Yara Nardi/Reuters
Yara Nardi/Reuters

Coronavírus está em mais de 50 países e a situação ainda vai piorar

Mas há maneiras comprovadas de limitar os danos da circulação do vírus

The Economist, The Economist

29 de fevereiro de 2020 | 15h33

Nas cenas iniciais de O eclipse, de Michelangelo Antonioni, as ruas italianas, assustadoramente vazias, oferecem um forte contraste com o frenesi do mercado de ações. Esta semana viu essa impressionante justaposição ocorrer de verdade. 

Sob um céu de ininterrupta nuvem cinza, figuras isoladas se apressavam pelos espaços entre os imponentes prédios de escritórios de Milão e por suas amplas avenidas sem tráfego. Enquanto isso, dentro de uma frenética Borsa Italiana, os preços das ações entravam em colapso.

Em 21 de fevereiro, as autoridades italianas anunciaram que 16 casos de covid-19, a doença associada ao novo vírus sars-cov-2, haviam sido detectados em Codogno, uma pequena cidade na Lombardia, 60 km a sudeste de Milão. No dia seguinte, o número chegava a 60, e cinco idosos haviam morrido. No dia 23, foram estabelecidas “zonas vermelhas” ao redor das áreas infectadas. 

Dentro das zonas há um bloqueio estrito; fora delas, 500 policiais e soldados impedem que as pessoas saiam. No mesmo dia, o governo da Lombardia ordenou o fechamento de todo e qualquer estabelecimento onde houvesse aglomeração de pessoas, como cinemas, escolas e universidades. A Inter de Milão cancelou uma partida em casa; a lendária casa de ópera La Scala está fechada; os turistas são barrados da catedral – os fiéis ainda tenham permissão para frequentá-la.

O Irã, onde os primeiros casos de covid-19 foram registrados dois dias antes dos da Itália, também fechou escolas e cancelou jogos de futebol. E também permitiu que os cultos religiosos continuassem, o que parece ter provocado consequências terríveis. 

O fluxo incessante de peregrinos para as mesquitas e santuários de Qom prosseguiu, apesar de a cidade ter sido o foco dos primeiros casos. Ahmad Amirabadi Farahani, parlamentar local, disse em 24 de fevereiro que o número de mortos chegara a 50, embora outras autoridades neguem o dado. Acredita-se que casos recentes de covid-19 no Bahrein, Kuwait, Iraque, Líbano e Paquistão estejam ligados a pessoas que retornaram do Irã.

Os surtos na Itália e no Irã, juntamente com um grande avanço da doença na Coreia do Sul, convenceram muitos epidemiologistas de que as tentativas de manter o vírus confinado à China chegaram ao fim; agora ele se espalhará de país em país para todo o mundo. Em 27 de fevereiro, já havia casos registrados em 50 países. 

Estudos sugerem que o número de pessoas que deixaram a China portando a doença é significativamente maior do que se inferia a partir dos casos registrados até então em outros lugares, uma forte sugestão de que a propagação do vírus foi subestimada. Algumas autoridades de saúde pública ainda dizem que a janela de oportunidade para a contenção está cada vez mais fechada. Na verdade, parece que já foi batida com toda a força.

Esta é a mensagem que os mercados financeiros do mundo receberam; a bolsa italiana em Milão não estava sofrendo sozinha. Os investidores já haviam reagido como se os impactos econômicos da covid-19 fossem se limitar à China e àquelas empresas cujas cadeias de suprimentos atravessam a região. A disseminação da doença para Coreia do Sul, Irã e Itália provocou uma liquidação massiva em 24 de fevereiro. No dia seguinte, os preços caíram ainda mais quando os Centros de Controle e Prevenção de Doenças alertaram os americanos para se prepararem para o vírus.

Na manhã de 27 de fevereiro, as bolsas haviam caído 8% nos Estados Unidos, 7,4% na Europa e 6,2% na Ásia em relação aos últimos sete dias. As indústrias, commodities e papéis mais sensíveis ao crescimento global, ao comércio transnacional e a espaços públicos densamente frequentados foram os mais atingidos, com grandes quedas nos preços do petróleo e das ações de companhias aéreas e de empresas proprietárias de cruzeiros marítimos, cassinos e hotéis. 

Os investidores se refugiaram em ativos considerados seguros: os rendimentos dos títulos do Tesouro de dez anos atingiram a mínima histórica de 1,3%. O lugar menos atingido foi a China, onde já acontecera uma grande liquidação. 

Os investidores, assim como algumas autoridades de saúde pública, estão começando a pensar que por lá a epidemia está sob controle, pelo menos por enquanto. Mas, se os modelos econômicos desenvolvidos para outras doenças forem válidos neste caso, o mundo rico viverá um novo risco de entrar em recessão à medida que a epidemia continuar. Isso trará à China e a todos os outros países um novo conjunto de problemas.

 

Todas as rotas possíveis

É impossível prever de que maneira o vírus se espalhará nas próximas semanas e meses. As doenças podem seguir rotas peculiares e se firmar em áreas improváveis à medida que viajam de carona pelo mundo. 

Dois casos no Líbano geram preocupações com os campos onde milhões de refugiados da Síria agora estão aglomerados e expostos ao inverno. Mas, independentemente da maneira exata como o vírus se espalhará, o certo é que irá se espalhar. A Organização Mundial da Saúde (OMS) ainda não declarou que a covid-19 é uma pandemia – ou seja, um grande surto que afeta o mundo inteiro. Mas é do que se trata agora.

Parte da reticência da OMS se deve ao fato de que essa palavra que começa com P assusta as pessoas, paralisa a tomada de decisões e sugere que não há mais possibilidade de contenção. É, de fato, assustador – até mesmo porque, desde que as notícias da doença surgiram pela primeira vez em Wuhan, o grande foco de atenção fora da China tem se colocado sobre a necessidade de evitar uma pandemia. É terrível que milhares de mortes agora pareçam prováveis – e milhões ainda possíveis. Mas a covid-19 é o tipo de doença com a qual, em princípio, o mundo sabe como lidar.

O percurso de uma epidemia é desenhado por uma variável chamada taxa reprodutiva, ou R. Essa taxa representa o número de casos adicionais que serão gerados a partir de cada novo caso. Se R for alta, o número de pessoas recém-infectadas chega rapidamente a um pico antes começar a recuar, por falta de novas pessoas a serem infectadas. Se R for baixa, a curva sobe e desce mais lentamente, nunca atingindo os mesmos picos. Com o sars-cov-2 agora se espalhado pelo mundo, o objetivo das políticas de saúde pública, seja em escala local, nacional ou global, é achatar a curva, distribuindo as infecções ao longo do tempo.

Isto traz dois benefícios. Primeiro, os sistemas de saúde têm mais facilidade em lidar com a doença quando as pessoas infectadas não aparecerem ao mesmo tempo. Melhor tratamento significa menos mortes; mais tempo permite que os tratamentos sejam aprimorados. Segundo, o número total de infecções ao longo da epidemia pode ser menor.

Para achatar a curva, é preciso diminuir a propagação. O vírus parece ser transmitido principalmente por meio de gotículas de saliva que as pessoas infectadas tossem ou espirram no ar. Isto significa que a transmissão pode ser reduzida por barreiras físicas, boa higiene e limitação às várias formas de convivência – uma estratégia conhecida como “distanciamento social”. Tais medidas já são utilizadas rotineiramente para controlar a propagação do vírus influenza, causador da gripe, que se espalha de maneira semelhante e é responsável por centenas de milhares de mortes por ano.

A gripe, como muitas outras doenças respiratórias, prospera no ar frio e úmido. Se a covid-19 se comportar da mesma maneira, espalhando-se menos à medida que o tempo fica mais quente e seco, o achatamento da curva trará um benefício extra. Conforme o inverno der lugar à primavera e, depois, ao verão, a taxa de reprodução cairá por conta própria. Conter o estágio inicial da pandemia significa menos mortes antes que o hiato do verão proporcione mais tempo para preparar atendimentos e desenvolver novos remédios e vacinas – esforços que já estão em andamento.

Ben Cowling, epidemiologista da Universidade de Hong Kong, diz que a intensidade das medidas que os países implementam para achatar a curva dependerá de quão letal for o sars-cov-2. Já está claro que a covid-19 não é assim tão ruim para a maioria das pessoas que ficam doentes, especialmente para os jovens: nada mais que tosse e febre. Para as pessoas idosas ou com problemas crônicos de saúde, como doenças cardíacas e diabetes, existe o risco de a infecção se tornar grave e, às vezes, fatal. Ainda não se sabe, no entanto, com que frequência haverá esse risco.

A taxa de mortalidade de uma epidemia só pode ser definitivamente calculada depois que ela passa: você pega uma população na qual sabe quantos morreram e faz testes com uma grande amostra aleatória para verificar a presença de anticorpos contra o patógeno em questão – anticorpos que as pessoas só terão em seu sistema se chegaram a ser infectadas. As autoridades chinesas acabaram de aprovar a realização desses testes, mas ainda não os começaram.

As estimativas da proporção entre mortos e infectados feitas durante os acontecimentos são suscetíveis a dois tipos de erros. Um afeta o numerador – o número de mortos – e outro, o denominador – o número de infectados.

 

Frações mistas

O primeiro erro decorre do fato de que sempre existem pessoas destinadas a morrer que ainda não morreram. As mortes por covid-19 geralmente ocorrem cerca de três semanas após o início dos sintomas. Se você dividir o número de mortos em um determinado momento pelo número de infectados até então, não irá contabilizar as pessoas que morrerão nas próximas semanas, e seu resultado será enganosamente pequeno.

O segundo tipo de erro, muitas vezes cometido no começo de uma epidemia, aponta para a outra direção. As primeiras pessoas diagnosticadas tendem a ficar muito doentes. São necessárias uma investigação mais aprofundada e uma conscientização pública mais ampla para se chegar ao ponto em que todas as pessoas sofram apenas sintomas mais leves. Antes que isto seja feito, uma subestimação do número de infectados provoca uma superestimação da taxa de mortalidade.

A análise de dados de mais de 40 mil pacientes chineses que haviam testado positivo para o vírus até 11 de fevereiro revelou que, até então, cerca de 80% apresentavam sintomas leves, 14% tinham sintomas graves o suficiente para exigir assistência hospitalar e 5% estavam em estado crítico, demandando cuidados intensivos que geralmente incluíam auxílios mecânicos à respiração. Com base nesses dados, a taxa de mortalidade em Hubei, província onde se localiza Wuhan, foi de 2,9%. Fora de Hubei, a taxa ficou em 0,4%.

Existem várias razões pelas quais se esperava que a taxa em Hubei realmente fosse mais alta do que em outros lugares. Seus hospitais não tinham sido alertados sobre o afluxo repentino de pacientes de covid-19 e, por isso, ficaram sobrecarregados, ao passo que hospitais de outras cidades tiveram mais tempo para se preparar, disponibilizando respiradores e oxigênio. Os médicos de Hubei precisaram descobrir como tratar uma doença totalmente nova, enquanto os de outros lugares puderam aprender com os sucessos e fracassos de seus colegas.

Mas muitos especialistas pensam que boa parte da diferença decorre do problema do denominador baixo no estágio inicial. Em outros lugares, houve tempo e incentivo para o diagnóstico de casos menos graves e, portanto, a fração que se mostrou fatal foi menor. No momento, os epidemiologistas calculam que a verdadeira taxa da covid-19 esteja na faixa entre 0,5 a 1%. No caso da SARS, doença causada por outro coronavírus que eclodiu em 2003, a taxa na China não chegou a ser totalmente determinada; mas, em todo o mundo, a OMS a calculou em cerca de 10%. A taxa da gripe sazonal nos Estados Unidos geralmente fica em torno de 0,1%.

A taxa de mortalidade não é uma característica inerente ao vírus; ela também depende dos cuidados recebidos. Isto coloca os países mais pobres sob um risco ainda maior. Estes países costumam ter sistemas de saúde pública mais precários e, portanto, podem esperar níveis mais altos de doenças graves e morte – incluindo casos entre os profissionais de saúde de pronto-atendimento, sobrecarregados e inadequadamente protegidos. Esse fato aumenta a pressão sobre seus sistemas de saúde. 

E tudo isso será exacerbado pelos efeitos econômicos da pandemia, os quais os modelos sugerem que também serão maiores nos países mais pobres. Taxas de mortalidade mais altas causam maiores impactos na força de trabalho. Os setores de serviços dos países mais pobres são menos digitalizados, o que significa que precisam de contato face-a-face e, portanto, têm maior probabilidade de afugentar os consumidores. E os países pobres sofrem com a fuga de capitais quando os mercados financeiros se assustam. Eles podem perder a capacidade de pedir empréstimos exatamente quando mais precisam.

Melhores cuidados de saúde reduzem a taxa de mortalidade. Melhores intervenções de saúde pública reduzem a taxa total de infecções. Os epidemiologistas começam a gerar seus modelos de curvas com uma “taxa reprodutiva básica”, R0. Esta é a taxa pela qual os casos ocasionam novos casos em uma população que nunca tinha visto a doença (e, portanto, não tem imunidade) e que não está fazendo nada para impedir sua propagação. Com base nos dados de Wuhan, as estimativas de R0 para a covid-19 se situam entre 2 e 2,5, de acordo com a OMS. Acadêmicos consideram que uma R0 nessa faixa pode infectar algo entre 25% e 70% do mundo.

Mas a maneira como uma epidemia realmente se dissemina não depende de R0, mas sim de R, a taxa reprodutiva efetiva. Quando os formuladores de políticas públicas e as autoridades de saúde pública fazem seu trabalho e a população presta atenção e confia, R fica menor que R0. Quanto mais baixa fica R, mais plana fica a curva. Com R abaixo de 1, a curva começa a se inclinar e descer. Isto não acaba com o vírus de uma vez. Mas o limita a surtos esporádicos, geralmente quando uma rara pessoa infectada se mistura com muitas pessoas vulneráveis (como as que se encontram em casas de repouso, por exemplo).  

Volta às aulas

É possível que os enormes esforços da China tenham reduzido R até aqui – por isso o atual otimismo no país. Fora de Hubei, as cidades que preventivamente impuseram restrições e proibições a viagens e aglomerações apresentaram curvas epidêmicas mais planas; a medida que fez a maior diferença foi o fechamento do transporte público. 

Mas agora há o risco de que, conforme as pessoas forem voltando ao trabalho e à escola, novas infecções comecem a surgir. Bruce Aylward, que liderou um grupo de especialistas enviado pela OMS para investigar a situação na China, diz que as autoridades usaram esse tempo durante o qual a transmissão foi severamente suprimida para preparar e reequipar hospitais.

À medida que a pandemia se desenrola, a taxa de reprodução em diferentes partes do mundo será diferente de acordo com as políticas adotadas e com a disposição do público em segui-las. Poucos países poderão impor controles tão rigorosos quanto os da China. 

Na Coreia do Sul, o governo invocou o poder de interromper à força quaisquer atividades públicas, como protestos em massa; escolas, aeroportos e bases militares estão fechados. O Japão está pedindo às empresas que introduzam horas de trabalho escalonadas e reuniões virtuais, limitando tanto as aglomerações no transporte público quanto os contatos no trabalho. Outros países desenvolvidos ainda não foram tão longe, por enquanto. Algo aceitável em um país pode resultar em total desobediência, ou mesmo protestos, em outro.

Também haverá bodes expiatórios e medo. Em Novi Sanzhary, na Ucrânia, um ônibus cheio de evacuados de Wuhan foi atacado. Para amenizar os temores, a ministra da Saúde do país se juntou aos evacuados em quarentena, demonstrando que ela podia fazer seu trabalho remotamente. Outros políticos não serão tão nobres assim. 

Em um mundo onde a desinformação nas mídias sociais já é uma ferramenta muito utilizada, a covid-19 oferecerá novas oportunidades para espalhar medo, incerteza e dúvida. Tentativas de retardar a propagação do sars-cov-2 por esses meios podem ser uma maneira fácil de potencializar seus danos.

Em países com sistemas de saúde pública mais robustos, os cientistas irão gerar modelos epidêmicos conforme a epidemia for se desenrolando. Essa modelagem já fornece informações para as medidas de saúde pública durante a temporada de gripe em muitos países, sugerindo quando pode ser prudente tomar certas decisões. Essa abordagem, pelo menos em princípio, pode ser adaptada para a covid-19. 

Mas, por enquanto, esses modelos adaptados serão muito menos úteis que os da gripe, porque pouco se sabe sobre a biologia básica da covid-19. Por exemplo: ainda é tema de debate se as pessoas infectadas podem transmitir a doença antes de apresentarem algum sintoma. Se puderem, será muito menos eficaz isolar as pessoas infectadas, porque muitas delas nem saberão que carregam o vírus.

Também não há explicação para o baixo número de crianças diagnosticadas com a doença até agora. Elas são imunes? Ou apresentam sintomas muito leves e diferentes? De qualquer forma, isto deixa a dinâmica da covid-19 bem diferente daquela da gripe, em que as altas taxas de disseminação entre as crianças são um grande problema e o fechamento de escolas pode trazer grandes ganhos.

Por melhor que as pessoas lidem com o distanciamento social solicitado, a covid-19 prejudicará a economia. Até recentemente, analistas de mercado esperavam que a China tivesse um primeiro trimestre lento, mas que o PIB mundial fosse pouco afetado. Quando, em 22 de fevereiro, o FMI revisou sua previsão de crescimento global para o ano, a queda foi de 3,3% para 3,2%. Pode-se esperar que uma pandemia total tenha um impacto muito mais profundo.

Mensagem viral

O trabalho sofre tanto com a doença quanto com o distanciamento social. O sistema financeiro não foi muito afetado pelas quedas do mercado desta semana. Embora os cantos mais arriscados dos mercados de dívida tenham passado por algum nervosismo, os custos dos empréstimos para os maiores bancos ocidentais permaneceram bastante estáveis. 

No entanto, grandes riscos pouco compreendidos provavelmente reduzirão o investimento. Os consumidores podem parar de gastar, tanto por medo quanto porque os controles sobre as aglomerações públicas limitam as oportunidades para vários tipos de diversão.

Tais efeitos podem ser desproporcionais à causa. Quando a Coréia do Sul teve um pequeno surto de 186 casos de Síndrome Respiratória no Oriente Médio em 2015, o impacto na economia totalizou US $ 8,2 bilhões, ou cerca de US $ 44 milhões por infecção, aponta Olga Jonas, da Universidade de Harvard. Cidades com amplos setores de serviços ficam particularmente vulneráveis; o impacto econômico da SARS foi maior em lugares como Hong Kong e Pequim.

Podemos obter algumas pistas do que está por vir a partir do modelo econômico de uma pandemia de gripe criado em 2006 por Warwick McKibbin e Alexandra Sidorenko, ambos na Universidade Nacional da Austrália. 

A covid-19 não é uma gripe: parece atingir com menos frequência as pessoas no ápice da vida profissional, o que é bom, mas exige mais tempo de recuperação, o que é ruim. Mas os cálculos do modelo – que estavam sendo atualizados para a covid-19 quando esta matéria foi publicada – dão uma ideia do que pode estar por vir.

No cenário “grave”, uma pandemia semelhante ao surto da gripe espanhola de 1918-19, queda de quase 5% no PIB global. Se isto acontecesse hoje, provocaria uma recessão de tamanho similar à de 2009. No cenário “moderado” – 30% das pessoas infectadas, perdendo em média dez dias de trabalho cada, e uma taxa de mortalidade de 0,25% – queda de apenas 0,8% no PIB global. Isto significaria perder cerca de ¼ do crescimento global anteriormente previsto para este ano.

McKibbin diz que o cenário moderado parece mais provável para a covid-19, o que sugere um impacto de 2% no crescimento global. Isto corresponde aos cálculos da consultoria Oxford Economics, que estima os custos possíveis da covid-19 em 1,3% do PIB. Esse fardo não seria distribuído por igual. 

A Oxford Economics vê os Estados Unidos e a Europa levados à recessão – algo particularmente preocupante para a Europa, que tem pouca margem para reduzir as taxas de juros e onde o país atualmente mais exposto, a Itália, já é motivo de preocupação econômica. Mas os países pobres sofreriam as maiores perdas de uma pandemia, em relação ao tamanho de suas economias.

À medida que a curva epidêmica vai subindo no mundo todo, pesquisadores biomédicos e especialistas em saúde pública se apressam em entender melhor a covid-19. Seus feitos já são impressionantes: há conversas realistas sobre evidências de que novos medicamentos podem surgir em meses e algum tipo de vacina, em um ano. 

Técnicas de distanciamento social já estão sendo aplicadas. Mas eles precisarão da ajuda de populações que não descartem os riscos nem entrem em pânico. Os clientes do Tempio Caffè, perto da Piazza Cavour de Milão, estavam certos: não se desesperar, mas se informar. Apenas uma das pessoas que tomava seu cappuccino com brioche usava máscara. E era chinesa. / Tradução de Renato Prelorentzou.


 

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