários anos. "Os detalhes, eu só poderei revelar num futuro próximo", completou, com um sorriso no rosto.

Dez anos atrás, em fevereiro de 2004, Hwang também tinha motivos de sobra para sorrir, graças à publicação de um trabalho na revista Science que relatava a primeira obtenção de células-tronco embrionárias humanas clonadas de uma pessoa adulta - um feito histórico, que trazia a expectativa de cura para várias doenças. Um ano depois, mais sorrisos, com um segundo trabalho que relatava a obtenção de mais 11 linhagens celulares clonadas.

No fim de 2005, porém, a felicidade desapareceu do rosto de Hwang, com a revelação de que ambos os trabalhos haviam sido fraudados. Ele caiu em desgraça, mas se reergueu e agora dirige um grande centro de biotecnologia em Seul, o Sooam Biotech, que tem como maior destaque a clonagem comercial de cachorros. Apesar do novo "sucesso", ele garante que não está satisfeito. "Quero uma nova chance", diz.

Olhando para trás, o que o senhor pensa de tudo que aconteceu, no escândalo das células-tronco? Tem algum arrependimento? Faria algo diferente?

Eu passei por momentos muito difíceis, muitas dificuldades nos últimos dez anos. Mas essas dificuldades fizeram de mim um cientista mais forte e uma pessoa mais humilde.

O senhor acha que merece ser confiado de novo como cientista?

Espero que sim. Quero muito continuar minhas pesquisas com células-tronco embrionárias humanas, se a sociedade coreana entender e concordar com isso. Se o governo coreano me der autorização para retomar essas pesquisas, garanto que farei isso com um postura muito mais humilde.

Afinal, o que aconteceu? As células-tronco eram verdadeiras ou não? O senhor admite alguma irregularidade nos trabalhos?

Acredito fortemente que a primeira linhagem que produzimos era verdadeira. Concordo que havia problemas nos dados e nas imagens, mas acredito que a natureza das células estava correta, que eram realmente células-tronco humanas embrionárias e clonadas.

E quanto ao segundo trabalho, com as 11 linhagens?

Foi tudo fabricado, mas eu não tinha conhecimento disso na época. Um dos meus colaboradores, de um outro hospital, cometeu alguns erros.

Qual é a sua ‘missão pessoal’ hoje, como cientista?

Quero produzir minha segunda, e terceira, linhagem de células-tronco embrionárias humanas, usando minha própria tecnologia. E quero ter uma chance de usar essas células para curar doenças incuráveis no futuro. Esse é meu desejo maior como cientista.

E quanto à clonagem de cachorros no seu centro em Seul: é ciência ou negócio?

Quando clonamos o primeiro cão, Snuppy, em 2005, a taxa de sucesso da clonagem era inferior a 1%. Hoje, passamos de 35%; então posso dizer que a clonagem de cachorros deixou de ser ciência e passou para a escala industrial. Já clonamos mais de 600 adorados cães no nosso centro.

E esse é um dos serviços que o senhor quer trazer para o Brasil?

Sim. Também quero usar minhas tecnologias de clonagem para abrir uma era de pesquisa na indústria biomédica, especialmente no Brasil. Há um potencial enorme para isso aqui nos setores de bovinos e suínos. Um dia o Brasil será o líder mundial no uso da tecnologia de clonagem animal para aplicação nas indústrias de biomedicina e biotecnologia.

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