Tiago Queiroz/Estadão
Coronavac é fabricada no Instituto Butantan Tiago Queiroz/Estadão

Coronavac: tire suas dúvidas sobre o atraso na segunda dose da vacina contra a covid-19

Especialistas falam que tomar o reforço até seis semanas depois da primeira dose não traz prejuízos à imunização, mas alertam que não dá para esperar indefinidamente

Mariana Hallal, O Estado de S.Paulo

17 de maio de 2021 | 16h27

O Instituto Butantan paralisou a produção da Coronavac na última sexta-feira, 14, por falta de insumos para a fabricação e milhões de brasileiros estão com a segunda dose em atraso. Especialistas falam que tomar a segunda dose até seis semanas depois da primeira não traz prejuízos à imunização, mas alertam que não dá para esperar indefinidamente pelo reforço da vacina.

Leia abaixo perguntas e respostas sobre o assunto.

Por que a Coronavac está em falta no Brasil?

No dia 20 de março, o Ministério da Saúde, ainda sob o comando do general Eduardo Pazuello, emitiu uma nova diretriz para aplicar todas as doses de Coronavac assim que elas forem entregues aos Estados e municípios, sem guardar o necessário para a segunda dose. Até aquele momento, a orientação era reservar metade das vacinas para aplicação das segundas doses dentro do período recomendado, de 14 a 28 dias.

Na época, a pasta foi criticada por especialistas que alertavam para possíveis atrasos na aplicação da segunda dose, exatamente o que está acontecendo no momento.

Na última sexta-feira, 14, o Instituto Butantan concluiu a entrega das 46 milhões de doses da Coronavac previstas no primeiro contrato com o Ministério da Saúde. Ainda assim, o número não foi suficiente para cobrir o déficit de vacinas no País. 

Atualmente, a produção da Coronavac está paralisada no Brasil por falta de Insumo Farmacêutico Ativo (IFA), que é importado da China. Segundo o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), há 10 mil litros de IFA, suficientes para produzir 18 milhões de doses de Coronavac, aguardando liberação do governo chinês para ser exportada ao Brasil. No entanto, ele diz que “entraves diplomáticos” causados pelo presidente Jair Bolsonaro e sua equipe atrapalham a liberação do insumo.

Vai ter doses suficientes de Coronavac para quem aguarda a segunda dose?

Uma nova remessa de Coronavac aos Estados depende da retomada da produção da vacina. Isso só vai acontecer depois que a China liberar a exportação do Insumo Farmacêutico Ativo ao Brasil. O Butantan espera entregar 5 milhões de doses durante o mês de maio, o que deve ser suficiente para cobrir o déficit atual de vacinas.

A primeira dose da Coronavac dá algum grau de proteção?  

Mellanie Fontes-Dutra, biomédica e neurocientista pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e divulgadora científica pela Rede Análise COVID-19, fala que a primeira dose da vacina já garante uma certa proteção contra o vírus. "Estudos indicam que 14 dias após a primeira dose é possível observar uma proteção conferida pela vacina. Mas precisamos lembrar que tomar as duas doses no intervalo de até 21 dias é muito importante para uma proteção mais abrangente e potencialmente mais duradoura", disse.

Um estudo feito em Manaus com 67.718 trabalhadores da saúde mostrou que a Coronavac tem 50% de efetividade contra casos sintomáticos da doença após 14 dias da primeira dose. No entanto, para que a pessoa atinja a imunidade esperada, é necessário cumprir o esquema vacinal de duas doses.

A eficácia diminui se a aplicação da segunda dose atrasar?

De acordo com Paola Minoprio, doutora em Imunologia pela Universidade Pierre e Marie Curie (França), não há grandes problemas em atrasar um pouco a segunda dose. “O sistema imunológico não conhece dias, conhece processamento. Se o reforço atrasar um pouquinho, não tem problema, porque o sistema vai ser capaz de reconhecer esse reforço e de preparar a resposta”, diz.

Ela explica que os estudos da Coronavac analisaram um intervalo de 14 dias entre a primeira e a segunda dose. No entanto, tomar a segunda dose até seis semanas após a primeira não deve trazer prejuízos. “Mas também não podemos esperar indefinidamente”, aponta.

Mellanie reforça que ainda não há dados contundentes para intervalos maiores entre as doses. "Desta forma, precisamos seguir o regime indicado pela agência reguladora e por essas bulas. Mas, atrasos de poucas semanas, que fiquem próximos do intervalo estabelecido, possivelmente terão pouco impacto na proteção", diz.

Por outro lado, o imunologista Jorge Kalil, professor da Faculdade de Medicina da USP, acredita que ampliar o prazo de aplicação entre as doses da Coronavac poderia conferir maior grau de proteção. "Apesar de não ter sido testado, a gente sabe disso por outros tipos de vacina", fala.

Qual o prazo para a segunda dose da Coronavac?

De acordo com os estudos realizados sobre a vacina, o ideal é que a segunda dose seja aplicada entre 14 e 28 dias após a primeira.

Por que o intervalo para a segunda dose da Coronavac é menor em comparação a outras vacinas?

O doutor Kalil explica que os estudos foram feitos com o intervalo de 14 dias porque havia pressa pela aprovação da vacina.

Inicialmente, o intervalo previsto entre a primeira e a segunda dose das vacinas de Oxford/AstraZeneca e da Pfizer também era mais curto, mas com o tempo os pesquisadores perceberam que um prazo maior para aplicação do reforço poderia ser mais benéfico.

É necessário repetir a primeira dose se a segunda atrasar?

A doutora Minoprio e o doutor Kalil afirmam que não é necessário repetir a primeira dose. 

Posso tomar a segunda dose de outra vacina?

Alguns países, como o Reino Unido, estão conduzindo estudos sobre as consequências da combinação de diferentes vacinas contra a covid-19. No entanto, ainda não há resultados dessas pesquisas e até o momento essa interação entre os imunizantes é desconhecida.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) não recomenda a mistura de vacinas diferentes. No início do ano, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) afirmou que "estudos clínicos em andamento não contemplam a previsão de intercambialidade de vacinas”.

Coronavac é eficaz contra novas variantes?

Resultados preliminares de um estudo feito com 67.718 trabalhadores da saúde de Manaus mostram que a Coronavac é eficaz contra a variante P.1. Segundo a pesquisa, a vacina tem 50% de efetividade contra casos sintomáticos da doença após 14 dias da primeira dose.

Segundo Gabriel Maisonnave Arisi, professor na Escola Paulista de Medicina (Unifesp), os imunizantes de vírus completo inativado, como a Coronavac, provavelmente são menos vulneráveis às variantes.

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Com escassez de vacinas, número de pessoas com 2ª dose atrasada triplica e chega a 5 milhões

Um mês atrás, Ministério da Saúde havia informado que 1,5 milhão de brasileiros estavam com a segunda aplicação em atraso; problema foi agravado por desabastecimento da Coronavac

Fabiana Cambricoli, O Estado de S.Paulo

18 de maio de 2021 | 10h00

SÃO PAULO - Em meio à falta de vacinas contra a covid-19, o número de brasileiros que estão com a segunda dose do imunizante atrasada triplicou em um mês e já chega a 5 milhões, segundo levantamento feito pelo Estadão na base de dados de vacinados do Ministério da Saúde, disponível no site Open Datasus.

No dia 13 de abril, o órgão federal informou que cerca de 1,5 milhão de pessoas não haviam retornado no prazo para tomar a dose de reforço. Na segunda quinzena do mesmo mês, centenas de cidades tiveram que interromper a aplicação da Coronavac por causa do atraso na entrega de novos lotes do produto. Essa é uma das principais razões apontadas por gestores locais para o aumento expressivo do número de pessoas com esquema vacinal incompleto.

Os dados levantados pelo Estadão, porém, incluem qualquer caso de segunda dose fora do prazo: tanto pessoas prejudicadas pela falta do imunizante quanto aquelas que não retornaram ao posto por razões pessoais (esquecimento, desistência etc).

Segundo análise da reportagem, são 4.519.973 pessoas com a segunda dose da Coronavac atrasada e outras 532.737 com o imunizante da AstraZeneca/Oxford fora do prazo. A primeira tem intervalo máximo recomendado de 28 dias entre as duas doses. No caso da segunda, o período recomendado é de 12 semanas, mas a maioria das unidades de saúde tem arredondado e agendado a segunda aplicação para depois de 3 meses/90 dias - prazo considerado na análise.

O Sudeste é a região com o maior número de pessoas com a segunda dose atrasada, com 49,5% dos casos. Em seguida, aparece o Nordeste e Sul, com 24,1% e 15,3% do total de indivíduos com o imunizante fora do prazo, respectivamente. Centro-Oeste (5,9%) e Norte (5%) completam a lista.

O levantamento do Estadão leva em conta os dados preenchidos até 14 de maio, mas considerou para o cálculo de doses atrasadas apenas aqueles registros de pessoas que deveriam ter recebido a injeção até o dia 8 de maio. Isso porque o tempo médio entre a aplicação e a notificação no sistema federal é de seis dias. A reportagem excluiu da análise ainda os registros em que um mesmo paciente aparece com três doses ou mais, o que pode caracterizar falha no preenchimento ou fraude.

Como alguns Estados têm maiores dificuldades para informatizar os registros, é possível que algumas das pessoas que aparecem com a segunda dose atrasada já tenham finalizado o esquema vacinal, mas ainda não tenham sido registradas no sistema. A análise, no entanto, mostra um número expressivo de pessoas com a segunda dose atrasada há semanas, o que mostra que o alto número de pessoas sem dose de reforço não é reflexo somente do atraso no preenchimento dos dados.

Entre os 4,5 milhões que estão com a segunda dose da Coronavac atrasada, por exemplo, 1,7 milhão já espera a segunda aplicação há mais de 20 dias além do prazo máximo previsto em bula. Destes, há 379,2 mil pessoas que estão com a dose de reforço atrasada há mais de dois meses.

Embora o Ministério da Saúde e especialistas afirmem que um atraso de poucos dias entre as doses não deva comprometer a eficácia do imunizante, não há estudos ainda que confirmem qual seria o atraso máximo tolerado e se pessoas que demoram meses para receber a segunda aplicação deverão reiniciar o esquema vacinal.

A vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), Isabella Ballalai, diz que, além do risco de queda na eficácia e de “perda” de uma dose no caso de necessidade de reiniciar a vacinação, o atraso da segunda dose também preocupa porque deixa a população que já tem direito ao imunizante desprotegida por mais tempo. “A vacina só vai atingir a eficácia desejada após a segunda dose. Enquanto isso, a pessoa fica por mais tempo suscetível à infecção”, diz. 

A especialista diz que isso é especialmente preocupante no caso da Coronavac, que tem uma eficácia menor com apenas uma dose. Os estudos clínicos demonstraram que a taxa de proteção 28 dias após a primeira aplicação é menor que 50%, mas chega a 62,3% duas semanas após a aplicação da segunda dose se o intervalo entre as duas injeções for de 21 a 28 dias.

Já a vacina de Oxford/AstraZeneca confere proteção de 76% depois de 22 dias da primeira dose. O nível de anticorpos, no entanto, começa a cair após 90 dias, por isso a recomendação pela dose de reforço depois de 3 meses.

Orientação federal de não reservar 2ª dose atrapalhou, diz representante dos municípios

O presidente da Confederação Nacional de Municípios (CNM), Glademir Aroldi, afirma que o principal motivo do alto número de segundas doses em atraso é a falta de imunizantes. “Em março veio uma orientação do Ministério da Saúde para que as Prefeituras usassem todas as doses enviadas para a aplicação de D1 e não reservassem mais as D2 daqueles que já tinham tomado. Isso prejudicou muito”, diz ele.

De fato, o ministério orientou, na ocasião, os gestores municipais a utilizarem todas as doses disponíveis para acelerar a campanha, sem considerar que o cronograma de entrega da Coronavac poderia sofrer atrasos, impactando a oferta de vacinas para a conclusão do esquema vacinal.

Na segunda quinzena de abril, foi justamente isso que aconteceu. Prejudicado pela demora no envio do ingrediente farmacêutico ativo (IFA) da China, o Instituto Butantan, produtor da Coronavac no Brasil, não entregou cerca de 4 milhões de doses esperadas para o mês passado. A entrega foi feita na primeira quinzena de maio, mas, segundo a CNM, não foi suficiente para atender todos que esperavam pela segunda dose.

Pesquisa feita pela confederação com dados de 2.972 municípios e divulgada na última quinta-feira, 13, mostra que ao menos 1.140 cidades relataram ainda sofrer falta de vacina para a aplicação da segunda dose. A grande maioria (1.140) relata escassez da Coronavac, mas há também 90 prefeituras que responderam estar desabastecidas do imunizante de Oxford/AstraZeneca.

Aroldi diz ainda que a falta de uma campanha de comunicação liderada pelo ministério tem dificultado a orientação da população sobre as datas e a importância da segunda dose. “Cada cidade está fazendo de um jeito. Algumas agendam, outras só informam a data em um cartãozinho. Tem gente que perde o cartão e não volta ao posto”, diz.

Ele cita até casos de pessoas que não voltam à unidade de saúde para a segunda dose com medo de efeitos colaterais da vacina, principalmente depois de relatos de que o imunizante da Oxford/AstraZeneca pode causar coágulos. O evento adverso, no entanto, é raríssimo e não levou à contraindicação do produto. O uso da vacina só está suspenso para gestantes e puérperas.

Por todo o País, multiplicam-se os relatos de pessoas, sobretudo idosos, com a segunda dose atrasada. A servidora pública Lilian Rigo, de 42 anos, conta que a mãe, de 67 anos, espera desde o dia 6 de maio pela segunda dose na cidade de Dores do Rio Preto, no interior do Espírito Santo. “Minha tia morreu há 15 dias de covid e fico com medo pela minha mãe. Fico muito ansiosa de saber que ela poderia já estar protegida e não está por uma desorganização do governo”, diz.

A universitária Letícia Emanuelly, de 19 anos, conta que o avô, de 66 anos, esperou ainda mais tempo. Morador do interior do Rio Grande do Sul, ele deveria ter recebido a segunda dose da Coronavac no dia 28 de abril, mas não encontrou a dose nos postos da sua cidade. O idoso foi finalmente vacinado nesta segunda-feira, 19 dias depois do prazo previsto.

Ele trabalha como vendedor autônomo e tem enfrentado dificuldades para pagar as contas depois de tanto tempo de isolamento. “Ele se frustrou muito com esse tempo todo parado, e até agora esperando a segunda dose pra poder voltar a trabalhar”, conta Letícia.

O Ministério da Saúde orienta todos que estão com a dose atrasada a tomarem o imunizante assim que ele estiver disponível, mesmo que em atraso. Questionado sobre o aumento de pessoas com esquema vacinal incompleto, a ministério afirmou apenas que a orientação é que Estados e municípios “sigam à risca o Plano Nacional de Operacionalização da Vacinação contra a covid-19 (PNO)”, incluindo os informes técnicos que acompanham cada lote e definem os públicos a serem imunizados.

O órgão disse ainda que enviou aos Estados, na semana retrasada, 4,8 milhões de doses de vacinas para atender exclusivamente a segunda etapa de vacinação. Na semana passada, disse o ministério, foram enviadas mais 3,6 milhões de doses para completar o ciclo vacinal. 

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