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Coronavírus: Em Minas, 'armoço' com frango caipira vira caso de polícia

Em Andradas, município mineiro de 40 mil habitantes, reunião de amigos durante quarentena quase acaba em confusão

André Borges, O Estado de S.Paulo

27 de março de 2020 | 16h10

BRASÍLIA – A ordem foi dada pelo prefeito. Fechem os comércios, parques e clubes. Nada de aglomeração pela cidade. Qualquer rodinha com mais de dez pessoas já é uma festa, e isso está proibido. Pedras foram colocadas nas entradas do município. Só entra quem for morador na cidade. Nas ruas, a guarda municipal vai fazer ronda para ver quem está descumprindo as ordens. Se é mesmo a quarentena que vai salvar as vidas, ninguém vai morrer de coronavírus na pacata Andradas, município mineiro de 40 mil habitantes encravado na divisa de Minas Gerais com São Paulo.

Certo. Mas e o almoço com frango caipira que já estava combinado com os amigos, como fica? Alisson não resistiu. Não é possível que o prefeito iria atrapalhar o convescote com os amigos. Pelo WhatsApp, “Jatubá”, como Alisson é conhecido entre os mais chegados, combinou o encontro. Tomou cuidado. Para não chamar a atenção dos vizinhos, pediu para que todo mundo colocasse os carros dentro do terreno, que é cercado por um muro alto. Os amigos toparam. Frango caipira fervendo na panela, cerveja gelada, música... a festa começou!

Jatubá só não atentou para um detalhe. No prédio da frente, seu amigo Rafael, o “Feijão”, que não foi chamado para o almoço, acompanhava tudo da janela. Feijão não teve dúvida. Passou a mão no telefone e ligou para a guarda municipal. “Seu guarda, tem um festão acontecendo aqui na minha rua...”.

Foi questão de minutos. O frango caipira ainda cozinhava no panelão de Jatubá quando a campainha tocou. Jatubá foi até o portão achando que podia ser um amigo atrasado, quando se viu de frente com os guardas. Disseram que tinham recebido uma denúncia de aglomeração. Era hora de acabar com a festa.

Jatubá, de olhos arregalados, explicava que não era festa, mas um almoço entre amigos. Nada disso, está proibido, dizia a guarda municipal. Aos risos, Feijão registrava tudo da janela, mandando fotos e mensagens aos amigos pelo WhatsApp, para um grupo que inclui o próprio Jatubá, que passava apuros com a polícia. Indignado, Jatobá disparou um áudio contra o Feijão:

“Oh, chifrudo. Tamo fazendo armoço. Tamo em seis aqui, oh chifrudo. Foi você que denunciou, né? Corno. Quanto ceis tão aí? Eu vo mandar a guarda nesse apartamento ai? Eu quero até vê agora, chifrudo.”

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Jatubá, depois de muita conversa, conseguiu mostrar que só tinha seis pessoas em casa, e não dez. A guarda deixou o almoço seguir.

O grupo veio abaixo. Chorando de rir, os amigos saíram em defesa de Feijão, dizendo que ele tinha razão, que história é essa de fazer frango caipira com amigos, se a ordem era não se reunir, justamente para impedir o avanço do novo coronavírus. Carlos, o “Ju”, que está no grupo de WhatsApp, mandou um áudio para cima de Jatobá, tratando de enquadrar o amigo:

“Tá certim, Jatubá. Tem que prende ocêis memo. É seis! Num interessa. Você não entende i-so-la-men-to? O que é um isolamento? É ocê fica dentro da tua casa, céguim! Então, vai pra tua casa e fica lá ocê e tua mãe. Num é procê ficar no meio da farra, leva o zoto. Se a gripe pega ocê, ocê vai vê. Vai apanha ainda, além de pega gripe.”

Ouça aqui

Os demais amigos também não perdoaram. “Já recebi sua foto com a guarda municipal em uns seis grupos.” A foto de Jatobá abrindo o portão para a guarda municipal correu a cidade e chegou à prefeitura. Numa “live”, o prefeito de Andradas, Rodrigo Lopes (PMDB) lembrou a população sobre a quarentena imposta ao município e pediu às pessoas que evitem fazer churrascos e almoços com muita gente.

No grupo de WhatsApp, Jatubá recebeu ainda outro alerta dos amigos, para que não brinque com o conoravírus. “Cê tem mais de 60, Jatubá...”

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