FELIPE RAU/ESTADAO
Enterro no cemitério da Vila Formosa, na zona leste de São Paulo  FELIPE RAU/ESTADAO

Coronavírus: cemitério de SP já tem mais enterros e abre sepulturas; Prefeitura contrata coveiros

Na Vila Formosa, sepultamentos diários tiveram aumento de 45% e a Prefeitura contratou 220 coveiros para compensar afastamentos

Priscila Mengue e Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

03 de abril de 2020 | 05h00

O aumento das mortes em decorrência do coronavírus em São Paulo modificou a rotina do cemitério da Vila Formosa, o maior da América Latina. Funcionários relatam que o número de enterros diários saltou de 40 para 58 nas últimas semanas, o que significa uma elevação de cerca de 45%. Metade deles relacionada à covid-19. Além disso, os enterros são mais rápidos, a toque de caixa, com menos de dez minutos.

Uma foto aérea de mais de 150 covas rasas abertas repercutiu nesta quinta-feira, 2, após chegar à capa do jornal americano Washington Post. Segundo funcionários, a alta demanda de sepultamentos tem exigido a abertura de cerca de 90 covas por dia, o dobro do habitual. Já a Prefeitura afirma que são abertas 100 covas a cada três dias, o padrão, independentemente da pandemia. Segundo o Município, as sequências de novas valas servem para “auxiliar na agilidade dos sepultamentos e cada necrópole tem dinâmica própria”. 

Só nesta quarta-feira, 1, foram 57 enterros no Vila Formosa. Nesta quinta, mais 52. Os números dos últimos dias superam a média de 40 antes dos tempos de pandemia. “Trabalho aqui há mais de 20 anos. Não me lembro de uma situação como essa”, diz um dos coveiros mais experientes.

No fim da tarde desta quinta, os caixões chegavam com tanta rapidez que os sepultadores tiveram de pedir alguns minutos para terminar um que já ocorria, antes do seguinte. A família teve de esperar. Um dos enterros foi o do aposentado Carlos Eduardo Florencio, de 65 anos. Participaram só duas pessoas, o genro e o cunhado. “O caixão estava fechado, sem visor para vermos seu rosto. A madeira estava lacrada. Na hora da identificação, o corpo estava num saco”, diz o genro, que se identificou como Robson Pereira.

Seu Carlos tinha problemas respiratórios e cardíacos. Ele se sentiu mal, com dificuldades para respirar na terça-feira. Deu entrada no hospital às 20h30 e morreu após uma hora. Segundo Pereira, só uma pessoa foi autorizada pelo Sistema de Verificação de Óbitos a ir ao enterro. Diabética, mas sem sintomas de covid, a mulher de Carlos não foi ao enterro. “É muito ruim ter de despedir assim tão rapidamente. E agora vou ter de fazer quarentena”, diz o genro.

Desde o dia 20, enterros solitários e sem qualquer cerimônia são frequentes. Norma da Secretaria Estadual de Saúde diz que todas as mortes com qualquer suspeita de covid-19 devem seguir protocolo rígido para segurança dos profissionais que lidam com cadáveres.

Mas nem isso tranquiliza os profissionais do cemitério. A chegada de um cortejo com morto por coronavírus na Vila Formosa causa apreensão. “Põe a máscara e o capuz que vem um de corona”, avisa um dos coveiros. Com máscaras e luvas, os familiares mantêm distância; nem todos ficam à beira da cova para o último adeus.

Equipe extra vai compensar afastamentos

Além das covas, a Prefeitura contratou 220 coveiros por seis meses para compensar o afastamento de 60% do efetivo (de 257), formado por idosos (grupo de risco), além de possível alta no total de óbitos. Cinco mil sacos plásticos impermeáveis foram comprados para envolver os corpos de vítimas ainda no hospital.

Na Vila Formosa eram cinco sepultadores até a semana passada. Agora são doze. “Eles estão aprendendo bem, mas ainda estão um pouco assustados. É muita gente chegando todos os dias”, diz um dos profissionais do cemitério.    

Em caso de dificuldades dos municípios na liberação de corpos pelos serviços funerários, causando superlotação, a Secretaria Estadual da Segurança Pública cogita usar contêineres refrigerados locados para abrigar corpos de vítimas de mortes violentas ou suspeitas de crime, cuja necropsia é feita no IML.

Ministério divulga cartilha com orientações

No dia 25, o Ministério da Saúde divulgou uma cartilha com orientação para o manejo de corpos de vítimas suspeitas e confirmadas da pandemia.

Entre as recomendações, estão a não realização de velórios, funerais, embalsamentos, aplicações de formal e necropsias e que, além disso, pessoas do grupo de risco não participem do manejo dos corpos. “Considerando a possibilidade de monitoramento, recomenda-se que sejam registrados nomes, datas e atividades de todos os trabalhadores que participaram dos cuidados post-mortem, incluindo a limpeza do quarto/enfermaria.”

A cartilha também indica que os familiares não cheguem a menos de dois metros dos corpos e, se houver necessidade de aproximação, apenas com máscara, luva e avental de proteção. “Sugere-se, ainda, que, a depender da estrutura existente, o reconhecimento do corpo possa ser por meio de fotografias, evitando contato ou exposição.”

A orientação é que o corpo seja enrolado em lençóis, guardado em um saco impermeável (que impossibilite o vazamento de fluídos) e colocado em um segundo saco, que deve ser desinfetado com álcool 70% ou solução clorada e, depois, identificado como de risco biológico. Se a maca de transporte do corpo for reutilizada, ela precisa ser também desinfetada, enquanto o caixão deverá estar lacrado.

Caso o exame não tenha sido feito em vida, o ministério indica que seja feita a colheita de material biológico da cavidade nasal e da orofaringe para verificar a presença do covid-19. 

“A cerimônia de sepultamento não deve contar com aglomerado de pessoas, respeitando a distância mínima de, pelo menos, dois metros entre elas, bem como outras medidas de isolamento social e de etiqueta respiratória", diz o material.

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Com coronavírus, cemitérios privados reforçam proteção e até treinam funcionários para fazer velório

Sepultamentos reúnem menos pessoas e cerimônias ficaram mais curtas

Felipe Resk, O Estado de S.Paulo

03 de abril de 2020 | 05h00

Entre cemitério particulares de São Paulo, o avanço do novo coronavírus não interferiu até o momento no volume de enterros ou na procura por jazigos na cidade de São Paulo, segundo relatam representantes do setor. Ainda assim, unidades da capital têm adotado uma série de medidas adicionais de segurança e até treinado funcionários administrativos, deixando a equipe de sobreaviso caso seja necessário trabalhar diretamente no sepultamento de vítimas do covid-19.

Por causa da pandemia, o Serviço Funerário, órgão ligado à Prefeitura de São Paulo, limitou velórios a uma hora de duração e proibiu cerimônias com mais de dez participantes ao mesmo tempo. Para casos suspeitos ou confirmados de covid-19, também há recomendação de uso de caixão fechado.

No Memorial Parque das Cerejeiras, no Jardim Ângela, na zona sul, as restrições foram além. Missas, palestras e exumações estão suspensas desde a semana passada para evitar aglomerações. No administrativo, vendas presenciais estão interrompidas. O cemitério abriu mão, ainda, de cobrar taxa de velório por causa da redução de 12 horas para 1 hora de duração.

Na unidade, só houve enterro de um caso confirmado de coronavírus até aqui. “Por enquanto, estamos sentindo que não houve aumento de sepultamentos. Na verdade, se não estiver igual, está até menor”, afirma o gerente comercial Francisco Amaral. “Mas entendemos também que cemitério é serviço essencial e não pode parar a operação se houver agravamento do quadro.”

Cerca de 60 empregados atuam presencialmente, mas foram divididos em três equipes por causa do coronavírus. Cada grupo trabalha por um dia no local e passa outros dois em casa – estratégia para facilitar o isolamento se houver algum caso de infecção.

Com estoque de 6 mil jazigos disponíveis, o Memorial também tem treinado funcionários de outros setores para atuar em enterros. “A mão de obra é o que mais nos preocupa: toda a equipe que não é voltada para o cemitério, em si, está em alerta caso precise ir a campo”, diz o gerente.

No Cemitério Gethsêmani, no Morumbi, zona sul paulistana, o gerente-administrador Nelson Oliveira diz que a pandemia pouco tem mudado a rotina do cemitério, que realiza de três a cinco sepultamentos por dia. “Já tivemos uns três casos de covid-19, mas a rotina está tranquila por enquanto. Não aumentou em nada.”

Segundo Oliveira, funcionários já usavam equipamentos individuais de proteção, como óculos, máscara e luva, mesmo antes do coronavírus. “Estamos lidando com calma, com tranquilidade: evitando aglomerações e tendo um pouco mais de cuidado com a higiene”, afirma.

Entre os representantes de cemitérios, é unanimidade a constatação de que os velórios têm reunido só o grupo familiar mais próximo, reduzindo consideravelmente a presença de pessoas no local. Em casos confirmados de covid-19, os próprios parentes têm optado, ainda, por dispensar a cerimônia e realizar logo o enterro, segundo relatam.

“Se a família quiser muito, a gente só abre o caixão por pouco tempo, em um lugar apropriado para isso. Mas não houve nenhum caso assim”, relata uma funcionária do Cemitério do Carmo, em Itaquera, na zona leste de São Paulo, que optou por não se identificar. “A principal mudança é que precisa usar máscara até na hora do sepultamento. Antes, era só na exumação. No mais, a rotina é praticamente a mesma.”

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Família de enfermeiro morto por Covid viu enterro pela internet; ‘nada mais doloroso’, diz irmã

Idalgo Moura, de 45 anos, ficou cerca de 12 dias na UTI pelo novo coronavírus e chegou a ser tratado com cloroquina; enterro durou menos de 10 minutos

Priscila Mengue, O Estado de S.Paulo

03 de abril de 2020 | 05h00

SÃO PAULO - O enfermeiro Idalgo Moura, de 45 anos, é descrito como alguém que viveu para “servir e cuidar” de todos. Em São Paulo e na Paraíba, tinha “um milhão de amigos” e uma família que o admirava, mas poucos puderam se despedir do profissional de saúde, morto pelo novo coronavírus na terça-feira, 31. A maioria só conseguiu acompanhar o sepultamento, que durou menos de 10 minutos, por uma transmissão ao vivo no Facebook, feita em prantos por Agnelo, irmão que, mesmo no grupo de risco do covid-19, atravessou o país para se despedir.

A ideia inicial da família era cremar o corpo do enfermeiro e levar as cinzas para o sítio em que os pais de Moura vivem, no interior paraibano, onde cresceu. As dificuldades burocráticas da pandemia fizeram com que  se decidisse pelo enterro, cujos restos mortais serão cremados daqui a três anos.

“A gente queria trazer pelo menos para fazer uma cerimônia simbólica para a família, aqui. E a gente não conseguiu, era muito burocrático, não tinha tempo hábil”, conta a jornalista Mafalda Moura, de 40 anos, irmã do enfermeiro e que acompanhou tudo de João Pessoa.

Segundo ela, cerca de 12 pessoas compareceram ao enterro, entre primos, um dos irmãos e amigos mais próximos - todos utilizavam máscaras. Os profissionais que atuaram no sepultamento, em um cemitério privado de Santo André, no ABC Paulista, vestiam macacões de proteção. 

“O que impediu as pessoas de irem foi a rapidez que tudo tinha de acontecer. Não tinha velório, não tinha voo da Paraíba para o Sul. E nem as pessoas próximas lá de São Paulo (conseguiram ir), porque a gente não teve tempo hábil de avisar”, explica. “Ele tinha um milhão de amigos, conhecia muita gente.”

“Foi injusto, sabe. O Idalgo tem uma história de vida muito bonita. São mais de 20 anos dedicados à enfermagem. Começou como técnico, foi auxiliar e, depois, se formou (na graduação). Sofreu muito para se formar, filho de pobre, do interior da Paraíba. Tinha época do ano que tinha três empregos para pagar a faculdade e se manter em São Paulo”, descreve a irmã.

“Ele estava na linha de frente, tratando isso (covid-19). Foi infectado, internado e ficou só em um leito de UTI, não tinha família e amigos perto. A gente não podia visitar, nem ver de longe. Foi enterrado sem abrir o caixão. A gente pôs uma foto em cima para enterrar”, lamenta. “Morrer e ser enterrado desse jeito. Acho que a gente não vai esquecer nunca. Não tem nada mais doloroso do que isso”, diz ela.

“Ele deixa um legado muito importante, do bom servidor, bom funcionário, do cara que gosta de servir. Quando ele estava já sendo atendido (com suspeita do vírus), já com a saúde debilitada, falou para a minha mãe: ‘só fico triste porque vou passar 14 dias em casa e não vou estar aqui dentro para ajudar os meus companheiros, porque o negócio aqui está feio'. Ele achava que iria para casa, mas, nesse mesmo dia, já foi internado, entubado e não saiu mais vivo.”

Moura ficou cerca de 12 dias internado na UTI do Hospital Municipal do Tatuapé, zona leste da capital paulista, onde trabalhava. Segundo familiares, chegou a ser tratado com cloroquina, que era uma das últimas esperanças para reverter a situação.

Natural de São José de Espinharas (PB), não era casado nem tinha filhos. Vivia em São Paulo há 26 anos. “Não falo porque era meu irmão”, diz Mafalda, “foi uma das melhores pessoas que conheci.” “Ele é idolatrado na nossa cidade, não só por familiares, por todo mundo, você não imagina o tamanho da comoção.”

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Coveiros 'astronautas', quatro parentes e nada de abraços: assim Nazareno, 72 anos, foi enterrado

Cuidados especiais tiveram de ser tomados antes mesmo que o resultado do exame confirmasse que a morte foi, de fato, provocada pelo novo coronavírus

Fábio Grellet, O Estado de S.Paulo

01 de abril de 2020 | 20h31

RIO - Apenas quatro familiares acompanharam, às 15h15 desta quarta-feira (1º), o enterro de Nazareno Costa, de 72 anos, no cemitério São Francisco Xavier, no Caju (região portuária do Rio). Os coveiros vestiam luvas, máscaras e outros equipamentos de proteção. Costa morreu com suspeita de covid-19. O enterro, realizado antes que o resultado do exame fique pronto e confirme ou descarte a contaminação, exigiu os cuidados especiais. O homem sepultado morava na Baixada Fluminense, periferia da Região Metropolitana fluminense.

“Os coveiros estavam parecendo astronautas”, disse o pastor Ismael China, amigo da família há anos e convidado a prestar assistência espiritual. “Normalmente a gente encheria dois ônibus com amigos e familiares e traria ao cemitério para acompanhar a cerimônia, mas nessa situação não dá, seria muito perigoso.”

Integrante da  Assembleia de Deus Ministério Plantar, no Jacarezinho (zona norte do Rio), China lamentou que a suspeita de possível contaminação tenha impedido amigos de se despedir de Nazareno e impossibilitado os abraços de consolo. “Acompanhei vários velórios e enterros nas últimas semanas, e este é o primeiro envolvendo alguém suspeito de ter morrido devido ao coronavírus. Todo enterro é triste, mas essa situação é diferente, pior ainda. É uma pena, não tem aquele momento afetivo, não podemos cumprimentar as pessoas”, afirmou. “Os familiares que conviveram com o senhor Nazareno nos últimos dias, antes de ele adoecer, continuam tensos, porque não sabem se foram contaminados. E a mulher dele é idosa.”

Segundo China, Costa morava no Jardim Anápolis, em Belford Roxo (Baixada Fluminense). “No sábado a filha dele, Patrícia, que frequenta a igreja no Jacarezinho, me ligou contando que o pai estava doente e havia sido internado. Passei a acompanhar a situação e pedir por ele, mas foi tudo muito rápido. Em três dias seu Nazareno morreu”, narrou o pastor. “Ele teve gripe, e tudo leva a crer que foi mesmo o coronavírus”.

O pastor disse ainda que “a partir de agora vai ser assim, vamos aprender a fazer cerimônias onde não será permitido se aproximar, dar um abraço". Abalada, a família de Costa preferiu não conversar com a reportagem.

Velório pela internet

Para evitar o risco de contaminação, o Cemitério da Penitência, vizinho do São Francisco Xavier, no Caju, oferece o velório virtual, criado antes mesmo da pandemia. O pacote com esse tipo de velório inclui cerimonial com projeção de vídeo com mensagens de despedida, pétalas de rosa e gelo seco, em capela para até 150 pessoas. Tudo custava R$ 4,5 mil ou R$ 5,5 mil, conforme a capela escolhida, mas até 30 de abril a parte virtual não está sendo cobrada. Há , porém, os custos regulares de um enterro.

Em março, o número de velórios online aumentou 33% em relação a fevereiro. Já o serviço de cremação registrou aumento de 44,4%. Com base nos atestados de óbito, a administração do cemitério informou que em março atendeu nove casos confirmados e quatro casos suspeitos de covid-19.

Para combater a disseminação do coronavírus, o cemitério restringiu o tempo de duração dos velórios. Agora, devem ocorrer em no máximo duas horas e, para casos suspeitos de covid-19, em uma hora. Nesses , as cerimônias são realizadas em tendas abertas, com o caixão fechado. O visor pode ficar aberto por 30 minutos, mas com um vidro de proteção interna que evita  contato do corpo com o ambiente . Em casos confirmados da doença, o cemitério repete a orientação do Ministério da Saúde para que o corpo seja cremado, sem realização de velório.

Outras medidas da administração do cemitério foram aumentar o número de equipamentos que oferecem álcool gel aos frequentadores; distribuir as cadeiras dentro das capelas de modo que fiquem a pelo menos dois metros de distância umas das outras; permitir o acesso à capela de apenas dez pessoas por vez; e orientar que só uma pessoa de cada vez tenha acesso ao caixão.

A concessionária Rio Pax, que administra seis cemitérios municipais, entre eles o de São João Batista, em Botafogo (zona sul), afirmou que passou a recomendar velório a céu aberto, com poucos familiares, em casos de covid-19. A concessionária informou ainda que em março ocorreram dois sepultamentos de vítimas da doença.

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Seis Estados investigam 500 mortes suspeitas por coronavírus; enterros foram realizados sem laudo

Familiares de mortos em São Paulo, Rio, Rio Grande do Sul, Bahia, Minas e Espírito Santo não sabem a real causa da morte dos parentes

Patrik Camporez, O Estado de S.Paulo

02 de abril de 2020 | 09h00
Atualizado 05 de abril de 2020 | 14h18

BRASÍLIA - Seis Estados brasileiros já enterraram, desde o início da pandemia do coronavírus, pelo menos 500 corpos sem saber a real causa dessas mortes. Segundo dados atualizados, nesta quinta-feira, pelas secretarias estaduais de Saúde, a causa de pelo menos  219 mortes ainda não haviam sido reveladas, até aquele momento, aos familiares.

São Paulo, que havia anunciado  uma força-tarefa de testagem, ainda falta identificar a causa de 108 mortes.  Minas Gerais investiga 55 casos e, Rio de Janeiro, 49.

Esses números reforçam uma prática que, entre o fim da última semana e o início desta, se alastrou por todas as regiões do País: o "enterro express", com caixão lacrado, sem que familiares tenham sequer uma previsão de quando vão saber a real causa da morte do ente. Com déficit de pessoal e equipamentos, os laboratórios de diversos Estados têm priorizado realizar os testes de pessoas vivas.

Uma portaria conjunta do Ministério da Saúde e do Conselho Nacional de Justiça (CNJ)  autorizou o sepultamento e a cremação de corpos antes mesmo da emissão das certidões de óbito por conta da pandemia do novo coronavírus. As novas determinações, publicadas na última terça-feira, 31, também determinam que os registros de óbito mencionem a possibilidade de acometimento pela doença em casos de morte por doença respiratória suspeita.

Na Bahia, cinco mortes estavam em investigação na tarde desta quarta-feira. Para melhorar a identificação de casos de coronavírus, o governo do Estado adotou o método da busca ativa, contatando cada um dos hospitais da unidade da federação diariamente. Dessa forma, já identificou, de 27 a 30 de março, 92 pacientes com suspeita de covid-19 que encontram-se internados.

Transparência

No Nordeste, há mortes suspeitas em quase todos os Estados, mas muitos governos se recusam a divulgar os dados. Também não há transparência sobre quais critérios cada estado usa para declarar uma morte como suspeita. Isso tem levado, inclusive, a um processo de judicialização das mortes por covid, já que parentes não admitem ter seus entes enterrados sem saber a real causa da morte.

No Ceará, por exemplo, a juíza Luciana Teixeira de Souza, da Corregedoria dos Presídios e Estabelecimentos Penitenciários de Fortaleza, ordenou que seja investigada a morte de um preso suspeito de ter contraído coronavírus.

George Ivan Dionísio da Silva, de 31 anos, morreu no dia 22 de março. Ele estava preso na Casa de Privação Provisória de Liberdade Agente Elias Alves da Silva (CPPL 4). Até o momento, a defensoria pública estadual diz não saber se a Secretaria Estadual da Saúde fez qualquer exame no cadáver. O homem, portador de HIV, foi encaminhado à Unidade de Pronto atendimento do município de Horizonte, depois de apresentar complicações respiratórias.

Conforme revelou o Estado, na última semana, o governo de Minas Gerais cogita inclusive exumar corpos que foram enterrados sem passar por exames, caso o procedimento seja solicitado pela autoridade policial. Minas analisa 34.018 casos suspeitos para coronavírus. Um total de 45 mortes óbitos estão em investigação e três foram confirmados. O governo mineiro considera óbitos em investigação ou suspeitos “aqueles casos que aguardam a realização de exames laboratoriais e levantamento de informações clínicas e epidemiológicas”.

Nos Estados, fica por conta das Secretarias de Saúde, e dos seus laboratórios centrais, fazer a análise do material que é enviado para testagem. O material também pode ser coletado após o óbito do paciente.  Nas regiões onde há deficiência nos laboratórios que realizam os testes, como em boa parte do Nordeste, familiares de mortos demoram até 15 dias para saber se o parente morreu ou não por conta da covid-19.

Testes

Após ser cobrado pela demora para entregar os testes para familiares de mortos com suspeitas de covid-19, o Governo do Estado de São Paulo anunciou que vai ampliar a rede de testes para o novo coronavírus no Estado.

As unidades regionais do Instituto Adolfo Lutz, sitiadas em Santo André, Sorocaba, Ribeirão Preto, Bauru e São José do Rio Preto, estarão habilitadas a processar amostras, com capacidade de 500 exames por dia em um primeiro momento, podendo chegar até mil.

“Vamos reforçar a rede de exames e garantir, desta forma, um monitoramento efetivo sobre a circulação do coronavírus em nosso Estado. Assim, poderemos adotar as medidas necessárias para proteger nossa população”, disse o governador João Doria.

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